Sinceridade tóxica

Pesquisa, realizada pelo projeto Dove pela autoestima, revela que 84% das meninas brasileiras de 13 anos aplicam filtros ou usam aplicativos para alterar suas fotos. O estudo revela que meninas que distorcem suas fotos são mais propensas a terem baixa autoestima e as meninas revelaram que a baixa autoestima é potencializada pelos comentários tidos como “ataques de sincericídio” feitos por amigos e familiares.

Sobre sinceridade, intimidade e confiança mútua ninguém pode dizer que não fomos avisados. Há citações profundas de Niccolo Machiavelli, George Bernard Shaw, Zygmunt Bauman, Charles Taylor e incontáveis filósofos e autores​​ que alertaram contra seus riscos, mas W. Somerset Maugham pode ter feito isso de forma mais provocadora. “Ainda não tinha aprendido o quanto a natureza humana é contraditória; não sabia quanta hipocrisia existe nas pessoas sinceras”.

Para o filósofo francês Vladimir Jankélévitch há uma diferença entre ser sincero e falar a verdade. Ser sincero é dizer a sua verdade, ou seja, o que você subjetivamente acredita ser verdade.

Há boas razões para cautela. Pessoas tentam tranformar suas opinões em leis e a franqueza extrema, vulgarmente chamada de sincericídio, é a forma de dizer a (sua) verdade de forma impositiva, em todos os momentos e em todos os lugares. Porém, nem todas as atitudes cabem em todos os lugares, nem sempre comentários são necessários e nossas opiniões, quando não nos abrimos para estudos e leituras, refletem apenas o mundo limitado, padronizado e talvez privilegiado que vivemos.

Claro que a sinceridade é uma característica apreciada e essencial para a concepção de uma vida virtuosa. No entanto, temos que estar cientes desta tensão causada pela sinceridade tóxica, que agride e encerra com uma pessoa hedionda e individualista tetando impor suas vontades, caprichos e modo de vida à outra.

Os limites do bom senso podem ser desafiadores em qualquer relacionamento e na mioria das vêzes o que as pessoas esperam dos seus amores e amigos é compreensão e respeito e não estabelecimento de padrões e julgamentos.

A contribuição com ideias, pensamentos, ideologias precisam ser solicitadas, embora temos percebido que as mídias sociais encorajaram o auto pronunciamento, o auto engajamento e ampliou a potência de microfones que sequer deveriam ter sido ligados. Amigos virtuais fazem muito isso. Se auto denominam generalistas e não deixam post sem seus “indispensáveis” comentários. Insisto que é essencial cultivar um filtro para não machucar as pessoas. Há uma bela música do Talking Heads que diz: “when I have nothing to say my lips are sealed”. (quando não tenho o que dizer meus lábios estão selados).

O filósofo canadense Charles Taylor, escreveu a Ética da autenticidade, uma virtude muitas vêzes, confundida com sinceridade. O livro estruturado em 128 páginas e 10 capítulos invoca que nossa compreensão sobre a autenticidade precisa ser modificada e o compromisso com essa virtude, não implica um compromisso com o egoísmo, com a imposição de vontades, com julgamentos baseados em caprichos e padrões sociais.

A autênticidade envolve escolhas e objetivos que contribuem para a nossa qualidade de vida, mas podemos, aliado a isso, ajudar outras pessoas a florescer, num conjunto bem ordenado de preferências para o bem. A vida de cada pessoa deve ter sua própria caligrafia, a sua impressão digital, seus passos e não dos outros. Ser autentica é estar confortável e segura em ser quem é.

Deixe-me ir

Desde a Antiguidade até os dias atuais, muitos homens e mulheres escolhem dar fim às suas vidas. Apesar do ato de suicidar-se estar presente em toda a trajetória histórica da humanidade, na Idade Média, no domínio do Cristianismo, o suicídio foi proibido. Pessoas que cometiam suicídio eram enterradas sem ritos religiosos, muitas vezes fora de cemitérios. A morte voluntária passou a ser discutida como um ato condenável, tanto que na Europa do século XVII, se a tentativa de suicídio falhasse, o sobrevivente poderia ser encarcerado.

É fato que cada época possui suas características peculiares. Todas as sociedades produzem seus estranhos, seres sensíveis, doentes, desajustados, desesperançosos e fechados em si mesmos.  Se os estranhos são pessoas que não se encaixam nos mapas cognitivos, moral ou estético da sociedade, eles tornam tênues as linhas de fronteira dão origem ao mal-estar de sentir-se perdido.

