A palavra chave é moderação

Na semana passada discorri sobre a pauta da Conferencia Wisdom 2.0, que ocorreu no Vale do Silício, nos Estados Unidos, onde executivos das maiores empresas de tecnologia e de informação mostraram-se preocupados com os excessos das pessoas quanto ao uso das ferramentas disponibilizadas pela internet. Há uma parte do trabalho do filósofo grego Aristóteles, onde ele desenvolveu a célebre doutrina do justo meio, pela qual a virtude é um ponto intermediário entre dois extremos e as pessoas virtuosas devem apontar para a moderação em todas as coisas. Moderação significa o estado nem demasiado pequeno nem demasiado grande, mas entre os dois, dentro dos limites das possibilidades. Em sua essência, a ética aristotélica é uma ética do comedimento, da moderação, do afastamento do excesso, que cria vícios. Aristóteles defendia que o meio desejável habita entre os dois extremos. Muito ou pouco exercício não faz bem para a saúde, muito medo ou pouca confiança leva a covardia, e pouco medo ou excesso de confiança pode levar a escolhas erradas. A pessoa virtuosa visa a média, que é determinada pela razão.
Partindo desse princípio filosófico, cabe aos consumidores acionarem suas bússolas internas, capazes de apontar quando houver um desequilíbrio na utilização dos recursos que a tecnologia lhes oferece para o trabalho, para a pesquisa e para a vida social. O contrapeso para fazer frente ao estilo de vida acelerado é promover, de vez em quando, uma desintoxicação digital. E só. Porque ao discutir as vantagens e desvantagens das inovações tecnológicas, fica explícito que as mesmas foram desenvolvidas para melhorar a vida das pessoas e não para que as pessoas tivessem uma relação quase patológica com os seus dispositivos eletrônicos.
O comportamento da sociedade contemporânea modificou-se substancialmente com o surgimento da internet porque aproximou as pessoas, possibilitou um grande salto na área de pesquisa científica, elevou-se como uma excelente ferramenta de comunicação de massa e também como fonte eficaz para o comércio, devido a comodidade e rapidez. Entre milhares de benefícios está ainda a disseminação do conhecimento de modo geral e através dos cursos oferecidos à distância, o acesso ao produto final das pesquisas e as redes sociais. Uma das coisas mais impressionantes sobre a mídia social é a variedade de maneiras que você pode utiliza-la. Desde enviar uma mensagem privada para alguém num minuto e falar com um milhão de pessoas nos próximos até conectar-se a um grupo de pessoas que compartilham interesses em comum. As redes sociais não são teias de aranhas que apenas tecem perfis falsos. Isso existe, claro, mas é você que deve superar o medo, adquirir conhecimento e definir quão profundo será seu relacionamento com os amigos virtuais. A palavra chave continua sendo “moderação”.
Conectar-se e ocasionalmente desconectar-se é uma questão de escolher o meio e evitar os excessos, que podem abalar os relacionamentos mais íntimos e autênticos. A meta prioritária dos executivos do Vale do Silício é fazer fortuna, abrir espaço para promover novas tecnologias e não empurrar as pessoas para um comportamento destrutivo.

