Nada permanece igual após milhares de vozes clamarem por mudança

O que os políticos mais querem agora é entender o que está acontecendo no país. Muitos acompanham perplexos as manifestações que ganharam as ruas e, apesar de a presidente Dilma ter dito que está orgulhosa das vozes que clamam por mudança, ela poderia ter se antecipado a esse clamor, porque não está claro onde os protestos irão a partir daqui, o certo é que o fogo foi aceso e será difícil apagá-lo.

O Instituto Datafolha pesquisou o perfil dos manifestantes na grande São Paulo e surpreende que 84/5 não tenha filiação partidária, 77% tem educação superior, 22% são estudantes e 71% estão participando de atos de protestos pela primeira vez. E as razões dos protestos não têm um foco único, no rastro das manifestações contra o aumento das tarifas de ônibus, os manifestantes foram agregando outras insatisfações; o aumento das dívidas pessoais, a queda do real, que perdeu 8,7% em relação ao dólar nos últimos três meses, o preço dos alimentos, que subiu até maio mais que o dobro da inflação anual.

Diferente do que ocorre agora, o movimento das Diretas Já foi uma das manifestações com maior participação popular da história do Brasil. Iniciada em 1983, no governo militar de João Baptista Figueiredo e tinha uma pauta única de reivindicação; exigia eleição direta para presidente da República. Havia uma única chance de ocorrer eleições livres, que seria a aprovação da emenda constitucional proposta pelo deputado mato-grossense Dante de Oliveira. Foram várias manifestações populares, mas dois megacomícios marcaram o movimento, pouco antes de ser votada a emenda Dante de Oliveira; no Rio de Janeiro, no dia 10 de abril de 1984 e outro no dia 16 em São Paulo. Mais de um milhão de pessoas esteve na Praça da Sé, em São Paulo. A emenda não foi aprovada. Perdeu por apenas 22 votos, mas a ditadura estava com os dias contados a partir dalí e no discurso histórico de Ulisses Guimarães em 5 de outubro de 1988, ao promulgar a nova Constituição, ele declarou que a nação mudou pela força das manifestações nas ruas.

Em 1989, o Brasil realizou a primeira eleição direta após três décadas. Fernando Collor apresentou-se como um “caçador de marajás”. Pouco tempo após sua posse, uma sequência enlouquecida de denúncias de corrupção. Em 1992, seu próprio irmão, Pedro Collor confirmou todas as denúncias. Acuado, Fernando Collor foi à televisão, pediu ao povo que organizasse grandes manifestações de apoio a ele, que fossem os jovens às ruas vestidos com as cores da bandeira nacional. A estratégia não funcionou e os jovens foram para as ruas com as caras-pintadas, vestidos de preto e pedindo a saída de Collor da Presidência. A partir daí também não foi mais possível conter a mudança. O pedido de impeachment foi aprovado na Câmara e no Senado.

O governo da presidente Dilma Rousseff enfrenta os maiores protestos em 20 anos e a onda de insatisfação não foi detectada previamente pelo governo. E será que tudo começou mesmo com o aumento das tarifas de ônibus? Não teria havido ecos de insatisfação lá atrás quando em maio o preço do tomate subiu acima de 100% e virou deboche na mídia, ou quando foi divulgada a pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria, indicando que a aprovação do governo Dilma Rousseff havia caído de 63% em março para 55% em junho? É fácil falar agora, mas não seria tudo isso indício de uma possível explosão?

Certamente o desafio agora é garantir a realização dos eventos comprometidos e assegurar que as necessidades prioritárias elencadas nas manifestações sejam atendidas, porque os protestos se estendem ao longo de classe social, raça e filiação política.

