O livreiro de Cabul

Que fique claro que interpretar uma cultura é algo extremamente delicado. No livro “A interpretação das culturas”, o antropólogo Clifford Geertz, aproxima a definição de cultura como o modo de vida global de um povo; o legado social que o indivíduo adquire do seu grupo; uma forma de pensar, sentir e acreditar; a forma pela qual um grupo de pessoas se comporta realmente; um conjunto de orientações padronizadas para os problemas recorrentes; um comportamento aprendido, entre outras citações conceituais.

Porém, a jornalista norueguesa Asne Seierstad possui uma formação que lhe concede credibilidade para que eu sugira a leitura desse livro, no momento em que é muito importante acompanhar a retomada do poder do Afeganistão pelos Talibãs. Licenciada em jornalismo, russo e história da filosofia na Universidade de Oslo, Asne foi correspondente para jornais noruegueses na Rússia e na China, cobriu a guerra do Kosovo, Chechênia, Afeganistão e Iraque.

A jovem jornalista foi para o Afeganistão no final de 2001 para cobrir a queda do governo do Talibã. Ao chegar em Cabul, encontrou o dono de uma rede de livrarias, o afegão Shah Mohammed Rais, 53 anos, formado em engenharia civil, um homem erudito, que tinha uma filial das livrarias em um hotel parcialmente destruído pelos frequentes ataques dos Talibãs.

Por quase três décadas, Shah Mohammed Rais, no livro de Asne, retratado como Sultão Khan, desafiou as autoridades, enfrentou a perseguição de sucessivos regimes repressivos, tanto comunistas quanto talibãs para levar livros aos cidadãos de Cabul. Ele foi detido, interrogado e preso pelos comunistas e também viu soldados analfabetos do Talibã queimarem pilhas de seus livros nas ruas. Muçulmano comprometido Khan é apaixonado por livros.

Estabelecida a confiança entre ambos, a jornalista foi morar na casa de Shah Mohammed Rais e sua família para documentar a rotina da vida doméstica da família (no livro citada como Família Khan). A jornalista viveu quatro meses com a família afegã e depois escreveu um relato detalhado da experiência, no qual ela retratou o livreiro como um intelectual liberal em público, um homem que lutou pela liberdade de expressão no Afeganistão, mas oprimiu e reprimiu as mulheres de sua própria família.  Dessa narrativa nasceu o livro “ O livreiro de Cabul”, que se tornou um best-seller, traduzido para mais de 30 idiomas.

No livro não há muitas citações de fatos históricos, tampouco foca na instabilidade nas zonas tribais entre  Afeganistão e Paquistão. A autora concentra maior atenção na denúncia da sociedade afegã, que sistematicamente nega às mulheres dignidade e autonomia. As mulheres afegãs, mesmo após a queda do Talibã permaneceram estruturalmente subordinadas aos homens afegãos.

Em outra parte do livro, a autora reforça traços de conflito cultural nas práticas diárias do “livreiro”, como o abuso e descaso dele contra as pessoas com as quais convive. Ele manda para o Paquistão sua fiel há 16 anos para abrir espaço na casa para uma segunda esposa que havia comprado, uma jovem de 16 anos. Força o filho de 12 anos a trabalhar o dia todo no saguão de um  hotel, vendendo doces em uma barraca úmida que a criança chamava de “o quarto sombrio”. O mais surpreendente é que “o livreiro” nega ao menino acesso à educação. A irmã do Sultão Khan, Leila é praticamente uma escrava doméstica, faz todos os trabalhos da casa e é proibida de sair as ruas. Leila aprendeu inglês e sonha trabalhar como professora, mas precisa que um de seus parentes se dê ao trabalho de acompanhá-la a sede da Secretaria de Educação para preencher os documentos necessários,mas eles não lhe dão atenção.

Ao receber um exemplar do livro em inglês, o “livreiro de Cabul” sentiu-se traído pela jornalista norueguesa e uma batalha judicial foi travada contra a autora do livro, que se recusou a pedir desculpas à família. O “livreiro” e sua jovem esposa alegaram que suas rotinas foram deturpadas, que a família fora difamada. Não temos como saber se houve exagero ou deturpação em algumas passagens, resta que são surpreendentes as intimidades reveladas, as realidades da vida diária no Afeganistão, esse pedaço de universo tão fechado para nós ocidentais.

Outras duas sugestões interessantes que adentram o universo da cultura afegã são: O Caçador de Pipas e a Cidade do Sol.