Sobre sentir-se perdido, Cartola explica: “Deixe-me ir, preciso andar, / vou por aí a procurar / rir pra não chorar. / Se alguém for lhe perguntar, / diga que eu só vou voltar / depois que eu me encontrar”. (Cartola, 1976)

O suicídio é a negação da própria vida de forma voluntária. As causas do suicídio podem ser completamente diferentes, porém, uma pessoa toma a decisão de cometer suicídio com base nas dificuldades do ponto de vista psicológico e sociológico. Só tenho ligitimidade para adentrar o campo sociológico, onde há publicações interessantes que indicam que apenas o homem é capaz de refletir sobre sua própria existência e tomar a decisão de prolongar ou pôr-lhe um fim.

12.895 pessoas se suicidam no Brasil, ano passado, no entanto, é  possível afirmar que o número de suicídios no país pode ser maior, pois muitas pessoas omitem ou inventam outra causa para a morte do ente querido por conta do estigma social que o suicídio possui no seio da nossa sociedade.

Cada suicídio individual, em sua forma e análise, encerra uma história em si mesma, com as circunstâncias específicas que levaram àquele ato fatal. Portanto, não creio que exista uma fórmula para explicar por que as pessoas se matam. Até porque muitos fatores diferentes devem ser considerados e esses fatores são tratados transversalmente por diferentes ciências para tentar entender o estado mental de indivíduos suicidas durante as crises sociais e todos os outros fatores que direta ou indiretamente podem levar ao suicídio.

O sociólogo francês Émile Durkheim publicou, em 1897, a obra Le suicide, na qual relaciona o suicídio a causas sociais e reforça que é uma das ações mais individuais e solitárias que só o homem é capaz de fazer. Durkheim pesquisou suicídios vários anos, em vários países e concluiu que a ocorrência do suicídio nada teve a ver com localização geográfica, filiação política e religiosa, predisposição genética. Segundo Durkheim,  alterações nos níveis de suicídio só podem ser explicadas pelas relações sociais ou por atos de solidariedade. Em sua essência, o suicídio é um fenômeno social, porque ocorre em consequência da relação perturbada entre o indivíduo e a sociedade.

Marx também escreveu sobre o suicídio e ao final de uma reflexão sobre o tema, Marx chega a seguinte conclusão: Que tipo de sociedade é esta, em que se encontra a mais profunda solidão no seio de tantos milhões; em que se pode ser tomado por um desejo implacável de matar a si mesmo, sem que ninguém possa prevê-lo? Tal sociedade não é uma sociedade; ela é, como diz Rousseau, uma selva, habitada por feras selvagens.

A contemporaneidade traz-nos a desesperança de Zygmunt Bauman, que  apresenta-nos as inquietações da modernidade líquida, um universo marcado por relacionamentos de laços frágeis, amores que escapam e  escorrem entre os dedos, onde se desvelam os dramas individuais e coletivos de indivíduos fragilizados pela liquidez dos sentimentos, dos momentos, dos ressentimentos, dos rompimentos, da aceitação. Peso excessivo para muitos!

Cautela no novo código eleitoral

Em regime de urgência a Câmara dos Deputados começou votar o texto do projeto do novo Código Eleitoral, como forma de consolidar toda a legislação eleitoral e resoluções do Tribunal Superior Eleitoral, abrangendo vários temas, como mudanças na regra de inelegibilidade, na fidelidade partidária, prestação de contas, pesquisas eleitorais, gastos de campanha, acesso a recursos do fundo partidário para partidos políticos, diminuição da sub-repesentatação das mulheres, por exemplo, entre outros.

O Código eleitoral vigente está absolutamente alicerçado em premissas autoritárias. Está vigente desde 1965 e vem recebendo remendos pontuais, desde então. O projeto é complexo e permeado por poucos pontos polêmicos, alguns acrescentados como destaques, que já foram retirados ou votados semana passada. A elaboração do novo código contou com a contribuição de mais de 100 pessoas, entre eles, pesquisadores, professores, advogados, membros do Ministério Público, magistrados, representantes da sociedade civil organizada, visando atualizar as disposições e imperfeições do sistema político eleitoral brasileiro e suas idiossincrasias, como o fato de suportar a existência de 34 partidos políticos devidamente registrados no TSE.

O regime de urgência foi contestado por vários parlamentares principalmente porque tal recurso permite a votação do projeto sem passar por votação em nenhuma comissão da Câmara Federal, o que realmente não cumpre o rito básico do processo legislativo normal. Contudo deve enfrentar dificuldade de ser votada também em regime de urgência no Senado, uma casa mais pautada pelo seguimento do rito e das normas burocráticas, onde nenhuma grande mudança ocorre sem debates. Para valer já para as próximas eleições todo o rito, de finalização da votação na Câmara, no Senado e sansão presidencial deverá ocorrer até um ano antes das próximas eleições, ou seja, início de outubro.