Tempo de maturação

O universo tem paciência proverbial. Se precisamos aprender alguma coisa, alguma verdade a um novo nível de consciência, compaixão e confiança, há uma conspiração para que tenhamos a oportunidade de aprender essa lição, embora normalmente chamamos essas oportunidades de estresse, problema, provação e perseguição, porque temos uma fonte quase infinita de formas negativas de ver os tempos difíceis, que muitas vezes são oportunidades inestimáveis para aprender, crescer e confiar, além de evoluir. Isso é maturação.

O primeiro passo é mergulhar nos momentos escuros, ficar em contato com a realidade nua e crua, avaliar com retidão as possibilidades de avançar, recuar ou simplesmente esperar. A maturação é esse momento em que a espera é feita de observação, de reticências, dúvidas e por que não? de muito medo. Maturação não é somente uma palavra. É a arte de perder a pressa, de não responder no afogadilho habitual, de não ceder ao que o outro quer, de conter a palavra que vai ser mal interpretada.

Quando domamos a técnica de não disparar o gatilho ao primeiro sinal de ameaça, estamos aprendendo a enxergar através de uma boa lente, através da qual se pode ver as circunstâncias que poderiam ser muito carregadas emocionalmente. Isso aplica-se nos relacionamentos da vida pessoal, social e sobretudo na política, onde os processos são cada vez mais antecipados e um ano a frente já é discussão do passado.

A maturação do vinho faz muita diferença na qualidade do produto. O tradicional vinho do Porto reserva, tem a fase de envelhecimento de 7 anos, os Tawnies envelhecidos, considerados especiais levam de 10 a 40 anos, os incomparáveis californianos Chateau Montelena Cabernet e Geyserville Zinfandel datam de1992 e 1978, respectivamente. Tempo necessário para depurar a textura e o aroma e para ganhar maciez e elegância. Também nós devemos fazer uso do tempo para pacificar as expressões de vingança, raiva e insegurança e aprender a perceber o outro a partir de um estado de equilíbrio e elegância. A evolução e crescimento pessoal é uma meta do ser humano, que deve estar sempre vigilante contra a maré da impaciência, da avidez e da sofreguidão.

A vida pode ser fácil. A evolução é arte. Viver, às cegas, com respostas prontas, atitudes de massa é precipitar-se no abismo incontestável que engole os afoitos. Evoluir é um processo lento nesse universo que é infinitamente paciente com nosso crescimento, com o detalhamento das fases de conversão, isolamento, descobertas e transformações, que começam com a integração da sombra e do ego potencialmente maduros. E o que temos à nossa disposição é uma enorme capacidade de assumir o comando da nossa própria maturação.

O mundo físico e o mundo do invisível

 Os seres humanos têm se envolvido em um debate entre natureza versus criação, um dilema com tom de destino versus livre arbítrio. O questionamento agora é se você é a pessoa que é porque nasceu assim, ou por causa do ambiente em que você foi criado.

   A ciência que estudaria exclusivamente o mundo físico, baseado nas gravações, medições e observações entra agora na compreensão do mundo invisível, da metafísica e das crenças. O doutor Bruce Lipton é uma autoridade internacionalmente reconhecida na ponte entre a ciência e o espírito, um biólogo celular por formação, autor do livro “A Biologia da Crença”, sobre as suas observações das pequenas coisas na vida e nas células e o efeito que os pensamentos, como energia, têm sobre nosso bem-estar geral. Ele desconstrói a crença que o gene e o DNA controlam o corpo, ao contrário, diz ele, o DNA é controlado por sinais exteriores, por mensagens energéticas emanadas do pensamento. O trabalho do doutor Lipton é sobre as interligações entre a energia de nossas crenças e o comportamento surpreendente das células.

   A ideia de que as células são extremamente inteligentes na realização de tarefas complexas não é um fato recém-descoberto, embora haja a crença quase religiosa de que somos programados pelo DNA, que seria o código para o nosso comportamento físico e mental. E essa crença tem nos mantido em posição de vítimas de coisas sobre as quais achamos que não temos controle, vítimas da hereditariedade de comportamento e doenças como câncer, diabetes, obesidade e outras doenças. O que o estudo do doutor Bruce comprova é que isso não é bem verdade. Diz ele que somos nós os dirigentes da nossa própria criação, que precisamos aprender a emitir sinais claros para a nossa mente, porque nosso cérebro é o regente de uma orquestra com 50 trilhões de células, prontas para entrar em ação assim que acionadas.