*Título do livro de Asne Seierstad

Deixo o Haiti morar em mim

Quase 6 mil quilômetros separam o Brasil do Haiti, mas é possível reconhecer em Cuiabá inúmeros “pequenos haitis”, bairros inteiros (os haitianos vivem principalmente nos bairros da região leste de Cuiabá; Bela Vista, Carumbé, Planalto, Jardim Eldorado, Novo Horizonte, Pedregal) marcados pela cultura caribenha, pela língua crioulo e prática de uma religião apoiada por ritos pagãos, com elementos africanos, o voodou. A migração haitiana para Cuiabá, que começou tímida no ano de 2011, ganhou força com o fluxo frequente de grupos cada vez maiores. Entre os anos de 2012 a 2015, passaram pelo Centro de Pastoral do Migrante mais de 3.500 haitianos. Grupos imensos já deixaram Cuiabá, devido a escassez de trabalho, mesmo assim, há um contingente considerável de haitianos vivendo na capital e no interior do estado.

Construí uma trajetória de estudos e observação espontânea sobre o Haiti e seu povo, desde o ano de 2012; faço entrevistas e registros de reuniões e conversas com e sobre os haitianos que migraram para Cuiabá e nesta semana, ao ouvir relatos de três amigos haitianos, percebí que grande parte deles vivem seus dramas entre si, invisíveis ao poder público de onde quer que estejam.

Antes conhecido como a Pérola Negra do Caribe, este país que fez história ao renascer livre, em 1804, de um levante de escravos contra a dominação francesa, tornou-se o primeiro país da América Latina a abolir a escravidão, tem vivido uma crise após a outra e resulta disso, que o ciclo da pobreza e o ciclo migratório não cessam.

Ao longo de décadas, os haitianos atravessam a fronteira para cortar cana, e fazer trabalhos pesados na República Dominicana, em uma convivência carregada de ressentimentos e tensão. Esse ambiente hostil remete-nos ao massacre de haitianos, ordenado pelo ditador dominicano Rafael Trujillo, em 1937, narrado no livro “A festa do bode”, do escritor peruano Mário Vargas Llosa, onde há uma passagem em que o ditador dominicano assiste o lançamento de haitianos vivos num determinado local do mar, povoado por tubarões.

O Haiti está no caminho de furações, terremotos e tempestades tropicais. Com população estimada em aproximadamente 11 milhões de habitantes, composta por 95% de negros, predominantemente católicos, porém o voodou é praticado por mais de 50% dos habitantes. 80% dos haitianos são de famílias pobres.

No dia 12 de janeiro de 2010, um terremoto de grau 7,3 na escala Richter, arrasou o Haiti. O tremor teve seu epicentro na capital Porto Príncipe. Esse fenômeno da natureza deixou o Haiti, o país mais pobre das Américas, com 1,5 milhão de pessoas desabrigadas, além de matar mais de 200 mil pessoas, sendo 21 delas brasileiras, entre as quais a médica Zilda Arns.

O cenário em Porto Príncipe era desesperador. Corpos em decomposição debaixo dos escombros espalhados pelas ruas, alarmante risco de contrair doenças, paralisia total por parte do governo e pouca comoção na comunidade internacional. A tempestade trouxe tudo para o centro da cidade, todo mundo estava vivendo do lado de fora de suas casas, que ameaçavam desabar; o banho era coletivo, as refeições, a dor, o luto, tudo.

Anda se recuperando do terremoto de 2010, em outubro de 2016, os haitianos foram jogados para fora de suas casas, com o rugido do Furacão Matthew, que provocou inundações e deslizamentos de terra sobre as casas, matando 877 pessoas.

Há 58 anos não se via um presidente em exercício ser assassinado nas Américas. Mas em 07 de julho de 2021, o Haiti foi surpreendido pelo assassinato do seu presidente, morto a tiros em sua própria residência, numa tramacujo mentor foi o primeiro-ministro do país.

Um mês depois, 14 de Agosto, um terremoto de magnitude 7,2 atingiu novamente o Haiti, em outra região  e deixou ao menos 304 mortos, cerca de 2 mil feridos e centenas de desaparecidos segundo as autoridades da Defesa Civil do país. Em vídeo pude ver casas destruídas, entulhos retorcidos nas ruas, corpos sendo recolhidos, agora com mais pressa, para limpar o cenário para a próxima tragédia.

A extensão da mentira na República

Cerca de 134 milhões de brasileiros tem acesso à internet, mais de 100 milhões são usuários frequentes das mídias sociais, o que significa quase metade da população do país, segundo matéria da Agência Brasil. Contudo, a maioria das informações compartilhadas não são verificadas, são incompletas e de qualidade questionável. São as chamadas “fake News”, que se sobrepõem a outros distúrbios da informação, como desinformação, informações equivocadas ou enganosas e informações falsas que são divulgadas propositadamente para enganar ou confundir as pessoas.