A votação na Câmara começou com um recuo; a retirada do projeto de um dos principais temas polêmicos: a quarentena de cinco anos de desligamento do cargo que seria exigida de juízes, membros do Ministério Público, guardas municipais, militares e policiais para poderem concorrer às eleições, o que inviabilizaria muitas candidaturas, entre elas, de Sérgio Moro e do Delegado Flávio Strigueta, para citar um nome nacional e um local.

Foi aprovado o destaque que trata da distribuição das “sobras” eleitorais, que são as vagas não preenchidas pelo sistema proporcional, (total de votos válidos obtidos pelo partido com todos os candidatos da legenda). Pela nova regra, essa vaga só poderá ser acessada por partido que obtiver 80% do quociente eleitoral e candidatos com no mínimo 20% do quociente eleitoral. Atualmente, todos os partidos que tenham participado das eleições, independentemente do número de votos, podem participar da distribuição das sobras. Lembrando que o projeto segue para votação no Senado.

O projeto altera também as regras de fidelidade partidária, estendendo para o executivo, governadores, prefeitos e presidente a obrigação de permanecerem na legenda após a eleição. Atualmente, apenas parlamentares são obrigados a cumprir fidelidade partidária com o partido pelo qual se elegeram. Um dos destaques já aprovados pelos parlamentares foi sobre a janela de mudança de partido, que tem permitido a dança de partidos sem penalidades, no mês de março de cada ano eleitoral. Pelo destaque aprovado a janela ocorrerá apenas 30 dias anteriores ao prazo de filiação partidária.

Enfim, o projeto do novo código eleitoral teve o texto base aprovado, alguns destaques votados e outros que serão colocados em votação esta semana, tenta discorrer acerca de todas as áreas conflitantes, que tem gerado demandas judiciais ao final de cada processo eleitoral, como a distribuição da verba pública partidária, cuja proporcionalidade é sempre confusa e discutível por ser utilizada fora do propósito de amenizar as desigualdades econômicas entre candidatos e se dar mais transparência às disputas eleitorais.

Um dos principais pontos que precisa efetivamente avançar diz respeito ao aumento do quantitativo na representatividade feminina, sobretudo nos parlamentos. Existe até um projeto em andamento, fora do projeto do Novo Código Eleitoral, que aprova reserva de cadeiras à mulheres para a Câmara dos Deputados, Assembleias Legislativas dos estados, e as Câmaras Municipais. 28 países já têm legislação que estabelece reserva de ocupação de cadeiras para mulheres no parlamento, uma ação bem mais afirmativa do que cota para ser candidata.

O inimigos visíveis e invisíveis da república

O Brasil comemora 199 anos de independência, com uma população de 213,317 milhões de habitantes. Considerado um país relativamente rico, com economia destacada na América Latina e no mundo baseada na exportação de commodities que “salvam” a economia brasileira a um custo discutível.

As transformações existem e fazem parte da essência da vida em todas suas dimensões. Contudo, temos que admitir que a longa duração da pandemia nos tornou vulneráveis, doentes e medrosos, a ponto de reduzirmos nossas prioridades a estarmos vivos e vacinados.

E o Brasil, tinha tudo para se sair bem na pandemia; uma população relativamente jovem, experiência da rede pública para lidar com epidemias e um sistema de saúde universal, o SUS. Contudo, os números registram a baixa performance do país no enfrentamento da pandemia. Dados de 3 dias atrás, apontam que o país tem 65.872 milhões de pessoas completamente cobertas pela vacina, o que que significa apenas 30,88% da população brasileira.

A luta contra a corrupção, que foi bandeira de boa parte da classe política eleita nos últimos anos, não se transformou em medida concreta de enfrentamento do problema. Nenhuma agenda efetiva de política anticorrupção foi apoiada pelo governo e aprovada pelo Congresso Nacional. A Organização Transparência Internacional, divulgou o ranking global de percepção da corrupção no setor público em 2020 e o Brasil continua estagnado num patamar ruim, 94ª posição, num ranking de 180 países, atrás da Colômbia, Turquia e China.  Ou seja, a corrupção continua a ser um problema endêmico no Brasil.

A violência assusta. Os homicídios praticados no Brasil representam um volume muito superior ao de países que vivem em guerra. Com efeito, no Brasil a violência é a principal causa de morte dos jovens. Em 2019, de cada 100 jovens entre 15 e 19 anos que morreram no país por qualquer causa, 39 foram vítimas da violência. Dos 45.503 homicídios ocorridos no Brasil em 2019, 51,3% vitimaram jovens entre 15 e 29 anos. Em média, 64 jovens são assassinados por dia no país.

Raça e sexo são categorias que ainda justificam discriminações e produzem desigualdades. Em 2019, os negros (classificação do IBGE) representaram 77% das vítimas de homicídios, o que estabelece que a chance de um negro ser assassinado no Brasil é 2,6 vezes superior àquela de uma pessoa não negra.  (Os dados são do Ipea/Atlas da Violência).

