Kuarup – uma celebração tipicamente xinguana

A região denominada Alto Xingu, formada por 14 etnias, esteve em festa no final da semana. A aldeia Yawalapiti, onde vive o não velho, 61 anos, porém lendário líder Aritana, realizou o Kuarup ou Quarup, uma bela festa ritualística onde os indíos choram e homenageiam os mortos, numa cerimônia em que tocam, cantam e lutam o huka-huka, no encerramento da celebração. Esta cerimônia, que é tipicamente dos povos indígenas do Alto Xingu, move-se de uma aldeia para outra porque ela ocorre onde tiver acontecido a morte de algum membro importante para a comunidade. A família então, assume os preparativos.

O cacique Aritana é a mais respeitada liderança do Alto Xingu. Desde que assumiu a chefia dos Yawalapiti, há cerca de 30 anos, ele luta incansavelmente pela preservação da cultura e dos hábitos dos índios xinguanos. Esforça-se para mostrar aos jovens a importância de ser o que são: índios.

A Adeia Yawalapiti comandada por Aritana e seu filho Tapí, homenageou também Darcy Ribeiro e a família foi representada por Paulo Ribeiro, que dirige a Fundação que leva o nome do antropólogo. Darcy Ribeiro foi ministro da Educação, durante o Governo João Goulart, aos 29 anos, ministro-chefe da Casa Civil, vice-governador do Rio de Janeiro e senador da República de 1991 até sua morte, em fevereiro de 1997. Criou o Museu do Índio e a Universidade de Brasília, da qual foi o primeiro reitor e formulou o projeto de criação do Parque Indígena do Xingu.

A Aldeia Yawalapiti é toda circular, com uma praça limpa no centro, onde acontece toda festividade da Aldeia e também onde os mortos são enterrados. É também na praça que se localiza a Casa dos Homens que causa tamanha curiosidade. Uma construção igual as demais, porém com portas mais baixas. As flautas são guardadas lá dentro, presas as viga centrais. Ali mulheres não entram. Nos dias do Kuarup, a vida na aldeia não para um minuto. A atenção se volta aos guardiões da flauta que percorrem as ocas apresentando as virgens recém saídas da clausura. Como a aldeia é circular, impossível imaginar quantas voltas tenham dado nestes três dias que lá estive. As virgens dançam atrás dos guardiões e se escondem tímidas quando estes param para descansar dentro de alguma oca. Esse ritual marca a passagem da infância para vida adulta e no final, as jovens estão prontas para casarem-se.

De manhã, três troncos fixados debaixo de uma tenda começam a ser enfeitados. Ao redor deles sentam-se os familiares dos mortos. Choram por algum tempo. Depois acalmam-se. A Aldeia retorna a rotina. Quando o sol começa a se pôr o ritual reinicia no centro da aldeia. Os familiares dos mortos se reúnem, choram copiosamente, acendem tres fogueiras, ao redor das quais, entoam cantos e dançam toda a madrugada. Aos poucos vão chegando indígenas de outras etnias, a chegada é saudada com gritos. Eles acampam na mata, um pouco distante do centro da Aldeia Yawalapiti.

Ao amanhecer de domingo é dia da esperada luta huka-huka. Os guerreiros untam os corpos com óleo, pasta de urucum e pequi. Vi alguns que se submeteram a arranhões feitos nos braços e pernas com dentes de peixes para aumentar a força. Os Yawalapiti estão confiantes no guerreiro Leo, um jovem que se destacou, porque se preparou intensamente para o embate. Não perde uma luta! São mais de duas horas de lutas. Por volta do meio-dia, os troncos ornamentados são depositados no rio. É o fim da cerimônia.

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