Frequentemente, a mentira tem sido utilizada, na sociedade, como um instrumento de manipulação do homem pelo homem e a doença aguda da nossa sociedade, a adoração de alguns líderes políticos, facilita a manipulação e propagação de notícias falsas. Existem simplesmente muitas “verdades” aceitas que não são verdadeiras. Falsas versões de eventos, fatos claramente deturpados assumiram um papel estranhamente dominante na vida nacional.

Platão, na obra “A República”, mostra-se complacente com a mentira e admite que determinada classe social, como médicos e governantes podem mentir se for para o bem de seus pacientes e para o bem comum dos cidadãos. Aristóteles, porém, em sua obra “Ética a Nicômaco”, considera que nunca é permitido dizer uma mentira.

Santo Agostinho rejeitou todo e qualquer tipo de mentira, não aceitando nenhuma justificativa para a sua prática. Foi um dos primeiros pensadores a esmiuçar e sistematizar o tema. Ele elaborou teses sobre a mentira em dois tratados, intitulados “Sobre a Mentira” e “Contra a Mentira”.  Santo Agostinho fala dos mentirosos e enganadores, que não apenas revelam, mas também ocultam o pensamento. “Ninguém poderá duvidar que mente aquele que com ânimo deliberado diz algo falso com intenção de enganar”. A mentira é explicada como uma significação falsa unida à vontade deliberada de enganar outros.

A doutrina do duplo coração de Santo Agostinho sobre a mentira, fala da divergência entre aquilo que se crê interiormente e aquilo que se fala. Por isso se diz que o mentiroso tem um duplo coração: aquele que sabe que é verdade e se cala, e outro, aquele que fala sabendo que é tudo falso.

Na filosofia moderna, Immanuel Kant, no livro “À paz perpétua” diz que a condição prática moral para a paz perpétua na república é a aceitação universal do princípio da verdade ou, a proibição total da mentira. “Tu não deves mentir nem mesmo na mais piedosa das intenções”.

Fiódor Dostoiévski, em “Os irmãos Karamázov, encerra as citações sobre a mentira: “O principal é não mentir para si mesmo. Quem mente para si mesmo e dá ouvidos à própria mentira chega a um ponto em que não distingue nenhuma verdade nem em si, nem nos outros e, portanto, passa a desrespeitar a si mesmo e aos demais. Sem respeitar ninguém acaba na total bestialidade em seus vícios, e tudo isso movido pela contínua mentira para os outros e para si mesmo”.

Diante da vulnerabilidade de quem se informa por meio das mídias sociais, não causa surpresa que políticos de todos os lados possam ignorar os fatos narrados pela mídia de notícias e, em vez disso, usar a mídia social para fazer seus seguidores acreditarem e compartilharem suas afirmações, preferencialmente, as falsas. No mínimo, devemos ser mais rigorosos com as notícias que escolhemos ler e passamos adiante.

Como as democracias desvanecem

Tempos difíceis, é fato. Tivemos uma semana tensa, de críticas contundentes e muitas vezes desrespeitosas as instituições políticas, produção e reprodução de palavrões para designar ministro do Supremo Tribunal Federal, Live para apresentar provas de fraude nas eleições de 2018, que terminou com o anúncio de que não há provas. Bravatas, só bravatas? Ou bravatas aliadas ao frágil compromisso com as regras democráticas?

Li “Como as democracias morrem”, dos professores de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em 2019 e confesso que tive que reler trechos porque não poderia ser mais pertinente para o atual momento político que vivenciamos. Após uma longa jornada pela história de democracias falidas e diagnósticos de suas doenças fatais, como a corrupção, os autores não prescrevem exatamente um tratamento mas dão indícios do que deve e não ser feito.

A boa notícia do livro é que existem várias rampas de saída no caminho para o autoritarismo. A má notícia é que, nem sempre os eleitores percebem isso.

Os cientistas políticos passaram mais de vinte anos estudando o colapso das democracias na Europa e na América Latina e acreditam que o perigo é que a democracia não termina mais com um estrondo gigantesco, com uma revolução ou golpe militar, mas morre silenciosamente, com um gemido, ou seja; culmina com o enfraquecimento lento e constante de instituições críticas, como o judiciário e a imprensa, e a erosão gradual das normas políticas não escritas mas até então preservadas.