Em 2019, 66% das mulheres assassinadas no Brasil eram negras. Um em cada sete bebês é filho de mãe adolescente, conforme dados do IBGE, que também confirmam que 7 em 10 meninas grávidas ou com filhos, são negras e não trabalham e não estudam. Vamos observando que as desigualdades sociais se acentuam sempre em desfavor dos negros.

Assim, o lendário discurso de Martin Luther King, proferido ao final da grande marcha dos negros por direitos civis, ainda parece um sonho distante. “Eu tenho um sonho que meus quatro filhos pequenos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo do seu caráter”.

Apesar de todos os descompassos, parte da população brasileira ignora as desigualdades sociais, o preconceito racial e de gênero, a violência e elege o  Supremo Tribunal Federal como o problema maior do país, o inimigo número 01 da República e no dia da independência do Brasil, escolheram vandalizar e excomungar a instituição. Uma casa, onde seus membros, é verdade, são apegados à notoriedade e o alinhamento com o que dá mídia.

Onde todos são obrigados a usar as vestes talares, as famosas capas pretas, onde um membro fala alemão, outro retruca em francês, um escreve poesias, outro toca guitarra, mas não são intocáveis. Podem ser destituídos da função pelo processo de impeachment, que precisa ser aprovado por dois terços dos senadores (54 votos).

Coisa aparentemente fácil para quem tem a caneta nas mãos, porém, o governo tentou e não conseguiu sequer dar andamento ao processo. A movimentação do dia da Pátria em Brasília segue firme e a propósito, você, já se perguntou quem está pagando essa conta?

O livreiro de Cabul

Que fique claro que interpretar uma cultura é algo extremamente delicado. No livro “A interpretação das culturas”, o antropólogo Clifford Geertz, aproxima a definição de cultura como o modo de vida global de um povo; o legado social que o indivíduo adquire do seu grupo; uma forma de pensar, sentir e acreditar; a forma pela qual um grupo de pessoas se comporta realmente; um conjunto de orientações padronizadas para os problemas recorrentes; um comportamento aprendido, entre outras citações conceituais.

Porém, a jornalista norueguesa Asne Seierstad possui uma formação que lhe concede credibilidade para que eu sugira a leitura desse livro, no momento em que é muito importante acompanhar a retomada do poder do Afeganistão pelos Talibãs. Licenciada em jornalismo, russo e história da filosofia na Universidade de Oslo, Asne foi correspondente para jornais noruegueses na Rússia e na China, cobriu a guerra do Kosovo, Chechênia, Afeganistão e Iraque.

A jovem jornalista foi para o Afeganistão no final de 2001 para cobrir a queda do governo do Talibã. Ao chegar em Cabul, encontrou o dono de uma rede de livrarias, o afegão Shah Mohammed Rais, 53 anos, formado em engenharia civil, um homem erudito, que tinha uma filial das livrarias em um hotel parcialmente destruído pelos frequentes ataques dos Talibãs.

Por quase três décadas, Shah Mohammed Rais, no livro de Asne, retratado como Sultão Khan, desafiou as autoridades, enfrentou a perseguição de sucessivos regimes repressivos, tanto comunistas quanto talibãs para levar livros aos cidadãos de Cabul. Ele foi detido, interrogado e preso pelos comunistas e também viu soldados analfabetos do Talibã queimarem pilhas de seus livros nas ruas. Muçulmano comprometido Khan é apaixonado por livros.

Estabelecida a confiança entre ambos, a jornalista foi morar na casa de Shah Mohammed Rais e sua família para documentar a rotina da vida doméstica da família (no livro citada como Família Khan). A jornalista viveu quatro meses com a família afegã e depois escreveu um relato detalhado da experiência, no qual ela retratou o livreiro como um intelectual liberal em público, um homem que lutou pela liberdade de expressão no Afeganistão, mas oprimiu e reprimiu as mulheres de sua própria família.  Dessa narrativa nasceu o livro “ O livreiro de Cabul”, que se tornou um best-seller, traduzido para mais de 30 idiomas.

No livro não há muitas citações de fatos históricos, tampouco foca na instabilidade nas zonas tribais entre  Afeganistão e Paquistão. A autora concentra maior atenção na denúncia da sociedade afegã, que sistematicamente nega às mulheres dignidade e autonomia. As mulheres afegãs, mesmo após a queda do Talibã permaneceram estruturalmente subordinadas aos homens afegãos.

