O Homem que vive entre feras

Desde a inauguração, moro vizinha ao Shopping Goiabeiras, espaço que acolheu a adolescência dos meus filhos, num atravessar de rua constante, um movimento frenético e alegre, repetido várias vezes ao dia.

Lembro-me das polêmicas noites de domingo. Os moradores do entorno querendo assistir ao “Fantástico” e o Shopping rivalizando com uma programação cultural na rua; ambiente meio bucólico; um shopping numa capital e uma programação que lembrava festa no interior, em plena Av. Lava Pés. Palco enorme montado e lá pelas 8h30, 9horas a Banda Terra entrava com Edmilson Maciel cantando “América do Sul”, de Ney Matogrosso, num volume que não deixava alternativa senão correr para a sacada e cantar junto, desperta América do Sul… (toda admiração à interpretação do Edmilson).

Hoje acessei o site do Shopping e na página da apresentação, entre outras coisas, ainda diz ser um espaço seguro. Pensei nos riscos que corremos nesses espaços coletivos onde o indivíduo, às vezes, se depara com a condição de ter que escolher entre ser o carrasco ou a vítima, entre manifestar-se ou abster-se da emissão de qualquer juízo, seja verbal ou comportamental. Alí há um padrão de indivíduos que são aceitos socialmente, que não são ‘suspeitos’, porque se vestem, falam e agem uniformemente, robotizados pela ditadura comportamental absorvida pela mente dos que administram tais empreendimentos.

Contraditória porém, essa linha de raciocínio. Os shoppings deveriam se caracterizar como espaços de múltiplo uso para as diversas tribos sociais, espaço para a representação da diversidade cultural; roupas coloridas, cabelos compridos, homens de chapéu não deveriam ser vistos como seres ameaçadores da ordem. Porém, após a confirmação de três casos de intolerância e agressão é preciso repensar a utilização desse espaço.

A violência nesses ambientes atinge sobretudo pessoas com comportamentos não prefixados ou assimilados pela mente dos fortões que controlam a movimentação desses lugares, através dos circuitos fechados. Atentos a tudo, mas alheios ao principio da tolerância e sobretudo, ao principio básico de que o homem não é mais o lobo do próprio homem, certos seguranças estabelecem as técnicas de guerilha como “modus operandi” diante de qualquer movimentação e a substituição dos métodos de persuasão pelo método da violência tem sido atitude recorrente do homem nesses espaços controlados. E esse poder tirânico ameaça e constrange por preconceito socioeconômico, preconceito pessoal, atitudes de desconfiança e deboches, que cala o indivíduo sem que antes tenham tempo ou oportunidade para se expressar.

Certa vez li que o formato das obras dos Shopping Centers priorizam a arquitetura que permite ver amplamente a movimentação dos corredores. Nesse contexto a relação entre o ver e o saber o que estão fazendo tem a nítida pretensão de alimentar o sistema de vigilância para, ao menor sinal, acionar o sistema punitivo.

A violência praticada no shopping Goiabeiras alimentou um momento de terror, com a intenção de punir as condutas consideradas desviantes pelo algoz, e o castigo, com intervenções físicas severas, cinicamente foi aplicado de acordo com a gravidade da desobediência, segundo o caráter doentio e perverso do carrasco.

Mas a violência não pode ser compreendida ou abrandada nunca. Violência é a força do perseguidor que golpeia quem não quer dobrar-se as suas vontades e a violência no Shopping Goiabeiras, constrangeu, imobilizou, prendeu e golpeou a vítima até a morte, numa sessão de tortura sem tréguas e sem compaixão.

Nasce, portanto, na cabeça dos homens esse instrumento perverso de punição e para combatê-la é preciso desenvolver a consciência na cabeça dos próprios homens que matam por motivos moralmente reprováveis, além de banais.

Casos de violência não podem ser banalizados tampouco esquecidos e nesse caso, a justiça foi feita de forma rápida e segura, porque existem muitas pessoas, profissionalmente, comprometidas com a verdade, com a elucidação dos fatos e com punição dos culpados.

Lembro-me mesmo assim de Augusto dos Anjos, poeta brasileiro, considerado “maldito”, que em 1901 escreveu Versos Íntimos, que transmite uma certa sensação de perplexidade diante do descaso.

“Acostuma-te à lama que te espera!

O homem, que, nesta terra miserável,

Mora entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera”.