Com ampla gama de exemplos históricos e globais, da Europa dos anos 1930 à Hungria, Turquia e Venezuela contemporâneos, a eleição de Trump nos Estados Unidos. Os autores vão entrelaçando ciência política e análise histórica de crises democráticas internacionais e ao fazer isso, eles expandem a conversa para a necessidade de vigilância constante, visto que, quase todas as democracias do mundo já passaram por regimes autoritários.

Ensinam os professores que as democracias funcionam melhor e sobrevivem mais tempo onde os sistemas de freios e contrapesos funcionam e onde as constituições são reforçadas por condutas democráticas e que a polarização do cenário político prejudica a qualidade da democracia e o retorno às normas de indulgência e tolerância mútua.

Em artigo de 2019, citei o trecho do livro onde diz que as grades que protegem a democracia estão enfraquecendo e há regras que podem provar o esfacelamento do comportamento democrático. Vejamos:

Se os órgãos de controle, se tornam armas política, auditando severamente os oponentes do governo.

Se imputam à imprensa e à oposição a pecha de inimigos do governo. É notável nos autocratas, a intolerância à crítica e a disposição de usar o poder para punir aqueles que venham a criticá-los.

Se adversários políticos são descritos como comunistas ou ameaças à ordem constitucional. Se há um sistema contínuo de desqualificação dos oponentes partidários.

Se há encorajamento à violência.

Se há elogios a atos significativos de violência política e medidas repressivas tomadas no passado.

Aviso: Os cinco itens citados acima podem acionar o botão de pânico.

É preciso coragem para admitir fraqueza

Não precisamos de permissão para sermos humanos. Ignoremos as críticas. Muitas pessoas vivem tentando obedecer a padrões que são difíceis de alcançar, sem causar transtornos emocionais.

Necessidade não temos de nos encaixar em um molde perfeito, porque a perfeição vai estar sempre além do que fazemos. A tempestade perfeita dá-se quando nos esforçamos o tempo todo para agradar outros, para corresponder às expectativas alheias, enquanto o que torna a vida mais feliz é nos aceitarmos como somos, transparentes e imperfeitos, sem tantas justificativas.

A vida é dura. Vivemos todos sob pressão. Nem sempre, nem todos os dias, corpo e mente estão em sintonia para realizar tarefas treinadas e repetidas à exaustão por anos. Entre críticas, comentários de apoio e compreensão, a ginasta norte-americana Simone Biles, 24, causou perplexidade no Japão, ao desistir das finais olímpicas, para as quais estava classificada, alegando necessidade de preservar a saúde mental.

Biles explicou que não se reconheceu numa apresentação. Corpo e mente se desconectaram, ela ficou desorientada enquanto seu corpo subia e girava no espaço, experimentou uma sensação terrível de bloqueio mental repentino, perda total da orientação espacial e exatamente esse sentido de orientação precisa sempre foi característica admirada na atleta. A pressão de ser o rosto dos Jogos de Tóquio foi algo acima do que suportaria a mente de Simone, que há anos já dava sinais de que algo não ia bem.

Virou rainha da ginástica aos 19 anos, nas Olímpiadas do Rio de Janeiro em 2016. Chegou simpática, brilhou no solo, conquistou 4 medalhas de ouro e 1 de bronze e disse que quando terminasse a competição, só queria ser normal e sair para comer uma pizza de pipperone. O que esperavam dela em Tóquio? A mesma coisa; simpatia, apresentações impecáveis e muitas medalhas.

Pesquisei o hiato entre as Olimpíadas do Rio e de Tóquio, ou seja, de 2017 a 2021. É possível encontrar inúmeras entrevistas de Simone Biles falando sobre o quadro depressivo que enfrentava, sobre o desconforto e a vergonha de ter sido abusada sexualmente, sobre as terapias, as possibilidades de cura, mas a ginasta Simone continuou treinando, para confirmar seu nome como a maior ginasta de todos os tempos em Tóquio, sem contar que, em desalinho com o corpo, a mente ordenou um passo para trás para curar-se do abandono da mãe, do escandaloso caso do assédio sexual envolvendo omédico da Confederação Americana de Ginástica Olímpica, da cobrança pelo ativismoracial, para declarar-se engajada no movimento “Black LivesMatter”.

A confirmação de que fora abusada veio a público por uma mensagem dela mesma no ano de 2018 e num jornal de grande audiência na TV Americana, Simone confirmou o quadro de depressão, disse estar fazendo terapia e fazendo uso de medicação para controlar a ansiedade. “Eu estava muito deprimida. Eu dormia o tempo todo e disse para meu advogado que eu dormia porque dormir era a coisa que mais parecia com a morte”.