É hora de fazer um reboot no cérebro e na alma I

O Vale do Silício é uma região da Califórnia, Estados Unidos, onde concentra inúmeras empresas de tecnologia da informação e computação. Desde os anos 50, o polo tem o objetivo de gerar e fomentar inovações no campo científico e tecnológico. O nome Silício é homenagem ao próprio elemento químico (Si), que é a matéria-prima básica na produção dos circuitos e chips eletrônicos.
Não só parece, mas é de fato um grande paradoxo, que os empresários, executivos e trabalhadores do Vale estão agora promovendo uma conferência anual denominada “wisdom 2.0”, onde o tema recai sobre a necessidade de encontrar um equilíbrio no uso das tecnologias da era digital. Pregam inclusive, a necessidade de um momento de desligamento total de toda a parafernália que nos conecta. Reunidos estavam executivos do Facebook,Google, Twitter, payPal, e-Bay, Zynga, Juniper, os que mais do que outros, exaltam os benefícios extraordinários dos computadores e smartphones, porém eles foram categóricos: é necessário desligar tudo de vez em quando.
Esse fato causa estranheza vindo de um lugar onde a tecnologia é vista como uma resposta toda-poderosa a tudo. As empresas, preocupadas com o equilíbrio de seus funcionários, estão adotando formas de treinamento da mente para ajudar a encontrar o equilíbrio trabalho-vida, reduzir o estresse e promover certa felicidade no local de trabalho.
A preocupação expressa na conferência e nas entrevistas com os altos executivos das empresas de tecnologia, é que a atração de estímulo constante e a demanda generalizada de atualizações está criando um profundo desejo físico que pode prejudicar a interação entre as pessoas. As pessoas precisam estar atentas ao efeito que o tempo on-line tem sobre o desempenho de seus relacionamentos reais.
Certamente ouvir isso de líderes de empresas influentes do Vale do Silício, que lucram com o tempo que as pessoas ficam on-line, pode soar contraditório, mas passada a fase de lua de mel, eles estão se perguntando: “o que virá agora? ‘”, diz Soren Gordhamer, que organiza a “Wisdom2.0 – Sabedoria 2.0”. Eles não assumem culpas, mas advertem que é preciso dosar, equilibrar e mesmo virar a página.
Em uma das sessões, os executivos debateram se as empresas de tecnologia têm a responsabilidade de considerar o seu poder coletivo de atrair os consumidores para jogos viciantes e foram alertados que o Manual do Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais, planeja para o próximo ano incluir o transtorno de uso de Internet em seu apêndice, embora isso requeira um estudo mais aprofundado para ser considerado um condição oficial de transtorno mental. É evidente a poderosa atração que os dispositivos refletem nos humanos para se conectar e interagir, mas que esses desejos precisam ser geridos de modo que eles não sobrecarreguem o modo de vida dos usuários.
Òbviamente tudo está sendo feito com os olhos bem abertos e supor que seja possível esse desenvolvimento todo sem causar nenhum dano, seria no mínimo, ingênuo. Essa preocupação em buscar o equilíbrio no uso das tecnologias vai seguramente contra o modelo de negócios lucrativos que os executivos idealizaram para seduzir e induzir as pessoas a passarem mais tempo on-line. O desafio é dosar isso agora.

O silêncio é uma mentira

Há uma frase que não sei a quem atribuir que diz que integridade é dizer a mim mesmo a verdade e honestidade é dizer a verdade para outras pessoas, portanto é necessário posicionar-se, mostrar anuência, discordância, expressar os sentimentos, enfim. Embora sábios e profetas das tradições cristãs tenham enumerado os benefícios salutares do silêncio, que acalma o corpo, oferece equilíbrio, são através das palavras que desenvolvemos a empatia. O silêncio está mais associado ao pesadelo desconfortável do confinamento solitário, enquanto o ruído da fala nos iguala com liberdade e prazer.

Após confiar em si mesmo, é hora de encontrar alguém em quem confiar. Se uma pessoa te respeita, ela vai respeitar o que você tem a dizer. Para obter algo que você nunca teve, você tem que fazer algo que você nunca fez antes e manter a boca fechada serve apenas para reforçar o medo.

Não hesite, não dê desculpas pela forma como você se sente. Mesmo que tenha dificuldade para se expressar, fechar-se em silêncio, porque está com medo de falar não faz bem a ninguém. Levanta a mão, peça desculpas por sua impertinência, isso pode ser arriscado, mas faz a diferença. Fale sua opinião sempre que uma ação afetar você diretamente. Atenha-se aos fatos e ignore as emoções para aumentar suas chances de ser ouvido, declare os seus sentimentos e necessidades, sem fazer acusações.

