A culpa em si é um sentimento inútil

O sentimento de culpa é algo bom. As únicas pessoas que não sofrem com a culpa são os sociopatas e serial killers. A culpa significa que você tem consciência, boa percepção. Amparado por comodidade ou ensinamento religioso, alguns preferem acreditar que toda nossa história de vida se desenrola seguindo o que já fora traçado desde que nascemos.

Do terremoto aos desmandos políticos, tudo se move de acordo com a vontade de Deus. Assim fogem da atribuição de culpa aos outros e a si próprio quando as coisas vão mal. O sentimento de culpa é apropriado para que não sejamos inclinados a esquecer certos abusos. O racismo por exemplo. O que você faz para reforçar sua oposição ao racismo? Tudo? Então ótimo. Não se acuse e nem recuse a realidade do mundo que você vive. Todo mundo tem um um crítico dentro de si, dizendo-lhe como agir, o que fazer e o que não fazer, julgando a aparência, repreendendo o modo de vida.

Essa voz interior detém o poder incrível de nos atribuir culpas, de nos chamar a razão em momentos que absolutamente podemos mudar coisa alguma. Porém, em outras circunstâncias, temos que assumir nossas culpas pelas escolhas feitas às pressas, pelo fracasso de políticos que apoiamos, pela pobreza dos que vivem ao nosso redor.

Tragédias ressoam repetidamente em nossos ouvidos, massacres, guerras e isso é culpa nossa. São ações iniciadas pelos homens de razão, que estão sempre com um pé na possibilidade de erro. Mas não se curve em culpas; a culpa ostentada converte-se em fraqueza. No outro extremo, também não faça a mea culpa, porque pode parecer arrogância querer que a solução de todos os problemas passe por você.

Li que as mulheres são mais propensas a dureza da culpa. Culpam-se pela educação dos filhos, pelo excesso de trabalho, pelo acúmulo de horas fora de casa, pela liberdade que experimentam. Esta voz interior é fonte de estresse negativo, abala a auto-estima, causa infelicidade. Talvez porque as mulheres ainda ouvem as vozes do passado, que estão internalizadas. São talvez os pais, irmãos, marido, a escola conservadora, que colocou-as uma condição onde tudo é preto ou branco.

O desempenho do ser humano não é perfeito de acordo com nenhum padrão, não somos robôs. Isso não é fracasso. Fracasso é pegar uma situação ou característica negativa e multiplica-la. Ver um único evento desagradável como um padrão contínuo de derrota, é excesso de generalização. Erros ou falhas isoladas não indicam que você sempre falhará. Sempre hesitei em creditar culpa aos outros ou a mim mesma, nem mesmo sei quem seria o alvo das minhas acusações. Por certo, nem todo mal pode ser evitado, então não personalizo o fracasso, não assumo a responsabilidade de circunstâncias negativas que estão além de meu controle. Não dou ouvido a voz interna que diz que tudo é culpa minha.

Na contramão da culpa, melhor avançar e aceitar que somos seres imperfeitos, que fazemos o melhor com o que temos no momento e isso tem que ser bom o suficiente. A culpa excessiva corrói a alma, é uma emoção complicada, que mistura elementos da nossa cultura, religião e da família, além do nosso crítico mais severo; nós mesmos.

As duas naturezas do egoísmo

Se a consequência do individualismo carecia de base teórica e empírica, uma nova descoberta de cientistas da Universidade de Sidney, na Austrália, pela primeira vez, isolou o gene do egoísmo em abelhas fêmeas. O conceito que era apenas aceito, agora está confirmado. Isso significa que o gene do egoísmo existe e não apenas em teoria, mas na realidade e pode estar abrigado no núcleo das minhas e das suas células.

Há traços do egoísmo em todo processo da nossa evolução. Interesses pessoais não se extinguem, não desaparecem completamente, não são sequer camuflados. Só que as sociedades evoluíram e os laços que unem as pessoas deixaram de ser apenas pessoais e como membros da mesma sociedade e devemos nutrir sentimentos comuns de convivência e compartilhamento harmonioso. Mas a civilização tem suas imperfeições e seus perigos.