Assumida a depressão, assunto sendo tratado de forma transparente, em 06 de julho passado, antes de embarcar para Tóquio, Simone Biles postou: “Acho normal eu dizer que preciso de ajuda. Não há nada errado nisso. Os atletas estão falando mais sobre isso. No final do dia, somos iguais a vocês”.

Na última entrevista da semana, Simone concluiu: “Não confio mais em mim mesma, tenho que me concentrar na minha saúde mental” e assim termina sua participação nesta que deve ser sua última Olimpíada.

Parar, interromper não é uma construção premeditada, não é uma degeneração de habilidade, às vezes é necessário para encontrar a lucidez. Falhar, retroceder é normal, como nos recuperamos é o que importa.

O que revelou a fila dos ossos

A fila dos ossos, que falsamente escandalizou a sociedade e a mídia de Cuiabá e de todas as partes do Brasil, tem causa social, e não é natural, mas não evidenciou nenhuma situação nova, apenas escancarou uma realidade sabida e tratada com indiferença por quase todos. (Para os amigos que me leem e não moram em Cuiabá: semana passada vazou um vídeo, que viralizou, onde havia muitas pessoas numa fila, nos fundos de um açougue, esperando para ganhar ossos, para colocar na sopa).

Confirmou que o Brasil, o gigante Latino-Americano, é o 9º país mais desigual do planeta. O Ministério da Cidadania admite que 39,9 milhões de pessoas vivem na extrema pobreza no Brasil, dos quais mais de 14 milhões de família cadastradas, com renda de até R$ 89. 140 mil famílias em estado de extrema pobreza em Mato Grosso, 18 mil famílias na mesma situação em Cuiabá.

Um em cada quatro brasileiros é pobre, de acordo com a pesquisa Sínteses dos Indicadores Sociais, do IBGE e entram na conta somente os moradores de residências permanentes, ou seja, estão excluídas da pesquisa as pessoas em situação de rua, o que aumenta ainda mais o rastro da fome espalhado pelo país.

No mundo, ano de 2020, mais de 588 milhões de pessoas viviam em pobreza extrema, o que significa que aproximadamente 7,7% da população global vive nessa situação inadmissível. A maioria dessas pessoas estão envoltas numa forma de ciclo de pobreza que, sem severa intervenção externa, sobretudo dos governos, é improvável que seja quebrado.

E o Brasil está a décadas de distância de atingir um nível razoável de igualdade social. Veja você, que um trabalhador que ganha salário-mínimo levaria 19 anos para acumular a mesma quantia que um dos brasileiros mais ricos ganharia em apenas um mês. É disso que estamos falando, da disparidade cruel e secular entre as classes sociais.

E sobre classes sociais existentes, o cientista, advogado e geógrafo Milton Santos tem uma frase profunda para identificá-las. “Existem apenas duas classes sociais, a dos que não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem”.

A pobreza é mais do que falta de recursos. Ela se caracteriza pelo descaso dos governantes, pela corrupção que embolsa recursos que poderiam ser aplicados em políticas públicas, em ampliação dos valores pagos pelos programas de transferências de renda. Tem sido, mas não precisa ser sempre assim: desemprego, pobreza extrema e desigualdade crescente são males estruturais que assolam a complexa sociedade brasileira. São famílias vivendo à margem da sociedade, vendo o crescimento e a prosperidade passarem por eles, mas em suas vidas há apenas escassez. Não tem comida suficiente, não tem água limpa ou saneamento, não tem acesso à educação e saúde.

Entretanto, o fardo que a pobreza representa para a sociedade e os indivíduos não é apenas econômico ou físico. Medir a pobreza desta forma ignora os outros tipos de pobreza que oprimem os marginalizados. As pessoas pobres sentem agudamente sua impotência e insegurança, a vulnerabilidade e falta de dignidade. A pobreza extrema faz com que os pobres sofram emocional e espiritualmente também.

Os pobres, mais do que qualquer outro grupo, dependem de serviços públicos básicos. Melhorar o acesso à educação de qualidade e a saúde são vias imprescindíveis para se sair da pobreza, cuja extensão, pode ser percebida de outras formas além da fila dos ossos.

A florada dos Ipês

Os ipês são o testemunho de um fenômeno botânico. Para que suas flores desabrochem abundantemente, essas árvores flertam com a morte. É o açoite causado pelo frio e pela seca que envelhece e arranca todas as folhas e dispara o relógio biológico dos ipês indicando que é tempo de florescer.