Posicionar-se não significa permitir que as pessoas te usem como uma caixa de ressonância para expressar a opinião delas. Crescemos acostumados a guardar o que ouvimos, o que vemos, o que passamos, o que sofremos. De certa forma fomos desencorajados a expressar nossos sentimentos, a compartilhar nossos problemas, como se tivéssemos tido uma constipação emocional. Observe que há muito mais espaço fora do que dentro de nós mesmos, então quando você sentir que foi tratado injustamente por alguém, faça-se ouvir, tome medidas para combatê-lo, expresse seu descontentamento, para que tudo isso não desencadeie nenhum aperto no peito, porque se você optar por falar quando sentir-se emocional, pode comprometer o desenvolvimento do seu ponto de vista.

Não é necessário arrastar-se em incidentes do passado para falar de situações que causam dor no presente, pois a maioria das pessoas acreditam que é moralmente justificado tudo o que fazem. Ao abrir-se para externar seus pensamentos, escolha as palavras com cuidado, pensa no que vai dizer, mas diga. O silêncio pode machucar, pois a opressão só existe onde há silêncio. E a ausência de palavras pode causar tantos danos quanto falar demais.

Reflexão sobre os processos de transformação da família

Em algumas afirmações não cabem contestações. Por si, elas expressam uma realidade pesquisada, comprovada e pronto. Na defensiva, muitos querem colocar seus conceitos em fatos e dados absolutamente consolidados, como é o caso do estudo das diferentes formas de famílias estabelecidas na sociedade contemporânea brasileira, conduzido por Parry Scott, Professor titular de Antropologia na Universidade Federal de Pernambuco.

   Ao analisar dados seriamente pesquisados, aprendi que devemos nos ater a eles, frios como estão no papel. Pois bem, há uma mudança substancial na forma como se tem realizado a conjugalidade nas famílias brasileiras: Há menos casais com filhos do que havia certo tempo atrás e esses casais que optaram por ter filhos, tem em média 2,5 filhos por casal; há mais pessoas morando sozinhas; há mais mulheres chefiando famílias e há mais casais formados por pessoas do mesmo sexo.

   Há aumento significativo de famílias sem casais, casas chefiadas por mulheres chefes de família, tanto na classe pobre quanto nas camadas mais abastadas; há mais mulheres morando sozinhas do que homens. O número de homens chefes de família, sem esposas é muito insignificante no Brasil. Os homens moram sós quando mais jovens, para experimentarem um período de liberdade e individualidade.

   A separação e posterior constituição de uma nova família não encontra nenhuma estigmatização na atual sociedade brasileira. Essas alianças fragmentadas geram arranjos conjugais múltiplos; crianças com dois pais ou duas mães. Embora muitas mulheres, por temerem que uma nova conjugalidade possa causar prejuízo na relação com as filhas, principalmente, tenham decidido manterem-se sozinhas na chefia da família.

   Os arranjos conjugais homossexuais são parte de uma inegável realidade, onde os casais, que valorizam a qualidade do relacionamento, buscam ter condições, sem necessidade de acionar aparato judicial, de resolver questões de cidadania, herança e adoção de filhos. As pessoas estão se tornando avós muito jovens e a expectativa de vida tem aumentado, sobretudo para as mulheres, que vivem de 6 a 8 anos mais que os homens. Esses avós redescobrem novas atividades, lançam-se numa nova rotina de vida a sós, ou reconstroem suas vidas, formando novas alianças conjugais.

   Segundo Fox, o único agrupamento familiar elementar é o da mãe e seus filhos, porque esse laço é inevitável, é dado. Os demais, fluem, modificam, modernizam-se, são variáveis. Não podemos ignorar as novas configurações na construção da identidade social ao nosso redor. A família, é certo, é o ponto de estabelecimento de alianças entre grupos. A vida social, que é estabelecida na base da troca é um jogo complexo, onde as famílias sem casais estão sendo colocadas a prova, pois mesmo num mundo de alianças quebráveis, a valorização das alianças continua firme.