   Ao nos sentirmos inseguros e ameaçados, tendemos a deixar tal sentimento dominar nossa mente e, então, imagina 50 trilhões de células saudáveis recebendo a comunicação de que estão sendo ameaçadas. Portanto, cuidado, ao sentir raiva, você libera uma química diferente no sangue e essa alteração, muda o destino das células. Essa alteração depende da maneira como respondemos ao meio em que vivemos, da maneira como nosso cérebro percebe o que acontece e processa essa informação. É a partir daí que nossa mente ordena a liberação da química que controla o comportamento e a genética das células.

   Não somos reféns do DNA. No estudo, o DNA é uma espécie de servo das células e não o rei, o caminho do coração é um servo de todos os órgãos, mas é o cérebro que domina o controle de todas as atividades do corpo e da mente. Apesar de termos ouvido por mais de 50 anos que os genes controlam nossas vidas, é nosso cérebro que controla os genes e num passeio sobre a evolução da espécie humana, fica a afirmação de que a maneira como percebemos o mundo, nossas crenças cotidianas podem, sim, afetar nossa saúde.

O dia que Mato Grosso foi governado a partir do Parque Indígena do Xingu e outras histórias

Era dia 21 de outubro de 2013, o avião partiu bem cedo. 3 horas de voo rumo a base de apoio do Parque Indígena do Xingu, o Posto Leonardo Villas Bôas. Ciente da enorme responsabilidade que me coubera, viajei muito feliz com a possibilidade de reafirmar um vínculo de amizade honesta com a população xinguana.
Sendo eu nascida em Barra do Garças, Mato Grosso, o contato com pessoas de origem indígena, sobretudo Xavantes sempre existiu. Os Xavantes estavam sempre em Barra do Garças, no entorno da Estação Rodoviária. A liderança do Cacique Juruna, do Aniceto começou ali. A cidade absorvia com tranquilidade a presença dos índios.
Mas eu fora enviada para o Parque Indígena do Xingu, acompanhada por um bombeiro militar e por um indigenista, para prepararmos a chegada do Governador do Estado, Blairo Maggi e todos os secretários, pois ali, se estabeleceria a sede do Governo de Mato Grosso por um dia, que seria dia 24 de outubro de 2003. E esta seria a primeira vez que um governador de Estado instalaria um gabinete em área indígena.
Obviamente houve toda uma preparação para o encontro. O Governador fora efetivamente convidado por uma comitiva de líderes do Xingu a visitar o Parque e pessoalmente ver e ouvir o seu povo. Os caciques, entre eles, o líder Aritana Yawalapiti apresentaram ao Governador uma série de problemas que afligia a comunidade xinguana, como a invasão de áreas do Parque por madeireiros, o desmatamento na margem dos rios, a pobreza, a falta de escolas e toda sorte de problemas que afligem as comunidades brancas isoladas também.
A ideia seria manter um diálogo aberto com os índios, no pátio das aldeias, sem rodeios.
Minha tarefa? Cuidar de tudo. Escolher o local para montar o gabinete do governador e seus secretários, mobilizar, principalmente os líderes das 30 aldeias, 17 etnias e uma população aproximada de cinco mil índios que vivem numa área de 2,6 milhões de hectares. Localizado ao norte do Mato Grosso, ali no alto Xingu, onde estávamos vivem os Waurá, Kayabi, Ikpeng, Yudja, Trumai, Suiá, Matipu, Nahukwa, Kamaiurá, Yawalapitis, Mehinakos, Kalapalos, Aweti, Kuikuro.