Ou seja, é da experiência de quase morte devido às severidades do clima que vem a beleza dos ipês. A planta entende o estresse como sinal de que seu fim pode estar se aproximando e, como resposta, produz o máximo de sementes para deixar descendentes. Essa explicação dada por um biólogo encontrei numa coluna chamada O Jardineiro Casual.

Somos todos nós contemporâneos desse tempo tão difícil de Imposições de restrições e isolamento, de lidar com os diversos sofrimentos, lidar com as perdas, com o luto, com a depressão, com as ameaças do vírus devastador. Somos todos nós contemporâneos dessas dores.

A morte é difícil de lidar, especialmente quando é inesperada. No Livro Tibetano do Viver e do Morrer encontro a explicação de que todas as coisas que tomam forma, se dissolvem novamente e que a vida é um processo onde todas as coisas são impermanente e imutáveis e, que o ciclo da existência cessa a qualquer momento. Assim como é natural que pessoas que amamos morram, é natural que o sentimento de dor também passe. Seja qual for o sentimento que estamos experienciando, vai passar.

No meio da pandemia a vida continua. As pessoas se apaixonam, se casam, têm filhos e morrem, de causas naturais, eventos trágicos e contaminados pelo vírus. São fatos da vida. Apesar do isolamento e distanciamento social, o ciclo da vida continua e aos poucos temos que sair do bunker que transformamos nossos lares, equipados com todos os recursos necessários para a sobrevivência para retomar o equilíbrio que perdemos para seguir com a missão de conciliar a realização dos sonhos, equilibrar-se em relacionamentos, encontrar paz de espírito, saúde e segurança financeira.

Portanto, sempre que encontro em uma situação difícil, respiro fundo e penso: a vida é toda interconectada. Se o problema surgiu, um caminho deve haver que leve a solução. Surgiu a doença, no tempo que foi possível, descobriram a vacina. Nossos corpos estão se curando. A vida segue o curso. Inexorável!
As vacinas, ainda que lentamente, estão sendo aplicadas, as pessoas estão imprimindo certa normalidade aos dias. Muitos, provavelmente começaram a se sentir melhor, livres dos medos obscuros, da incerteza e das premonições em relação ao futuro. Entretanto, concordamos que o fim da pandemia não significa uma mudança mágica e perfeita de volta à vida Pré-Pandêmica. A transição para a era Pós-Pandemia pode ser lenta e incerta quanto ao comportamento do vírus ao longo de um tempo vindouro.

Mesmo assim, a vida não precisa ser essa série de crises inquietantes e custosas, que ao fim, quase conseguiram desmontar a vida humana, não enquanto houver a exuberância dos sofridos ipês colorindo as avenidas, nos ensinando que devemos nos fortalecer para atravessarmos as rigorosas secas e os bravios invernos da vida.

Amizade, inimizade e política

No comovente ensaio ‘Inimizade e Amizade’ publicado no livro Encontro, o brilhante escritor checo Milan Kundera, conhecido pela obra-prima “A Insustentável Leveza do Ser”, relata seu encontro com um romancista e amigo, que o convida para conversar e passa todo o tempo falando mal de outro poeta, com o qual havia desenvolvido irremediáveis diferenças políticas. Ao fim, Milan Kundera adverte: “Em nosso tempo, as pessoas aprenderam a subordinar a amizade ao que se chama de convicções. É preciso muita maturidade para entender que a opinião que defendemos é apenas a hipótese que defendemos, necessariamente imperfeita, provavelmente transitória, que apenas mentes muito limitadas podem declarar ser uma certeza ou uma verdade. Ao contrário da lealdade pueril a uma convicção, a lealdade a uma amizade é uma virtude, talvez a única virtude, a última que resta. Hoje eu sei: na hora do balanço final, a ferida mais dolorosa é das amizades feridas e nada é mais tolo que sacrificar uma amizade pela política”.

Amigos não são pessoas iguais, não compartilham tudo. O que não se pode deixar acontecer é que divergências se transformem em mal entendidos ou que o descaso ou esperneio com argumentos contrários, transformem o que poderia ser uma boa conversa, em dois monólogos acontecendo ao mesmo tempo.

Períodos pré-eleitorais são propícios para se observar esse fenômeno: de amizades que incendiadas pelas discussões polarizadas sobre política, se transformam em estranhamentos e inimizades. Não é difícil perceber, no destravamento de língua causado pelas mídias sociais, as provocações, intimidações e bloqueios de pessoas que expressam opinião divergente quanto a um ou outro candidato ou partido.