O egoísmo separa o individuo de tudo, confina a pessoa em si própria, fecha todos os horizontes. Qualquer observador hoje confirma que estamos nos tornando mais egoístas; maus modos e grosseria são evidentes. As pessoas trabalham apenas para si, colocam suas próprias necessidades antes das dos outros, e tentam distorcer os acontecimentos das ordens naturais em seu favor quase todos os dias. Todo mundo quer ser um indivíduo único neste mundo. Isso não seria um problema em si, mas somos 7 bilhões de pessoas no planeta, se cada um decidir agir individualmente, o que será?

Num estudo sobre o comportamento egoísta das classes sociais, pesquisadores emitiram um veredicto devastador sobre os altos escalões da sociedade. Descobriram que as pessoas privilegiadas frequentemente se comportam pior que os outros em uma série de situações, com maior tendência a mentir, trapacear, tirar os outros do caminho, não parar para pedestres em cruzamentos. Na ponta dos estudos o psicólogo Paul Piff , do Institute Social of Personality observou secretamente o comportamento das pessoas e constatou que os motoristas dos carros mais caros eram a maioria dos que não aguardavam o sinal ou davam preferência aos outros, inclusive pedestres. Interessante ver como o efeito varia entre as culturas. Em raros momentos da pesquisa, ambas as classes se comportaram iguais.

Visto que o egoísmo tem ligações intrínsecas com a ganância, o indivíduo ao ocupar escalões mais altos começa a ver-se com mais direitos e desenvolve um elevado foco em si mesmo, o ambiente social fica mais favorável as suas ações predadoras e ele perde inclusive, a noção dos riscos de seu comportamento fechado em si mesmo.

Sempre nos disseram para não sermos egoístas porque o egoísmo é uma característica ruim, no entanto, contrapondo o estudo apresentado acima, a Stanford Graduate School of Business (GSB), apresenta o egoísmo como um componente vital da recuperação pessoal e afirma que os indivíduos que agem em seu próprio interesse, são mais propensos a ganhar prestígio e reconhecimento de liderança dentro dos seus grupos sociais do que aqueles que apresentam características altruístas e contribuem para o bom resultado da equipe.

Esses resultados não devem de modo algum desencorajar as pessoas no processo de demonstrar generosidade. Eles simplesmente explicam como opera o comportamento do indivíduo que trabalha em um ambiente competitivo. Na política é bem fundada a presunção de que o homem público que se deixa corromper, é de espírito egoísta, pois antepõe o interesse individual ao coletivo, o próprio bem ao bem comum.

Vendedores de ilusão

Os políticos são sempre os mesmos em toda parte. Eles prometem fazer pontes até mesmo onde não há rios, teria dito o líder político russo Nikita Kruschev.

Aprender a falar “não” é um dos maiores desafios enfrentados pelos políticos, que acabam super-comprometidos com programas impossíveis de se realizar quando se elegem. Tentar ser a esperança e a redenção para todo mundo não é eficaz tampouco sincero. É preciso saber quando dizer não. É bom manter o foco mais estreito e as metas dentro de um estado de controle que o candidato possa segurar pessoalmente. Deveria ser regra básica não fazer promessas ao vento. Li uma pesquisa que analisou o grau de sinceridade dos discursos de candidatos americanos e para surpresa, o resultado foi que os discursos dos candidatos lá são tipicamente sinceros.
Aqui, faz-se outra leitura. Os candidatos devem dizer não quando houver solicitações que são inconstitucionais ou que sejam de responsabilidade de outro nível de poder. A outra opção é contratar pessoas qualificadas que entendam os processos eleitorais e suas nuances, que estejam afinadas com a realidade da cidade e que tenham uma visão humana da condição de vida dos cidadãos. Além disso, o candidato pode perguntar a si mesmo o que, como cidadão gostaria que fosse feito antes de galantear-se como candidato.
Não ignorar as críticas,tampouco colocar-se acima delas, acreditar em si mesmo, no projeto político que empunha e manter-se firme no jogo são recomendações básicas para manter o equilíbrio nos dias que você sentir vontade de jogar a toalha. Mas, para ser bem sucedido, é preciso também de sorte, manter a fé e sobretudo ter bom discurso, que ataque os problemas de frente e que seja específico e claro. Embora os candidatos prefiram fazer afirmações positivas sobre seus próprios planos, interesses e atividades, alguns ainda perdem tempo criticando os programas do adversário. Estranho não? Com tanta coisa para fazer por que ater-se a ler o programa do outro? Isto sugere que quando os candidatos perdem o tempo de propaganda, já escasso para atacar seus oponentes, esse comportamento enfraquece o valor da campanha.
Segundo a pesquisa, os jornalistas e analistas políticos afirmam que frequentemente os discursos inflamados servem apenas para influenciar eleitores desavisados e vulneráveis e tem pouca ligação com o que realmente pretendem fazer os candidatos depois de eleitos. Até porque, depois de eleito, o candidato não governa sozinho. Depende de aprovação de outros poderes para legislar. E os candidatos (todos) sabem muito bem disso e se insistem em transitar entre a linha das promessas vãs e do desrespeito aos eleitores só revela que o candidato é essencialmente um vendedor de ilusões e que dirá qualquer coisa para conseguir o seu voto.
Será que nós sinceramente esperamos que eles façam tudo o que prometem durante a campanha? Afinal, as circunstâncias estão sempre mudando. Uma vez eleitos os políticos têm de se ajustar a situações diferentes em conformidade com o cargo. Contudo, alguns serão bons, outros ruins e nenhum será perfeito.
Estejamos atentos. Promessa de campanha não é sinal significativo das intenções dos candidatos. Há por aí grandes exemplos de pessoas cujos egos estão fora do equilíbrio. Eu vou procurar candidatos encorajados a pensar também com o coração.