Nenhuma dificuldade tirava o brilho dos meus olhos. Quisera muito estar ali, sozinha com eles, convencendo-os da minha amizade, da minha grande admiração pela cultura xinguana que levou-me a ter aulas com Sardinha , para aprender a trata-los com o respeito que sei que merecem.
Não levamos nada, senão roupas e a rede. Fomos orientados a penetrar no mundo deles e não atiçar as crianças com balas e outras guloseimas. Nossa alimentação era a água no rio, beiju de farinha, mandioca, pequi, peixe seco ou assado e animais que caçavam à noite. Nenhuma estranheza entre nós.
O Posto Leonardo tem um governador que cuida da administração, estabelece regras, vigia o cumprimento das mesmas, relaciona-se com agentes de ONG´s e governo, em visita ao Parque. Portanto, a primeira reunião foi com o Governador local, Ianacolá, que animadamente nos deu uma aula da cultura xinguana. O parque foi criado em abril de 1961, pelo então presidente Jânio Quadros, é considerada a maior e mais famosa reserva indígena no mundo. Sua criação foi resultado da luta política, envolvendo os irmãos Villas Bôas, Marechal Rondon, Darcy Ribeiro e muitos outros.
Informa-nos que o Parque Indígena do Xingu pode ser dividido em três partes: uma ao norte (conhecida como Baixo Xingu), uma na região central (o chamado Médio Xingu) e outra ao sul (o Alto Xingu). No sul, onde estamos ficam os povos semelhantes culturalmente, compreendendo a área cultural do Alto Xingu, cujas etnias são atendidas aqui no Posto Indígena Leonardo Villas Bôas. Marcamos a tarde para já começarmos as visitas às tribos vizinhas, para perdirmos aos caciques que mobilizem seu povo para a reunião com o Governador.
Saímos de trator. Nos meus olhos, poeira e encantamento. A paisagem da natureza intacta, das aldeias limpas, dos milhares de olhinhos que nos eguiam quando descíamos do trator. As mulheres ficavam reclusas, nos olhavam através da palhas da oca. Assim passávamos o dia. Visitando aldeias. Na Kamaiurá, onde vivem os índios de língua Tupi, a 10 km do Posto Leonardo, uma surpresa. O cacique estava doente de tristeza. Uma de suas mulheres, uma professora branca, de Minas Gerais, havia abandonado a aldeia e retornado à vida na cidade. Eu havia ouvido essa história antes, porém não acreditei. Ele não nos recebeu. Mas nos prometeram que os Kamaiurá estariam em peso na reunião. Pobre cacique. Dor de amor não deve ser diferente no índio!
Paramos numa encruzilhada do Rio Xingu, numa curva por onde os espíritos passam à noite para visitar os parentes mortos, para dar-lhes energia boa, saúde. Impressionante como Ianacolá inspirava confiança. Tudo o que ele fazia, o que ele dizia era coisa para se acreditar. Engraçado como havia entusiasmo com a chegada da comitiva, mas estranhamente nenhuma providência era tomada. Nada mudava de lugar, nenhuma preocupação com comida diferente, com limpeza. Nada além do que existia todos os dias para eles mesmos. Pelo rádio, passávamos as informações, detalhávamos os procedimentos, adiantávamos as cobranças que seriam feitas. Relatei a existência de muitas pessoas ligadas a ONG´s internacionais dentro do Parque. Pessoas que filmavam, colhiam depoimentos, presenteavam os índios, com câmeras fotográficas, filmadoras, pilhas. Enfim, coisas alheias à cultura dos índios xinguanos.
Assim, sexta-feira, 24 de outubro de 2003, desembarca a grande comitiva, liderada pelo Governador Blairo Maggi.