Em outra parte do livro, a autora reforça traços de conflito cultural nas práticas diárias do “livreiro”, como o abuso e descaso dele contra as pessoas com as quais convive. Ele manda para o Paquistão sua fiel há 16 anos para abrir espaço na casa para uma segunda esposa que havia comprado, uma jovem de 16 anos. Força o filho de 12 anos a trabalhar o dia todo no saguão de um  hotel, vendendo doces em uma barraca úmida que a criança chamava de “o quarto sombrio”. O mais surpreendente é que “o livreiro” nega ao menino acesso à educação. A irmã do Sultão Khan, Leila é praticamente uma escrava doméstica, faz todos os trabalhos da casa e é proibida de sair as ruas. Leila aprendeu inglês e sonha trabalhar como professora, mas precisa que um de seus parentes se dê ao trabalho de acompanhá-la a sede da Secretaria de Educação para preencher os documentos necessários,mas eles não lhe dão atenção.

Ao receber um exemplar do livro em inglês, o “livreiro de Cabul” sentiu-se traído pela jornalista norueguesa e uma batalha judicial foi travada contra a autora do livro, que se recusou a pedir desculpas à família. O “livreiro” e sua jovem esposa alegaram que suas rotinas foram deturpadas, que a família fora difamada. Não temos como saber se houve exagero ou deturpação em algumas passagens, resta que são surpreendentes as intimidades reveladas, as realidades da vida diária no Afeganistão, esse pedaço de universo tão fechado para nós ocidentais.

Outras duas sugestões interessantes que adentram o universo da cultura afegã são: O Caçador de Pipas e a Cidade do Sol.

*Título do livro de Asne Seierstad

Deixo o Haiti morar em mim

Quase 6 mil quilômetros separam o Brasil do Haiti, mas é possível reconhecer em Cuiabá inúmeros “pequenos haitis”, bairros inteiros (os haitianos vivem principalmente nos bairros da região leste de Cuiabá; Bela Vista, Carumbé, Planalto, Jardim Eldorado, Novo Horizonte, Pedregal) marcados pela cultura caribenha, pela língua crioulo e prática de uma religião apoiada por ritos pagãos, com elementos africanos, o voodou. A migração haitiana para Cuiabá, que começou tímida no ano de 2011, ganhou força com o fluxo frequente de grupos cada vez maiores. Entre os anos de 2012 a 2015, passaram pelo Centro de Pastoral do Migrante mais de 3.500 haitianos. Grupos imensos já deixaram Cuiabá, devido a escassez de trabalho, mesmo assim, há um contingente considerável de haitianos vivendo na capital e no interior do estado.

Construí uma trajetória de estudos e observação espontânea sobre o Haiti e seu povo, desde o ano de 2012; faço entrevistas e registros de reuniões e conversas com e sobre os haitianos que migraram para Cuiabá e nesta semana, ao ouvir relatos de três amigos haitianos, percebí que grande parte deles vivem seus dramas entre si, invisíveis ao poder público de onde quer que estejam.

Antes conhecido como a Pérola Negra do Caribe, este país que fez história ao renascer livre, em 1804, de um levante de escravos contra a dominação francesa, tornou-se o primeiro país da América Latina a abolir a escravidão, tem vivido uma crise após a outra e resulta disso, que o ciclo da pobreza e o ciclo migratório não cessam.

Ao longo de décadas, os haitianos atravessam a fronteira para cortar cana, e fazer trabalhos pesados na República Dominicana, em uma convivência carregada de ressentimentos e tensão. Esse ambiente hostil remete-nos ao massacre de haitianos, ordenado pelo ditador dominicano Rafael Trujillo, em 1937, narrado no livro “A festa do bode”, do escritor peruano Mário Vargas Llosa, onde há uma passagem em que o ditador dominicano assiste o lançamento de haitianos vivos num determinado local do mar, povoado por tubarões.

O Haiti está no caminho de furações, terremotos e tempestades tropicais. Com população estimada em aproximadamente 11 milhões de habitantes, composta por 95% de negros, predominantemente católicos, porém o voodou é praticado por mais de 50% dos habitantes. 80% dos haitianos são de famílias pobres.

No dia 12 de janeiro de 2010, um terremoto de grau 7,3 na escala Richter, arrasou o Haiti. O tremor teve seu epicentro na capital Porto Príncipe. Esse fenômeno da natureza deixou o Haiti, o país mais pobre das Américas, com 1,5 milhão de pessoas desabrigadas, além de matar mais de 200 mil pessoas, sendo 21 delas brasileiras, entre as quais a médica Zilda Arns.

O cenário em Porto Príncipe era desesperador. Corpos em decomposição debaixo dos escombros espalhados pelas ruas, alarmante risco de contrair doenças, paralisia total por parte do governo e pouca comoção na comunidade internacional. A tempestade trouxe tudo para o centro da cidade, todo mundo estava vivendo do lado de fora de suas casas, que ameaçavam desabar; o banho era coletivo, as refeições, a dor, o luto, tudo.

Anda se recuperando do terremoto de 2010, em outubro de 2016, os haitianos foram jogados para fora de suas casas, com o rugido do Furacão Matthew, que provocou inundações e deslizamentos de terra sobre as casas, matando 877 pessoas.

