O bem-estar da liberdade compensa os machucados

Jean-Jacques Rousseau, nascido em Genebra, na Suíça, foi um dos mais consagrados filósofos no século XVIII. Suas obras inspiraram reformas políticas e educacionais. Em sua filosofia da educação, enalteceu a educação natural, baseada em um acordo livre entre o mestre e o aluno.
Acabo de ler Emílio, um livro publicado em 1762, que embora criticado por setores pedagógicos, que citam a obra como uma leitura equivocada para os educadores, apresenta uma reflexão romanceada de como educar permitindo que as crianças se desenvolvam de forma independente e criativa, em contato com a natureza. A criança aprende valores que a tornaria comprometida com a sociedade, sem nenhuma idéia de superioridade, valorizando a liberdade e igualdade. Emilio soa como um tratado sobre as qualidades naturais do homem, sua bondade e liberdade.
A educação das crianças colocada como prioridade pelos pais, que teriam o dever de educar os filhos, seres humanos sociáveis e cidadãos aos olhos do Estado. O contraditório aí é que o próprio Rousseau não o fez. Pai de cinco filhos, entregou-os todos a um orfanato.
Entretanto, o desafio de educar Emilio é ligar intrinsicamente os valores corrompidos da cultura aos preconceitos e destruí-los para então buscar a simplicidade da natureza e uni-la às necessidades da sociedade. O Emilio, de Rousseau é criado no campo, tem vida simples, o que facilita o desenvolvimento do bem maior da formação humana para o pensador suíço: a liberdade. “Em vez de deixá-lo estragar-se no ar corrompido de um quarto, que seja levado diariamente até um prado. Ali, que corra, se divirta, caia cem vezes por dia, tanto melhor, aprenderá mais cedo a se levantar”. ensina Rousseau.
Rompendo padrões conservadores, à criança não se deve impor o que quer que ela seja. Ignorando todos os modelos de educação, Rousseau proclama que a criança não tem que se tornar outra coisa senão naquilo que ela deve ser; “Viver é o ofício que eu quero lhe ensinar. Saindo de minhas mãos ela não será, reconheço, nem magistrado, nem soldado, nem sacerdote; antes de tudo ela será um homem”.
Rousseau chama a atenção para os primeiros sentimentos da criança, que quando mal dirigidos fazem com que elas dêem os primeiros passos para o mal.
Por isso nas brincadeiras e jogos Emilio é ensinado a desenvolver o raciocínio, a criatividade e sobretudo agir com bondade.
Rousseau evoca a compaixão, o bom coração como sentimentos que devem ser cultivados por Emílio, assim como o respeito profundo por si mesmo e pelo outro. Forma-se o bom coração controlando a natureza humana, sondando as emoções, as paixões, as habilidades, as virtudes estampadas na alma.
A educação segue a tendência, hoje moderna, da interatividade, é espontânea, divertida e contextualizada para promover a felicidade, sem imposição institucional. Emilio aprende que deve ter um perfil que se oponha aos dos jovens de vida cotidiana deteriorada; deve ter vigor de um atleta, força no corpo e na alma e a razão de um sábio. Deve seguir as leis eternas da natureza, escritas no fundo do seu coração pela consciência e pela razão. A liberdade em Emílio está no seu coração de homem livre; ele a carrega consigo por toda parte.
No livro Emílio, ou da educação, Rousseau mostra que a educação pode promover no homem um processo de preservação de suas condições naturais como a liberdade e a autenticidade. Ocupando o aluno imaginário com todas as boas ações possíveis, Rousseau apresenta no final Emilio, um homem total, virtuoso, o homem natural que aprendeu a viver em harmonia com a natureza e com seus semelhantes.

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