À sombra das árvores

O visual da sociedade, mesmo em eventos triviais, apresenta nuances intrinsecamente paradigmáticas e interpretativas. Compartilhando o mesmo assunto observa-se semblantes convictos, oposição, feição fatalista, resignada, indiferente. Essa pluralidade de expressões e feições quando sinceras são a essência da nossa humanidade.

Ao longo de um ano passamos por várias experiências alegres e dolorosas, em algum momento fomos rejeitados, nos isolamos, renascemos influentes e enfrentamos os fenômenos da vida cotidiana, sem que nossos destinos tenham sido alterados por forças invisíveis, sobrenaturais e incontroláveis.

Não é uma moda nova observar a vida acontecendo. É meu trabalho trazer o entendimento e interpretação aos episódios da vida, tais como o amor, a intimidade, música, política, consumo, ansiedade, violência, gênero, sexo, relacionamentos.

Georg Simmel, sociólogo alemão, foi uma espécie de precursor desse tipo de sociologia, que depois abandonou, e mais recentemente Zygmunt Bauman encampou o formato de conceber fatos da vida cotidiana como assunto central de seus estudos e tornou-se o guru da filosofia e sociologia que abordam as diversas formas de relações no fluxo e volatilidade da modernidade.

Na minha rua, curta, estreita e de mão única há sete barracas de cachorro quente e uma de churrasquinho, e é impressionante como a vida acontece de forma plena nesse ambiente a céu aberto. Casais namoram, crianças brincam, diálogos rudes, cenas de ciúmes, constrangimento, reconciliação, o beijo e a lua. Não é necessário distribuir questionário para saber o que pensam. Melhor sentar e olhar em volta cultivando a imaginação e buscando o dialógo.

Este final de semana os temas recorrentes foram a estação de ônibus climatizada inaugurada pelo prefeito Emanuel Pinheiro. Não falaram mal e querem uma igual nos bairros onde moram. Sobre a ministra do Trabalho que foi condenada a indenizar empregado em ação onde foi acusada do não pagamento de direito trabalhista, consideram uma vergonha mas dizem que no Brasil é assim mesmo, esse tipo de gente (políticos) não faz leis para cumprir.

Os frequentadores da praça voltam-se uns para os outros e se fecham em confidências enquanto comem. É fato que as aparências nos fornecem impressões sobre as pessoas, mas isso não implica expressar julgamentos, tampouco adentrar na extensão de seus infortúnios.

A atitude humana nos espaços coletivos é vulnerável ao modismo e a superficialidade, sem dúvida, mas é pulsante, indeterminada e espontânea. Em casa, o quadro pode mudar com a voz dos atores de jornais e novelas, no qual mistura-se a rotina e não impulsiona transformação alguma e, como observa Machado de Assis, é neste estado médio que é a condição vulgar da vida humana.

As pessoas são mais sensíveis à perspectiva de perder do que de ganhar

Difícil prever o que pode vir pela frente. Ano de eleições é complexo e interessante. O risco de perder o que se tem atormenta muito mais os políticos do que a excitação de ganhar de novo ou algo novo.

Como imaginar a vida sem pessoas batendo-lhe às portas, sem reuniões para participar, discursos, viagens, pedidos de empregos, de interferência, de usar a influência? Vês? Não é o poder que corrompe, mas o medo. O medo de perder o poder corrompe aquele que o exerce.

Fenômenos políticos são fascinantes e muitas vezes reveladores. Este ano porém, acho que todos os políticos estão aterrorizados pelo medo de perder as eleições. O medo de perder a eleição paralisa. Imagina desmantelar-se toda uma rede de relacionamentos, confiança, troca de favores, promessas e exposições! Sentir o olhar pesado do eleitor perguntando porque perdeu e devolver o olhar desafiador questionando se realmente votou.

Por mais que se desconfie, que se vigie o voto, não é possível tê-lo como certo. Voto é expectativa do cumprimento de uma promessa, uma confissão de dívida sem nota promissória assinada.

Não se enganem pensando que os escândalos envolvendo políticos não tenham deixado fantasmas assombrando uns e outros e, no quesito escândalo, nenhum partido, nenhuma instituição foi mais favorecida do que a outra e poucos homens transitam em público, livres de terem dedos apontados para si, como ocorreu com o Ministro Gilmar Mendes, meses atrás ao passear pelas ruas de Lisboa, Portugal, onde ele pretende morar.

Há quem viva com esse medo da humilhação pública. Isso ocorre porque os insultos tem sido revidados, embora às vezes divididos em campos partidários, onde as pessoas acham que devem humilhar cidadãos do lado contrário e nunca de seu próprio lado. Todavia é bom acompanhar o movimento dos corpos lânguidos em conluio no ano de eleição e por mais que pareça que os lados estão estabelecidos e os adversário dominados, atente-se para possíveis quebras de paradigmas e sintomas de avivamentos de traições.

