Soneto 97 – William Shakespeare

Como o inverno, tornou-se minha ausência De ti, o prazer com que passou o ano! Que frio senti, que dias negros eu vi! A estiagem de dezembro espalhou-se por toda a parte! E longe .cava, então, o verão, O próximo outono, crescendo com toda a força, Suportando o luxurioso peso do início, Como úteros viúvos após a morte de seus senhores; Embora esse farto assunto me pareça A esperança de órfãos, e de frutos sem ascendência, Pois o verão e seus prazeres servem a eles, E, embora distante, os mesmos pássaros emudeçam; Ou, se cantam, emitem um trinado tão mortiço, Que as folhas empalidecem, por temerem o inverno.

William Shakespeare (Stratford-upon-Avon, Inglaterra, 23 de abril de 1564 – Stratford-upon-Avon, 23 de abril de 1616)

A luz do dia!

É tarde da noite, você está cansada e mesmo assim entra em discussão com seu companheiro.
Não importa o quanto tentem explicar suas razões, desculpar-se por um atraso, por uma palavra mal dita, vocês entrarão numa zona de conflito insuperável, naquele momento, exatamente porque não é este o momento para discutir.
A beira da cama não deve haver conflitos, assim dizem os ditados populares.
A noite chega e trás consigo toda carga do cansaço do dia.
A pressão, o tempo, o trânsito, os filhos, as contas…não cabe mais nada racional. Mas é nessa hora que explodimos!
Nunca fui boa de discussão. Na hora da briga séria eu penso no beijo, eu me distancio e viajo…não revido, porque já não ouço…
Aprendi a levantar-me e enfrentar os problemas à luz da manhã, com o corpo são, alimentado e descansado as respostas podem ficar mais evidentes, os argumentos outrora desconexos, podem adquirir rima. O café pode selar o ressentimento ou o convencimento.
De manhã não há tempo para avolumar o problema, não há escuridão para esconder a indiferença.
Você e eu e nossas diferenças expostas a luz do dia!

Carlos Drummond de Andrade

Já não há mãos dadas no mundo.
Elas agora viajarão sozinhas.
Sem o fogo dos velhos contatos,
que ardia por dentro e dava coragem
Desfeito o abraço que me permitia,
homem da roça, percorrer a estepe,
sentir o negro, dormir a teu lado,
irmão chinês, mexicano ou báltico.
Já não olharei sobre o oceano
para decifrar no céu noturno
uma estrela vermelha, pura e trágica,
e seus raios de glória e esperança.
Já não distinguirei, na voz do vento
(Trabalhadores, uni-vos…) a mensagem
que ensinava a esperar, a combater,
a calar, desprezar e ter amor.
Há mais de vinte anos caminhávamos
sem nos vermos, de longe, disfarçados,
mas a um grito, no escuro, respondia
outro grito, outro homem, outra certeza.
Muitas vezes julgamos ver a aurora
e sua rosa de fogo à nossa frente.
Era apenas, na noite, uma fogueira.
Voltava a noite, mais noite, mais completa.
E que dificuldade de falar!
Nem palavras nem códigos: apenas
montanhas e montanhas e montanhas
oceanos e oceanos e oceanos.
Mas um livro, por baixo do colchão
era súbito um beijo, uma carícia,
uma paz sobre o corpo se alastrando,
e teu retrato, amigo, consolava.
Pois às vezes nem isso. Nada tínhamos
a não ser estas chagas pelas pernas,
este frio, esta ilha, este presídio,
este insulto, este cuspo, esta confiança.
No mar estava escrita uma cidade,
no campo ela crescia, na lagoa,
no pátio negro, em tudo onde pisasse
alguém, se desenhava tua imagem,
teu brilho, tuas pontas, teu império
e teu sangue e teu bafo e tua pálpebra,
estrela: cada um te possuía.
Era inútil queimar-te, cintilavas.
Hoje quedamos sós. Em toda parte,
somos muitos e sós. Eu, como os outros.
Já não sei se vossos nomes nem vos olho
na boca, onde a palavra se calou.
Voltamos a viver na solidão,
temos de agir na linha do gasômetro,
do bar, da nossa rua: prisioneiros
de uma cidade estreita e sem ventanas.
Mas viveremos. A dor foi esquecida
nos combates de rua, entre destroços.
Toda melancolia dissipou-se
em sol, em sangue, em vozes de protesto.
Já não cultivamos amargura
nem sabemos sofrer. Já dominamos
essa matéria escura, já nos vemos
em plena força de homens libertados.
Pouco importa os dedos se desliguem
e não se escrevam cartas nem se taçam
sinais da praia ao rubro couraçado.
Ele chegará, ele viaja o mundo.
E ganhará enfim todos os portos,
avião sem bombas entre Natal e China,
petróleo, flores, crianças estudando,
beijo de moça, trigo e sol nascendo.
Ele caminhará nas avenidas,
entrará nas casas, abolirá os mortos.
Ele viaja sempre, esse navio,
Essa rosa, esse canto, essa palavra