A arte de transformar estranhos em amigos

A linha que separa os bons dos maus não passa pelo estado, nem pela divisão de classes, nem pelos partidos políticos, mas vem de dentro do coração do homem, escreveu o russo Alexander Solzhenitsyn.
Resta-nos o desafio de adotar novos modos de pensar, novas formas de atuação, de nos organizar em sociedade, em suma, novas formas de vida, encontrar um novo senso sobre nossa espiritualidade, porque estar vivo deve ser algo mais do que apenas caminhar e falar.
Uma das perdas que a sociedade moderna se ressente com mais intensidade é a perda de um sentido de comunidade. Algo que já existiu num passado nem tão distante e que foi substituído pelo anonimato cruel, pela busca de contato um com o outro principalmente para fins individualistas, para obter ganho financeiro, para avançar socialmente ou para viver relacionamento amoroso.
Como a sociedade pode retomar o espírito de comunidade na sociedade moderna que é centrada na adoração do sucesso profissional?
Nos competitivos, pseudo-encontros sociais focados no trabalho para a exclusão de quase todo o resto é o preconceito que normalmente nos impede de construir conexão com os outros. O que importa acima de tudo é o que está em nosso cartão de visita. Aqueles que optam por passar a vida a escrever poesias, nutrir a alma com conteúdo espiritual acentuado será deixado de lado por estar navegando em sentido contrário aos costumes dominantes dos poderosos, que vão marginalizá-los em conformidade.
Todos os indivíduos são partes e são impactados por vários sistemas: familiar, cultural, econômico, político, filosófico, tecnológico, ambiental, lingüístico, educacional, entre outros… Estes sistemas são interdependentes, sobrepondo-se, e cada um é, por sua vez parte de um sistema maior. Se trabalharmos menos febrilmente, podemos acolher idéias que nos permitam remendar alguns aspectos desalentadores do nosso mundo fraturado e moderno, que nos fechou em eixos egocêntricos. Observo que no mundo contemporâneo não falta lugares onde podemos nos divertir,comer bem, inclusive nos locais de trabalho, mas o que é significativo é que quase não há locais que podem nos ajudar a transformar estranhos em amigos.
O grande número de pessoas que frequentam bares e restaurantes, cafés sugerem que esses ambientes são refúgios do anonimato e frieza. Em um restaurante moderno, o foco é a comida e a decoração, não há nenhuma possibilidades de ampliação e aprofundamento de afeto. Esses locais reafirmam a existência de divisões tribais e limitam-se a trazer pessoas para o mesmo espaço físico, mas não têm qualquer meio de incentivá-las a fazer contato um com o outro uma vez que estão lá.
Vislumbro uma transformação global silenciosa, como um fluxo de água abaixo da superfície da nossa cultura, que irá nos despertar e nos desafiar a escolher um caminho com um senso mais profundo de solidariedade.
Uma comunidade só poderá ser integrada e saudável se for construída com base no amor e na preocupação das pessoas umas pelas outras. Falar de solidariedade é falar das coisas do espírito. A dimensão espiritual é o único ingrediente que pode fazer as pessoas se unirem.