Ouvir opiniões políticas divergentes estimula o pensamento crítico. Cercar-nos de uma pluralidade de pontos de vista não significa que temos que aceitar todos eles. Mas nos ajudará a permanecermos flexíveis, críticos, a termos a mente aberta e a sermos humildes.

Pessoas com perfis progressistas são atacadas e também atacam porque ambos os lados, progressistas ou conservadores não encontraram o tom para as discussões sadias, para a convivência tolerante. Ao negar a si mesmo o acesso interessado a diferentes pontos de vista, você corre o risco de se isolar e perder ensinamentos preciosos e diversos sobre política. Se o amigo à sua frente estiver realmente errado, fazer as perguntas certas pode fazê-lo repensar o argumento.

Creditar mérito apenas às suas ideias, odiar os outros por suas opiniões e considerar as pessoas com diferentes pontos de vista como menos merecedoras de credibilidade, faz exatamente o jogo perverso da política polarizada, que é silenciar uns para dominar o espaço público dos debates.

É uma pena que estas discussões causem rupturas permanentes e tão desnecessárias entre amigos e conhecidos. Há pessoas que reorganizam seus relacionamentos pessoais para a eleição e imaginam que estão assumindo o controle de suas vidas, desfazendo-se de amigos para abraçarem pautas politicas e correligionários temporários.

Tem também o outro lado, pode ser que ao se abrir uma discussão sobre política com alguém considerado amigo, você entra em estado de choque porque a verdadeira face, de argumentos racistas, discursos de ódio, homofobia venham à tona. Pode ser que você não tenha reparado antes nas piadas grosseiras, mas esse comportamento estava lá o tempo todo. Faltou prestar atenção.  Não combina com a política, que é ciência ser discutida em meio a tantas certezas e paixões, recortes ácidos e intimidação.

Quanto a amizade, voltemos a Milan Kundera: “No meu dicionário de descrente, apenas uma palavra é sagrada: amizade”.

Com o estado se tem a desigualdade

Eu concebo que existem dois tipos de desigualdade entre a espécie humana; um, que chamo de natural ou físico, porque é estabelecido pela natureza, e consiste em diferença de idade, saúde, força, as qualidades da mente ou da alma e outro, que pode ser chamado de moral ou política da desigualdade, porque depende de uma espécie de convenção, e é instituída, ou pelo menos autorizada pelo consentimento dos homens. Jean-Jacques Rousseau, no ensaio intitulado “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”, publicado em 1755.
Para Rousseau é impossível ser, verdadeiramente livre, onde impera a desigualdade. A questão primordial é quanto à desigualdade moral ou a política da desigualdade, que, em seu pensamento, deve ser afastada, combatida, porque corrompe as pessoas, porque dela nasce a diferença de poder, de riqueza e isso é inaceitável.

Quando se fala em desigualdade em uma sociedade capitalista, os primeiros aspectos que vêm à mente são as desigualdades econômicas, que evocam as noções de pobreza e riqueza. No entanto, há também oportunidades de trabalho desiguais, acesso desigual à educação e cultura, vários tipos de hierarquia, preconceito e, principalmente, o tratamento desigual para grupos diferenciados.

O aumento da desigualdade raramente é percebido como sinal de alguma coisa, além de problema financeiro. O sociólogo Zygmunt Bauman cunhou o termo “dano colateral” para falar da forma como os governantes tentam se eximir da responsabilidade quando são acusados de promover das desigualdades. Geralmente asseguram que as açõesde governo contém riscos neutros e não intencionais.Em “Danos Colaterais”,Baumanteoriza sobre a afinidade seletiva entre o crescimento da desigualdade social e a expansão do volume de danos colaterais e considera a tendência de as autoridades lavarem as mãos diante da desigualdade, considerando-a um mal necessário.

A desigualdade social brasileira é sentida nos níveis estruturais e individuais, numa análise pormenorizada feita pelo IPEA, publicada no final do ano passado, ondeexpõe as cicatrizes de um país que se constituiu sob o signo da exploração por uma burguesia estrangeira e tempos depois, a dominação configurou-se na figura dos patrões, donos de engenhos e dos empregados da casa grande. A relação de exploração consentida, como na teoria de Rousseau, foi-se constituindo um meio para se sobreviver. As desigualdades foram sendo escancaradas e comparadas também pelo resultado da pesquisa Desigualdade no Brasil, da Oxfam Brasil e relatório Riqueza Global publicado peloCreditSuisse, mais recentemente. As diferenças sociais e econômicas foram reveladas:1% dos mais ricos no Brasil detém 49,6% da riqueza total do país. Isso significa que o Brasil tem a segunda maior taxa de concentração de riqueza entre 180 países pesquisados.