A comitiva do governador era composta por aproximadamente 30 pessoas, secretários de Estado, prefeitos e deputados, poucos seguranças e assessores desembarcou no posto Leonardo Vilas Boas, no coração do Xingu. O governador foi recebido pelos caciques Aritama Yawalapiti e Kuiussi Suiá. Baseado nos relatos que enviamos para Cuiabá, ao cumprimentar os caciques o governador disse: “Nós queremos que vocês se virem para o nosso lado, por que os problemas de Mato Grosso devem ser resolvidos em Mato Grosso”.
Em seguida a comitiva seguiu para a aldeia Yawalapiti (Tribo de Coco), onde fomos saudados com a “dança dos espíritos”, uma espécie de boas-vindas e demonstração de alegria, foram realizadas dezenas de audiências entre as lideranças indígenas e a equipe do Governo. Todos sentados em círculo, em troncos de grandes árvores e eu ali, no canto, no chão, protocolando os documentos, servindo água e organizando, junto com Aritana, a ordem das falas. Foi necessário uma longa negociação para conseguir realizar a reunião na casa dos homens. È um espaço absolutamente proibido para mulheres. Mas na aldeia Yawalapiti, eu havia estabelecido um vínculo forte de amizade com o cacique Aritana e o filho dele, Tapí, para onde me mudei na segunda noite. Já estava eu hospedada na casa do grande líder, com minha rede armada no local indicado para familiares. Isso porque, ainda em Cuiabá eu havia facilitado enormemente a audiência deles com o Governador, um mês atrás. Os Yawalapiti, liderados pelo cacique Aritana, são considerados exemplos de consciência ambiental e cultural. A aldeia, assim como em todas as outras, tem diversas interferências do mundo externo, como televisão, barco a motor e rádio. No entanto, os Yawalapiti ainda obedecem a um cotidiano tipicamente indígena: não há horário para comer, o trabalho é coletivo e os rituais religiosos são muito respeitados.

Intervalo para almoço ali mesmo na aldeia Yawalapiti, onde no fundo da oca do Aritana, havia o jirau de peixes assados, os tachos de biju e pequi cozido na água. Nesse momento, as mulheres – belas e cercadas de dezenas de crianças – se juntam ao grupo.

Mais danças. Retornamos ao gabinete, onde com segurança jurídica, qualquer ato de governo poderia ser assinado. As cobranças vieram, o tom amistoso foi se dissipando. Os mais velhos irritados com nossa presença, duvidando das nossas intenções estavam arredios. O governo estava ali, exposto na frente deles, que eram os grandes líderes, que comandavam a reunião, que nos olhavam nos olhos e nós não sabíamos direito o que fazer. O indigenista nos olhava, nós nos entreolhávamos e a tensão continuou. Certa hora, uns seis caciques, liderados por Kuiussi Suia , começaram a bater a borduna no chão. O som é forte, intimida. Aritana assume seu posto de não apenas cacique Yawalapiti, mas de grande líder do Xingu e expressa-se com os caciques no idioma de cada um deles, pede calma, confiança e é ouvido.
Quanta cultura ali em exposição. Quem dentre nós, assessores de governo, deputados, antropólogos, falava seis idiomas?
Ninguém foi poupado. Os prefeitos dos 11 municípios que fazem fronteira com o Parque, o governador, deputados e secretários receberam críticas em relação ao tratamento destinado aos indígenas. O cacique da aldeia Kuyussi Suya desafiou o governador, dizendo-lhe que ele queria as terras do Xingú para plantar soja. As críticas foram respondidas uma a uma e o governador ali também, diante dos grandes líderes assumiu que era contra a expansão das aldeias, e assegurava, que as reservas atuais não sofreriam invasão no seu governo. Aritana reclamou das grandes plantações na beira dos rios, onde os agricultores jogam veneno e contaminam a água, porque não há fiscalização e punição para os grandes.

Nos dias de festas, as noites no Xingu são passadas ao redor das fogueiras, onde os índios se revesam
dançando e cantando.