Há 58 anos não se via um presidente em exercício ser assassinado nas Américas. Mas em 07 de julho de 2021, o Haiti foi surpreendido pelo assassinato do seu presidente, morto a tiros em sua própria residência, numa tramacujo mentor foi o primeiro-ministro do país.

Um mês depois, 14 de Agosto, um terremoto de magnitude 7,2 atingiu novamente o Haiti, em outra região  e deixou ao menos 304 mortos, cerca de 2 mil feridos e centenas de desaparecidos segundo as autoridades da Defesa Civil do país. Em vídeo pude ver casas destruídas, entulhos retorcidos nas ruas, corpos sendo recolhidos, agora com mais pressa, para limpar o cenário para a próxima tragédia.

A extensão da mentira na República

Cerca de 134 milhões de brasileiros tem acesso à internet, mais de 100 milhões são usuários frequentes das mídias sociais, o que significa quase metade da população do país, segundo matéria da Agência Brasil. Contudo, a maioria das informações compartilhadas não são verificadas, são incompletas e de qualidade questionável. São as chamadas “fake News”, que se sobrepõem a outros distúrbios da informação, como desinformação, informações equivocadas ou enganosas e informações falsas que são divulgadas propositadamente para enganar ou confundir as pessoas.

Frequentemente, a mentira tem sido utilizada, na sociedade, como um instrumento de manipulação do homem pelo homem e a doença aguda da nossa sociedade, a adoração de alguns líderes políticos, facilita a manipulação e propagação de notícias falsas. Existem simplesmente muitas “verdades” aceitas que não são verdadeiras. Falsas versões de eventos, fatos claramente deturpados assumiram um papel estranhamente dominante na vida nacional.

Platão, na obra “A República”, mostra-se complacente com a mentira e admite que determinada classe social, como médicos e governantes podem mentir se for para o bem de seus pacientes e para o bem comum dos cidadãos. Aristóteles, porém, em sua obra “Ética a Nicômaco”, considera que nunca é permitido dizer uma mentira.

Santo Agostinho rejeitou todo e qualquer tipo de mentira, não aceitando nenhuma justificativa para a sua prática. Foi um dos primeiros pensadores a esmiuçar e sistematizar o tema. Ele elaborou teses sobre a mentira em dois tratados, intitulados “Sobre a Mentira” e “Contra a Mentira”.  Santo Agostinho fala dos mentirosos e enganadores, que não apenas revelam, mas também ocultam o pensamento. “Ninguém poderá duvidar que mente aquele que com ânimo deliberado diz algo falso com intenção de enganar”. A mentira é explicada como uma significação falsa unida à vontade deliberada de enganar outros.

A doutrina do duplo coração de Santo Agostinho sobre a mentira, fala da divergência entre aquilo que se crê interiormente e aquilo que se fala. Por isso se diz que o mentiroso tem um duplo coração: aquele que sabe que é verdade e se cala, e outro, aquele que fala sabendo que é tudo falso.

Na filosofia moderna, Immanuel Kant, no livro “À paz perpétua” diz que a condição prática moral para a paz perpétua na república é a aceitação universal do princípio da verdade ou, a proibição total da mentira. “Tu não deves mentir nem mesmo na mais piedosa das intenções”.

Fiódor Dostoiévski, em “Os irmãos Karamázov, encerra as citações sobre a mentira: “O principal é não mentir para si mesmo. Quem mente para si mesmo e dá ouvidos à própria mentira chega a um ponto em que não distingue nenhuma verdade nem em si, nem nos outros e, portanto, passa a desrespeitar a si mesmo e aos demais. Sem respeitar ninguém acaba na total bestialidade em seus vícios, e tudo isso movido pela contínua mentira para os outros e para si mesmo”.

Diante da vulnerabilidade de quem se informa por meio das mídias sociais, não causa surpresa que políticos de todos os lados possam ignorar os fatos narrados pela mídia de notícias e, em vez disso, usar a mídia social para fazer seus seguidores acreditarem e compartilharem suas afirmações, preferencialmente, as falsas. No mínimo, devemos ser mais rigorosos com as notícias que escolhemos ler e passamos adiante.

Como as democracias desvanecem

Tempos difíceis, é fato. Tivemos uma semana tensa, de críticas contundentes e muitas vezes desrespeitosas as instituições políticas, produção e reprodução de palavrões para designar ministro do Supremo Tribunal Federal, Live para apresentar provas de fraude nas eleições de 2018, que terminou com o anúncio de que não há provas. Bravatas, só bravatas? Ou bravatas aliadas ao frágil compromisso com as regras democráticas?