Esse é um dos sintomas da desigualdade: a fatia de rendaexageradamente generosa acumulada pela elite, com contribuição das “ações neutras ou não intencionais” do estado, como descreveu Bauman. Basta lembrar que o mercado, que favorece o enriquecimento ainda maior de1% que vivem na bolha dos mais ricos no Brasil, é regulado pelo estado.

Há uma grande camada da população que precisa ser assistida pelo estado e a construção de uma sociedade mais igualitária passa por uma rede de proteção estendida pelo estado para proteger os mais vulneráveis, mas a maioria não quer favor dosgovernos, mas ter sua própria capacidade de trabalho aproveitada e viver dela.

Em que pese a extensão do fosso que separa os brasileiros, a igualdade vive no imaginário humano no mundo político, social, econômico, religioso e literário. A natureza humana comum a todos, independentemente das desigualdades sociais que suportamos ou das diferenças pelas quais temos que lutar, faz com que o ser humano pense na igualdade social como um dos seus principais valores.

A teoria do princípio do dano

Sem dúvida alguma, você tem o direito de colocar sua própria vida em risco. As liberdades individuais devem ser respeitadas, mas elas não representam direitos irrevogáveis. Como argumentou na teoria do princípio do dano, o filósofo britânico John Stuart Mill em Sobre a liberdade, 1859: “sua liberdade é limitada pelo dano que pode causar a outras pessoas”. Em outras palavras, a liberdade individual, tal como John Mill a propõe não admite restrições outras que não sejam um eventual prejuízo a outras pessoas.

Quando a ação ou até mesmo a omissão de um indivíduo causar um dano irreparável à coletividade, ele pode ser interpelado, cobrado quanto a sua responsabilidade para com o coletivo. Temos que pensar o quanto é importante para o coletivo que sejamos individualmente responsáveis quanto a pandemia. A partir dessa compreensão cada indivíduo deve fazer a sua parte para reduzir as taxas de infecção e transmissão do vírus e isso implica não ser complacente com as pessoas que agendam e não comparecem para receber a vacina.

Para se ter uma ideia da absurda evasão, reproduzo aqui o que li no site da Prefeitura de Cuiabá: ”Quase 70% das pessoas agendadas para vacinar contra a Covid-19, na quarta-feira (16/06), em um dos seis polos de Cuiabá, não compareceram. Os dados são das equipes que coordenam a vacinação na capital de Mato Grosso. Do total de 4.934 pessoas dos grupos prioritários agendados, somente 1.492 estiveram nos locais, totalizando 3.442 faltosos”.

Segundo uma assistente social que trabalha em um polo de vacinação, as razões da evasão são várias, que vão desde a falta de colaboração de familiares para levar a pessoa para vacinar, esquecimento e também um método utilizado para não receber a dose de determinada vacina, porém, segunda ela, a razão principal é mesmo o descaso no trato da pandemia. A falta do senso de responsabilidade coletiva.

Uma amiga jornalista confidenciou que não compareceu no dia agendado porque viajou para uma visita de rotina à família numa cidade próxima a Cuiabá e quando retornou, reagendou; a professora que faltou ao agendamento, com quem falei também não teve nenhuma razão urgente para ter faltado. Alegou que, embora tenha se cadastrado, não há pressa porque as aulas não começaram e ela não pretende voltar à sala de aula, vai requerer o benefício da licença prêmio e continuar em casa. Sugiro que as pessoas pertencentes a grupo prioritários que não comparecem no dia agendado, deveriam gozar de uma tolerância mínima, sob pena de perderem o status de prioridade.

Num país que acaba de romper a inacreditável marca de 500 mil mortos e ainda registra a absurda marca de mais de duas mil mortes por dia, não há outra alternativa senão renovar nossa fé e a compreensão de que temos que ter responsabilidade com a vacinação, nos proteger, proteger nossa família e tantos quantos nosso gesto puder alcançar. Pequenas ações individuais podem realmente fazer uma diferença de grandes efeitos coletivos, mesmo que seja difícil de perceber.

A vacinação é considerada a intervenção médica mais eficaz e mais barata por meio da qual a imunização individual e coletiva é alcançada. Espera-se que as vacinas diminuam não apenas as taxas de infecção, mas também as taxas de transmissão do vírus. Isso significa que tomar a vacina pode proteger você e outras pessoas e contribuir para que a população alcance a imunidade coletiva o mais rápido possível.