Anoitecia quando retornamos para o Posto Leonardo. Eu segui junto, pois a mim cabia servir ao Governador. Armamos as redes na grande casa de alvenaria com um pequeno banheiro para atender a todos. Muitos de nós dormimos sem tomar banho porque ficou muito tarde. As mulheres, as crianças, os velhos já haviam ido ao rio para o banho. A noite era clara, o céu muito azul. Muito cedo, pequenos vultos passavam correndo e ouvíamos o barulho do corpo caindo na água. Incrível! Como os pequeninos pulam na água!
Uma breve reunião de balanço do que ocorrera, assinatura de termos de convênio para a construção de salas de aula, doação de uma balsa, assinatura de Termos de Ajustamento de Conduta para reparar os danos causados pelo desmatamento nas margens dos rios, mutirão para fazer documentos, entre outras. Embora a assistência ao índio caiba a um órgão federal, ficou estabelecido que, em parceria, o Estado assumiria responsabilidade conjunta por muitas ações para melhorar a vida dos índios xinguanos.
Já quase partindo Percebemos que desde a chegada da comitiva no Parque Nacional do Xingu nenhum membro das Ongs´s antes vistos circulando alegremente entre os índios fora visto. Onde estariam se haviam sidos por mim convidados a participar da reunião?
Talvez tenha sido esse o único estranhamento sentido, mas não envolveu nenhum índio, então, a missão foi cumprida!

Parque Indígena do Xingu – Outras viagens
Após um sério incidente envolvendo os índios xinguanos e do entorno do Xingu na invasão e destruição do prédio da usina hidrelétrica no Rio Culuene, um dos principais afluentes do Xingu, o Governo do Estado reuniu-se em 13 de novembro de 2004, com 42 líderes e mais de 200 indios, para discutir a possibilidade da paralização da obra ou ajuste no trajeto da mesma. Os índios não estavam dispostos a ceder, pois a obra da barragem estava sendo construída a 2 quilometros da Reserva Ecológica Culuene, local considerado sagrado pelos povos do Alto Xingu, onde o deus Mawutsinin teria realizado pela primeira vez a festa do Kuarup.
A reunião tensa, acompanhada por membro do Ministerio Público Federal, não seguia a ordem das reuniões governamentais. Os caciques exaltados, pintados falavam entre si, batiam severamente a borduna no chão, intimidando os brancos. Por várias vezes houve a intervenção sobretudo do cacique Aritana, para evitar agressões. Policiais à paisana, ao redor, fiscais ambientais sendo ameaçados. O Governador e sua equipe, entre eles, eu, no centro do círculo.
As lideranças índigenas presentes ao encontro, entre elas representantes das etnias Yawalapiti, Aweti, Kuikuro, Suyá, Yudjá, Kaiabi, Waurá, Mehinaku, Nafukuá e Kalapalo – informaram ao governador Blairo Maggi que o trecho de rio no qual a obra está sendo erguida é sagrado para os povos do Parque Indígena do Xingu. O local foi palco do primeiro Kuarup , a festa anual em homenagem aos mortos ilustres dos povos do Alto Xingu e é, hoje, importante referência da história cultural de todos os índios da região. O governador Maggi disse que desconhecia o aspecto sagrado daquela parte do rio Culuene e determinou à empresa Paranatinga Energia Elétrica a paralisação imediata da obra e devolveu ao Ibama, a responsabilidade de conduzir o processo de licenciamento, por tratar-se de obra que impacta diretamente em terra indígena.
3 O ritual do Kuarup (nome de uma madeira) revive a narrativa religiosa dos índios do Xingu, centrada na figura de Mawutzinin, Por seu papel na criação do mundo, dos homens e das coisas, Mawutzinin tem sido comparado a Deus ou, de outra forma, pois Mawutzinin é um ser eterno, antropomorfo, responsável pela criação dos primeiros seres humanos, a partir de troncos de árvore.
A história revelada na reunião foi tocante. Um velho pajé, cujo nome lamento não lembrar-me, em meio a sisudas autoridades, perguntava:
-Como poderão os espíritos nos visitarem a noite com essa barra de concreto a travar-lhes o caminho? Seremos dizimados se não tivermos nossas almas alimentadas por nossos ancestrais todas as noites. Os espíritos sobem o rio Culuene para nos alimentar, curar nossas doenças, dar sabedorias aos pajés, proteger nossas crianças. Isso dito, em palavras que sangravam, gestos de desalento, calou a todos.
Esse foi o argumento que tocou o coração do Governador.