Pode ser que o ano inicie sem debates vigorosos, sem articulações com musculatura suficiente para promover mudanças importantes; devemos continuar ignorando os partidos e votando nos indivíduos.

Nessa lógica, os políticos candidatos à reeleição já exercem força sobre os partidos, tem votos personalizados, são independentes e donos absolutos de suas campanhas. Mas por trás do entusiasmo, brota a natureza inevitável da desconfiança diante de desafios radicais e tempestades típicas das estações eleitorais.

Por ora, os confrontos políticos estão concentrados nos bastidores e somente quando os atores avançarem para o palco principal a especulação acabará. O que se segue é apenas o esforço para manter alimentada a fúria das mídias sociais.

Desconstrução

Diferentes de muitos não me preocupo apenas em construir meu ser, que foi acumulando saberes, crenças, descrenças, amor e desamor nas estradas da vida. Há muito em mim, que não foi agregado propositadamente, não me reconheço em muitas fases de andar e calar.

O que busco há certo tempo é livrar meu corpo e meu espírito de fardos, pessoais e sentimentais. Busco leveza. Uso para escrever nos jornais, as palavras que uso para falar comigo mesma. Se aconselho, sugiro, a intenção não é mostrar que sei e sim, mostrar a luz que enxergo quando a escuridão se faz mansa e latente.

Porque andar em linha reta, aceitar o peso de tudo que vivi, do que vivo e por certo, viverei não acrescenta a doçura que busco no viver. Estou deixando para trás o peso de tudo que não me faz sorrir mais, crer mais, sonhar mais. E assim tem sido, porque nem tudo que foi edificado no meu caminho leva-me ao lugar que almejo chegar. Houve o momento de juntar conhecimento, experiências e tralhas.

Livro-me agora do que excede à minha necessidade espiritual.

Descubra o que o Ano Novo reserva para você

Li um anúncio sobre a venda de um livro com as previsões de como será o ano de 2018 para pessoas de todos os signos, com dose generosa de bons acontecimentos, realizações de sonhos adormecidos, encontros inesperados. É forçoso acreditar que a leitura do destino esteja ali tão destacada no signo e destinada a pessoas distantes e distintas.

Acerca do futuro digo que as coisas acontecerão dentro dos limites do que escolhermos ou do que não pudermos evitar. Mas quem conhece o céu assegura que os alinhamentos dos astros interferem irremediavelmente nas nossas vidas e através de estudos de uma série de fatores é possível que os astrólogos ante vejam algumas possibilidades.

Um líder espiritual indiano diz que no plano sensível a vida pode ser uma combinação de destino e livre arbítrio. A chuva é o destino, molhar-se ou não, é sua escolha.

Previsível, a existência não é. Pense como seria a vida condicionada a levantar, deslocar para o trabalho, almoçar, trabalhar mais, assistir televisão, dormir, levantar… Nutrir a rotina pode ser confortável, mas logo os dias vão se esticar numa linha infinita atrás de nós, e a vida desprovida de significados é o anúncio que já não estamos mais vivendo.

Acontecimentos externos e alheios nos desviam de nossos caminhos, aproxima-nos de pessoas, tira-nos pessoas. A imprevisibilidade da vida faz curvas extraordinárias exatamente porque não precisamos exercer controle aborrecido sobre nosso destino na terra. Os problemas não são insuperáveis, ser feliz todos os dias não é tarefa realizável para o ser humano, mas o caráter importa e precisamos decidir que neste ano não aceitaremos a mentira, o fanatismo, o preconceito, a ignorância nem a mesquinhez.

No ano que passou recebemos e compartilhamos muitas mensagens com receita pronta ensinando tudo: como ter paz, meditar, reconciliar, viver com simplicidade, reconquistar a auto-estima. As mensagens de boas festas foram quase todas neste sentido: Shakespeare disse isso e aquilo, sobreviver, orar, amar e perdoar.
Ele não deve ter dito nada disso!

Mas sabe? Nem os astrólogos nem Shakespeare podem fazê-lo entrar em contato com sua verdadeira essência e torná-lo útil. Somente a generosidade ensina-nos a perder o medo de sermos bons e à medida que a nossa fé amadurece, podemos aprender a humildade e mudamos, reconhecendo claramente as fraquezas e virtudes nossas e dos outros.

