Desigualdades são escancaradas pelo processo de globalização

A globalização é um processo de integração entre pessoas, companhias, administrações e governos, através do qual todo o mundo interage e se integra num sistema de trocas econômicas e culturais sem precedendes. A globalização, obviamente não pára nesse contexto de integração de economias regido com bases internacionais de regulação.

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Cidadania se torna um
processo utópico no
mundo globalizado
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A globalização escancarou a desigualdade na agenda global, isso fica evidente na leitura de textos e entrevistas do professor-doutor Milton Santos, que nasceu no interior da Bahia, em 1926. Doutor honoris causa em vários países, ganhador do prêmio Vautrin Lud, em 1994 (o prêmio Nobel da geografia), professor em muitos países (em função do exílio político causado pela ditadura de 1964), autor de 40 livros. Morreu em 2001.

Geógrafo e pensador, Milton Santos pertence ao grupo de intelectuais que buscam o pensamento crítico para entender a vida contemporânea e via a globalização como um processo de revelação das diferenças escondidas, nem sempre um processo coeso, na grande maioria das vezes, um sistema que faz tudo funcionar de acordo com as regras do mercado burgues. Onde os grandes, não saciados em controlar os rumos da economia, passaram também a controlar a comunicação entre os povos. Seis empresas controlam a mídia mundial e reafirmam a ideologia da globalização, pois são diretamente ligadas ao mundo da produção.

Por isso firmam a imagem de certos produtos como símbolo de que tudo se chega a todos os lugares. Nada além de induzir ao consumismo nos espaços globalizados. Não se pode furtar portanto, a importância do local, das virtudes da cultura que marca um povo. Para se tornar um espaço global o mundo precisa da cultura, da mão de obra local. É combinando as matrizes locais, nacionais e internacionais que cada cultura ganha dimensão global. Anthony Giddens, sociólogo britânico, afirma que tudo o que é global é relevante para o local e tudo o que é local afeta em alguma medida o global.

O desempenho das grandes corporações dentro do processo da globalização há de ser cuidadoso. O documentário co-produzido pela Dinamarca e Alemanha, chamado “Blood in the Mobile”, (Sangue no celular) aborda a cruel guerra civil no Congo e nos chama a todos à responsabilidade por alimentar esse conflito, que mostra a conexão entre as companhias fabricantes de celular e a guerra civil no Congo. O dinheiro obtido na venda dos minerais, que se transformam em componentes indispensáveis para a fabricação do telefone são investidos em armamentos e manutenção de grupos armados que disputam o poder local. Portanto, o meu, o seu celular está envolto num processo multinacional de fabricação banhado a sangue.

O ex-ministro Rubens Ricupero, em artigo publicado na revista Scielo traçou inclusive um paralelo interessante entre Marx e o processo em construção da globalização, sobretudo na unificação dos mercados em escala mundial. Tirou-se o chão das industrias nacionais, eis o que disse Rubens Ricupero, sobre esse rearranjo das relações sociais modernas, que produz blocos de países, que buscam ampliar seus parceiros globais para circular suas mercadorias e nem sempre acontece o mesmo com a circulação das pessoas.

Além das contradições e paradoxos produzidos por este modelo econômico e cultural é possível enxergar a construção de uma realidade mais justa e humana. O fim do isolamento. No lugar do antigo isolamento há interação em muitas outras direções para difundir a produção material e cultural, para difundir a multiplicidade dos indivíduos, cultura, religião, língua e ideologia.

O caminho inverso à perversidade econômica seria vislumbrar as perspectivas de existência digna dentro do processo de globalização, onde os cidadãos habitariam um mundo sustentável, com qualidade de vida, provido de água, comida e energia na medida de suas necessidades, sem desprezar o conteúdo técnico que sustenta a globalização; a economia. Aí talvez a cidadania deixaria de ser um processo utópico e seria um processo também global.

O professor Milton Santos não era sistematicamente contra a globalização e sim contra o modelo perverso que fora adotado, que ele chamou de globalitarismo, onde os debaixo trabalham com poucos direitos e a banalização da pobreza reduziu os cidadãos a dois tipos de gente: os que não comem e os que não dormem com medo da revolução dos que não comem.

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