Entrega de balsa aos índios do Xingu

O governador, acompanhado de uma comitiva de aproximadamente 20 pessoas, percorreu o Parque do Xingu em maio de 2003. O governador Maggi e equipe navegaram pelo parque na balsa com capacidade para transportar 300 toneladas, que foi entregue aos índios. A entrega ocorreu na Aldeia Piaruçu, próximo a São José do Xingu. A viagem iniciou em Marcelândia, no rio Manissauá Miçu, onde navegamos 160 quilômetros, até entrar no rio Xingu, percorrendo mais 70 quilômetros até a MT-322, local em que a balsa será utilizada pelos índios, para atender o transporte da região.
Diante das principais lideranças indígenas do Parque, como o Cacique Raoni Metuktire e Megaron Txukarammae, o governador Maggi reafirmou o respeito pelas leis e pelos povos indígenas.

Visitas recentes – sempre Xingu
Um momento de celebração, de festa, mas ao mesmo tempo de tristeza. Uma homenagem aos mortos, uma das mais antigas manifestações da cultura brasileira. Assim foi o ritual do Quarup, realizado na aldeia Yawalapiti, no Alto Xingu, com a presença de nove etnias e acompanhado de perto pelo governador Silval Barbosa e pela então ministra da Cultura, Ana de Hollanda . Eles assistiram todo o ritual, desde a chegada dos três troncos (Kuarup), à formação da cabana de palha em frente a Casa dos Homens e o choro das famílias em frente aos troncos, adornados com algodão e penas.
O governador Silval acompanhou toda a movimentação, desde a armação das nossas redes.Para o governador, participar de uma celebração como o Quarup é muito importante. “Aqui a gente vê a cultura preservada. O modo de vida, as tradições, realmente é tudo muito bonito. Aqui estão pessoas do mundo inteiro e o que é importante é que podemos ver também as organizações participando, ajudando na preservação e na manutenção da cultura”, disse o governador. A ministra Ana de Hollanda falou que o Ministério da Cultura tem tido uma relação de interação cada vez maior com os povos indígenas, daí a importância de ir ao Xingu e viver o ritual com intensidade, uma oportunidade única de um encontro com tantas etnias. Uma demonstração tradicional da cultura xinguana.
Um dos mortos homenageados neste ano foi o indigenista, antropólogo, educador e escritor Darcy Ribeiro, que em 2012 completaria 90 anos de idade e que teve seu trabalho reconhecido pelos povos do Xingu. A Fundação Darcy Ribeiro realiza trabalho voltado para as etnias indígenas do Brasil e o presidente da instituição, Paulo Ribeiro, sobrinho de Darcy, esteve presente no Quarup e falou do sentimento quase que de glorificação, de reconhecimento do professor Darcy, mesmo após 15 anos de seu falecimento. Ele foi um dos criadores do Parque Nacional do Xingu, juntamente com Marechal Rondon e Leonardo Villas Boas.
4 A ministra Ana de Hollanda foi substituída no Ministério da Cultura pela senadora Marta Suplicy, logo após o Quarup. (que pode ser escrito com K ou Q).