Li “Como as democracias morrem”, dos professores de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em 2019 e confesso que tive que reler trechos porque não poderia ser mais pertinente para o atual momento político que vivenciamos. Após uma longa jornada pela história de democracias falidas e diagnósticos de suas doenças fatais, como a corrupção, os autores não prescrevem exatamente um tratamento mas dão indícios do que deve e não ser feito.

A boa notícia do livro é que existem várias rampas de saída no caminho para o autoritarismo. A má notícia é que, nem sempre os eleitores percebem isso.

Os cientistas políticos passaram mais de vinte anos estudando o colapso das democracias na Europa e na América Latina e acreditam que o perigo é que a democracia não termina mais com um estrondo gigantesco, com uma revolução ou golpe militar, mas morre silenciosamente, com um gemido, ou seja; culmina com o enfraquecimento lento e constante de instituições críticas, como o judiciário e a imprensa, e a erosão gradual das normas políticas não escritas mas até então preservadas.

Com ampla gama de exemplos históricos e globais, da Europa dos anos 1930 à Hungria, Turquia e Venezuela contemporâneos, a eleição de Trump nos Estados Unidos. Os autores vão entrelaçando ciência política e análise histórica de crises democráticas internacionais e ao fazer isso, eles expandem a conversa para a necessidade de vigilância constante, visto que, quase todas as democracias do mundo já passaram por regimes autoritários.

Ensinam os professores que as democracias funcionam melhor e sobrevivem mais tempo onde os sistemas de freios e contrapesos funcionam e onde as constituições são reforçadas por condutas democráticas e que a polarização do cenário político prejudica a qualidade da democracia e o retorno às normas de indulgência e tolerância mútua.

Em artigo de 2019, citei o trecho do livro onde diz que as grades que protegem a democracia estão enfraquecendo e há regras que podem provar o esfacelamento do comportamento democrático. Vejamos:

Se os órgãos de controle, se tornam armas política, auditando severamente os oponentes do governo.

Se imputam à imprensa e à oposição a pecha de inimigos do governo. É notável nos autocratas, a intolerância à crítica e a disposição de usar o poder para punir aqueles que venham a criticá-los.

Se adversários políticos são descritos como comunistas ou ameaças à ordem constitucional. Se há um sistema contínuo de desqualificação dos oponentes partidários.

Se há encorajamento à violência.

Se há elogios a atos significativos de violência política e medidas repressivas tomadas no passado.

Aviso: Os cinco itens citados acima podem acionar o botão de pânico.

É preciso coragem para admitir fraqueza

Não precisamos de permissão para sermos humanos. Ignoremos as críticas. Muitas pessoas vivem tentando obedecer a padrões que são difíceis de alcançar, sem causar transtornos emocionais.

Necessidade não temos de nos encaixar em um molde perfeito, porque a perfeição vai estar sempre além do que fazemos. A tempestade perfeita dá-se quando nos esforçamos o tempo todo para agradar outros, para corresponder às expectativas alheias, enquanto o que torna a vida mais feliz é nos aceitarmos como somos, transparentes e imperfeitos, sem tantas justificativas.

A vida é dura. Vivemos todos sob pressão. Nem sempre, nem todos os dias, corpo e mente estão em sintonia para realizar tarefas treinadas e repetidas à exaustão por anos. Entre críticas, comentários de apoio e compreensão, a ginasta norte-americana Simone Biles, 24, causou perplexidade no Japão, ao desistir das finais olímpicas, para as quais estava classificada, alegando necessidade de preservar a saúde mental.

Biles explicou que não se reconheceu numa apresentação. Corpo e mente se desconectaram, ela ficou desorientada enquanto seu corpo subia e girava no espaço, experimentou uma sensação terrível de bloqueio mental repentino, perda total da orientação espacial e exatamente esse sentido de orientação precisa sempre foi característica admirada na atleta. A pressão de ser o rosto dos Jogos de Tóquio foi algo acima do que suportaria a mente de Simone, que há anos já dava sinais de que algo não ia bem.

Virou rainha da ginástica aos 19 anos, nas Olímpiadas do Rio de Janeiro em 2016. Chegou simpática, brilhou no solo, conquistou 4 medalhas de ouro e 1 de bronze e disse que quando terminasse a competição, só queria ser normal e sair para comer uma pizza de pipperone. O que esperavam dela em Tóquio? A mesma coisa; simpatia, apresentações impecáveis e muitas medalhas.

Pesquisei o hiato entre as Olimpíadas do Rio e de Tóquio, ou seja, de 2017 a 2021. É possível encontrar inúmeras entrevistas de Simone Biles falando sobre o quadro depressivo que enfrentava, sobre o desconforto e a vergonha de ter sido abusada sexualmente, sobre as terapias, as possibilidades de cura, mas a ginasta Simone continuou treinando, para confirmar seu nome como a maior ginasta de todos os tempos em Tóquio, sem contar que, em desalinho com o corpo, a mente ordenou um passo para trás para curar-se do abandono da mãe, do escandaloso caso do assédio sexual envolvendo omédico da Confederação Americana de Ginástica Olímpica, da cobrança pelo ativismoracial, para declarar-se engajada no movimento “Black LivesMatter”.