O banal e o raro

É fato banal que a maior parte das riquezas estão concentradas nas mãos de uma minoria absurda e que a desigualdade produzida, embora de conhecimento de todos, seja escancarada apenas a cada divulgação de pesquisa e relatório sobre o tema; que ainda assim, os governos aprovam isenção e concedem benefícios indevidos às empresas dirigidas por empresários milionários.

É fato banal que a educação, um direito básico de toda criança, tenha sido sistematicamente negligenciada pelo Estado.

Não adianta a consciência de que o país precisa se envolver num esforço coletivo para avançar no combate à extrema pobreza, a violência, ao racismo se vamos seguindo o fluxo condenando em público, mas na prática, pouco ou quase nada fazemos para provocar diálogos sobre estes temas. Ainda há algo de desorientação no debate de questões sociais básicas.

É inegavelmente raro o aceno dos governantes no sentido de promover a reversão desses quadros, embora todos sabem que somente políticas públicas podem reverter a realidade social no âmbito das diversidades, das desigualdades e tensões e que a urgência é uma questão de sobrevivência.

Expressamos sentimento de terror diante da violência sem sentido. Mas em nosso Estado ainda existe e é praticado o crime de mando, a pistolagem, e somos apresentados a números fabulosos de índices de redução da criminalidade.

Raramente a violência bate à porta dos que detém o poder e em alguma medida quando isto acontece, a resposta é imediata.

É banal corremos riscos por situações que almejamos e que não se realizarão por que estão fora do contexto em que construímos nossas vidas e não raro, registramos o desequilíbrio e a frustração. O contraponto entre o que se quer e o que se pode ter é que todos estão sempre desafiados pelo que se desconhece, pelo insondável e inesperado.

É raro ficarmos presos em boas conversas, afastados dos ruídos, considerando os pensamentos e sentimentos das outras pessoas. Mesmo em conversas que parecem profundas provavelmente estamos vendo e experimentando apenas o que está na superfície.

Estamos perdendo o hábito do recolhimento, da oração, do silêncio, da música, da meditação, de fotografar a natureza com o olhar e salvar na memória os bons momentos. Porque são raros os lampejos de tempo que tiramos para nos reconciliar com nosso “eu” interior, buscarmos a cura e reacendermos a fé.

É precioso, porém raro, permanecer aberto e vulnerável. Pois raros são os homens que no curso dos tempos modernos se deixam capturar pela realidade complexa e surpreendente de viver em um mundo desencantado.

Interpretando o sociólogo brasileiro Octavio Ianni, raros são os homens que “almejam a vida sem carências, sem alienações, plural, múltipla, colorida, sonora, em movimento, como se estivesse nascendo novamente”.

Poder extraordinário

Ter um candidato não significa tomar alguém, como modelo. Não há como buscar em outro o reflexo do nosso caráter, das nossas relações, das circunstâncias, das durezas econômicas e sociais que vivemos.

Não deve haver ansiedade por trás da escolha do homem adequado em quem votar, até porque é necessário separar o homem dos rótulos que colam nele, com a finalidade de distorcer a imagem e saciar a sede de espetacularização da política, muitas vezes apresentada como teatro que para conquistar a audiência das massas se vale de episódios burlescos.

Estamos todos meio bravos, meio atentos, meio descontentes e não aceitamos mais condutas estranhas às nossas convenções e, ainda assim, estamos meio esperançosos e tentando enviar mensagens aos políticos expressando, embora sem exatidão, a raiva e a frustração diante do engessamento dos nossos sonhos, da frustração pelo distanciamento e falta de enfrentamentoquando se vota projetos e temas mais complexos e polêmicos.

Uma forma absolutamente informal, de se perceber em que nível está o pavio do cidadão está nos comentários escritos após entrevistas com políticos. Há rasgos enormes de descontentamento, sugestões e acusações, que precisam ser ouvidos e respondidos.

Neófitos em política podem desprezar os comentários, mas os que entendem e fazem política com apreço à opinião pública, passam os olhos nas mensagens subliminares ou explícitas ali escritas.

Penso que a pessoa que se importa em vir a público, embora às vezes usando nome fictício por temor, merece atenção porque deve sentir na pele a falta de proteção aos seus direitos e está buscando um meio de fazer sua mensagem chegar o mais longe possível, não é o caso de um mero expectador que adora polêmicas.

O que encontro no cidadão que participa da atividade política é a incorporação da insistência em não se tornar invisível, de elevara voz para cobrar benefícios sociais num sistema que sempre nos empurra para distante do centro do poder.

Ainda assim, insiste em ser ouvido, cobra explicações, mostra-se cioso de suas obrigações, sua condição social e de suas prerrogativas e que estas quando infringidas impulsionam-te a protestar e agir e intervir com razão, sem hipocrisia e indiferença.

Vinicius de Moraes escreveu que a maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade e de socorro.