Reflexão sobre a paz num período de guerra

Em 1795, o filósofo alemão Immanuel Kant lançou um manifesto que provocou um enorme sucesso junto ao público culto da sua época. Era um projeto que visava estabelecer uma paz perpétua entre os povos europeus, e depois espalhá-la pelo mundo inteiro. Era um manifesto a favor do entendimento permanente entre os homens e falava da criação de leis proibitivas que pudessem eliminar as situações de guerra e preparar a paz, porque a sociedade, deixada a sua própria natureza e por seu estado conflitante, estaria mais propensa a guerra.
Os exemplares se esgotaram em uma semana, apesar de Kant reconhecer que seu estudo não seria efetivamente levado em consideração pelos políticos, exatamente por parecer inofensivo demais.

É cruel a violação dos direitos humanos em todo o mundo e nós, enquanto expectadores, somos impotentes diante dos conflitos armados, da insurgência, da opressão política e da resistência popular, que causam mortes de civis inocentes, todos os dias.
As Nações Unidas registram que em 1965, havia 10 grandes guerras em curso. Mas o novo milênio começou com considerável parte do mundo envolvido em conflitos armados ou vivendo períodos de paz incerta. No ano de 2005, havia oito grandes guerras em curso, ano de 2003, 15 ou menos conflitos em curso, com variado grau de intensidade.
No momento são cerca de 33 focos de guerra civil no mundo, da Africa a Ásia e como desde sempre, os civis inocentes são os que sofrem mais.
A maioria destes conflitos são civis, alimentadas tanto pela questão racial, animosidades étnicas ou religiosas como pelo fervor ideológico. A maioria das vítimas são civis, uma característica que distingue os conflitos modernos. Na I Guerra Mundial, menos de 5 por cento de todas as vítimas eram civis. Hoje, 75 por cento ou mais dos que foram mortos ou feridos nas guerras são não-combatentes.

A guerras devem deixar um saldo de 3 milhões de mortos todos os anos, no século XXI, segundo o ex- secretário de defesa americano, Robert MacNamara.
Mais que todos os outros, o continente Africano, é afligido pela guerra. Desde 1960 a África foi marcada por mais de 20 grandes guerras civis, que causaram danos econômicos e sociais incalculáveis, como a fome, porque a situação de guerra impede a produção de alimentos.

A Constituição da UNESCO considera que assim como as guerras nascem na mente dos homens é na mente dos homens que devem ser construídos os caminhos da paz”. A UNESCO trabalha na premissa de que o princípio fundamental para a implantação de uma cultura de paz é a transformação do conflito em entendimento, através do diálogo, da cooperação, do respeito aos direitos humanos e observação dos princípios democráticos. A construção de uma cultura de paz concentra-se principalmente na transformação da mente.
A paz começa em casa – com a vida tranquila, boa educação, respeito pelos outros. Por que a guerra perverte e destrói, empurra o cidadão para a aniquilação espiritual, emocional e física. A guerra desconstrói a vida, destrói todos os sistemas que sustentam os seres humanos; político, social e ambiental.

Mas e a guerra urbana, meio rasteira, que tenta passar desapercebida, como a guerra que vitimou Toni Bernardo (estudante da Guiné Bissau), espancado até a morte? Essa é a guerra do homem que nutre ódio e desprezo pelos outros homens.
Não há muito tempo eu havia lido um documento elaborado com zelo imenso pelo Instituto Sangari e Ministério da Justiça, denominado `Mapa da violência – Os jovens do Brasil`. As pesquisas indicam que as principais causas de morte entre os jovens há cinco décadas sofreram uma reviravolta e foram progressivamente substituídas pelas denominadas “causas externas” de mortalidade, ou seja, mortes causadas por agentes externos, como os homicídios.

Em alguns estados, mais da metade das mortes de jovens foi provocada por homicídios, sobretudo na faixa “jovem”, dos 15 aos 24 anos, onde os homicídios atingem sua máxima expressão. De acordo com o filósofo italiano Norberto Bobbio , “o homem começa a refletir sobre a paz partindo do estado de guerra”, pois a guerra coloca em perigo o bem maior do homem, a sua própria vida.

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