A confirmação de que fora abusada veio a público por uma mensagem dela mesma no ano de 2018 e num jornal de grande audiência na TV Americana, Simone confirmou o quadro de depressão, disse estar fazendo terapia e fazendo uso de medicação para controlar a ansiedade. “Eu estava muito deprimida. Eu dormia o tempo todo e disse para meu advogado que eu dormia porque dormir era a coisa que mais parecia com a morte”.

Assumida a depressão, assunto sendo tratado de forma transparente, em 06 de julho passado, antes de embarcar para Tóquio, Simone Biles postou: “Acho normal eu dizer que preciso de ajuda. Não há nada errado nisso. Os atletas estão falando mais sobre isso. No final do dia, somos iguais a vocês”.

Na última entrevista da semana, Simone concluiu: “Não confio mais em mim mesma, tenho que me concentrar na minha saúde mental” e assim termina sua participação nesta que deve ser sua última Olimpíada.

Parar, interromper não é uma construção premeditada, não é uma degeneração de habilidade, às vezes é necessário para encontrar a lucidez. Falhar, retroceder é normal, como nos recuperamos é o que importa.

O que revelou a fila dos ossos

A fila dos ossos, que falsamente escandalizou a sociedade e a mídia de Cuiabá e de todas as partes do Brasil, tem causa social, e não é natural, mas não evidenciou nenhuma situação nova, apenas escancarou uma realidade sabida e tratada com indiferença por quase todos. (Para os amigos que me leem e não moram em Cuiabá: semana passada vazou um vídeo, que viralizou, onde havia muitas pessoas numa fila, nos fundos de um açougue, esperando para ganhar ossos, para colocar na sopa).

Confirmou que o Brasil, o gigante Latino-Americano, é o 9º país mais desigual do planeta. O Ministério da Cidadania admite que 39,9 milhões de pessoas vivem na extrema pobreza no Brasil, dos quais mais de 14 milhões de família cadastradas, com renda de até R$ 89. 140 mil famílias em estado de extrema pobreza em Mato Grosso, 18 mil famílias na mesma situação em Cuiabá.

Um em cada quatro brasileiros é pobre, de acordo com a pesquisa Sínteses dos Indicadores Sociais, do IBGE e entram na conta somente os moradores de residências permanentes, ou seja, estão excluídas da pesquisa as pessoas em situação de rua, o que aumenta ainda mais o rastro da fome espalhado pelo país.

No mundo, ano de 2020, mais de 588 milhões de pessoas viviam em pobreza extrema, o que significa que aproximadamente 7,7% da população global vive nessa situação inadmissível. A maioria dessas pessoas estão envoltas numa forma de ciclo de pobreza que, sem severa intervenção externa, sobretudo dos governos, é improvável que seja quebrado.

E o Brasil está a décadas de distância de atingir um nível razoável de igualdade social. Veja você, que um trabalhador que ganha salário-mínimo levaria 19 anos para acumular a mesma quantia que um dos brasileiros mais ricos ganharia em apenas um mês. É disso que estamos falando, da disparidade cruel e secular entre as classes sociais.

E sobre classes sociais existentes, o cientista, advogado e geógrafo Milton Santos tem uma frase profunda para identificá-las. “Existem apenas duas classes sociais, a dos que não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem”.

A pobreza é mais do que falta de recursos. Ela se caracteriza pelo descaso dos governantes, pela corrupção que embolsa recursos que poderiam ser aplicados em políticas públicas, em ampliação dos valores pagos pelos programas de transferências de renda. Tem sido, mas não precisa ser sempre assim: desemprego, pobreza extrema e desigualdade crescente são males estruturais que assolam a complexa sociedade brasileira. São famílias vivendo à margem da sociedade, vendo o crescimento e a prosperidade passarem por eles, mas em suas vidas há apenas escassez. Não tem comida suficiente, não tem água limpa ou saneamento, não tem acesso à educação e saúde.

Entretanto, o fardo que a pobreza representa para a sociedade e os indivíduos não é apenas econômico ou físico. Medir a pobreza desta forma ignora os outros tipos de pobreza que oprimem os marginalizados. As pessoas pobres sentem agudamente sua impotência e insegurança, a vulnerabilidade e falta de dignidade. A pobreza extrema faz com que os pobres sofram emocional e espiritualmente também.

Os pobres, mais do que qualquer outro grupo, dependem de serviços públicos básicos. Melhorar o acesso à educação de qualidade e a saúde são vias imprescindíveis para se sair da pobreza, cuja extensão, pode ser percebida de outras formas além da fila dos ossos.