O KUARUP OU QUARUP
O ritual do Quarup é celebrado com muitas danças e cantos. No primeiro dia, à noite, acontece o momento de ressurreição simbólica, um dos pontos de maior emoção da celebração, onde há o choro e os cantos. Ao raiar do segundo dia, as tribos visitantes chegam à aldeia Yawalapiti em coro, com gritos para o início das competições entre os campeões de cada etnia, a huka-huka. Seguem-se também lutas grupais para os jovens índios. Logo após as competições, são oferecidos peixe e biju para cada etnia visitante em sinal de boas vindas. O moitará é um dos últimos ritos da celebração do Quarup, onde as etnias e os visitantes trocam produtos típicos de cada grupo. O ritual se encerra com o lançamento dos três troncos nas águas dos rios.

Artigo escrito por mim, logo após chegar do Parque Indigena do Xingu

Kuarup – uma celebração tipicamente xinguana
21 agosto de 2012
por olga lustosa em Notícias e política RDNews.com.br
A região denominada Alto Xingu, formada por 14 etnias, esteve em festa no final da semana. A aldeia Yawalapiti, onde vive o não velho, 61 anos, porém lendário líder Aritana, realizou o Kuarup ou Quarup, uma bela festa ritualística onde os indíos choram e homenageiam os mortos, numa cerimônia em que tocam, cantam e lutam o huka-huka, no encerramento da celebração. Esta cerimônia, que é tipicamente dos povos indígenas do Alto Xingu, move-se de uma aldeia para outra porque ela ocorre onde tiver acontecido a morte de algum membro importante para a comunidade. A família então, assume os preparativos.
O cacique Aritana é a mais respeitada liderança do Alto Xingu. Desde que assumiu a chefia dos Yawalapiti, há cerca de 30 anos, ele luta incansavelmente pela preservação da cultura e dos hábitos dos índios xinguanos. Esforça-se para mostrar aos jovens a importância de ser o que são: índios.
A Adeia Yawalapiti comandada por Aritana e seu filho Tapí, homenageou também Darcy Ribeiro e a família foi representada por Paulo Ribeiro, que dirige a Fundação que leva o nome do antropólogo. Darcy Ribeiro foi ministro da Educação, durante o Governo João Goulart, aos 29 anos, ministro-chefe da Casa Civil, vice-governador do Rio de Janeiro e senador da República de 1991 até sua morte, em fevereiro de 1997. Criou o Museu do Índio e a Universidade de Brasília, da qual foi o primeiro reitor e formulou o projeto de criação do Parque Indígena do Xingu.
A Aldeia Yawalapiti é toda circular, com uma praça limpa no centro, onde acontece toda festividade da Aldeia e também onde os mortos são enterrados. É também na praça que se localiza a Casa dos Homens que causa tamanha curiosidade. Uma construção igual as demais, porém com portas mais baixas. As flautas são guardadas lá dentro, presas as viga centrais. Ali mulheres não entram. Nos dias do Kuarup, a vida na aldeia não para um minuto. A atenção se volta aos guardiões da flauta que percorrem as ocas apresentando as virgens recém saídas da clausura. Como a aldeia é circular, impossível imaginar quantas voltas tenham dado nestes três dias que lá estive. As virgens dançam atrás dos guardiões e se escondem tímidas quando estes param para descansar dentro de alguma oca. Esse ritual marca a passagem da infância para vida adulta e no final, as jovens estão prontas para casarem-se.
De manhã, três troncos fixados debaixo de uma tenda começam a ser enfeitados. Ao redor deles sentam-se os familiares dos mortos. Choram por algum tempo. Depois acalmam-se. A Aldeia retorna a rotina. Quando o sol começa a se pôr o ritual reinicia no centro da aldeia. Os familiares dos mortos se reúnem, choram copiosamente, acendem tres fogueiras, ao redor das quais, entoam cantos e dançam toda a madrugada. Aos poucos vão chegando indígenas de outras etnias, a chegada é saudada com gritos. Eles acampam na mata, um pouco distante do centro da Aldeia Yawalapiti.
Ao amanhecer de domingo é dia da esperada luta huka-huka. Os guerreiros untam os corpos com óleo, pasta de urucum e pequi. Vi alguns que se submeteram a arranhões feitos nos braços e pernas com dentes de peixes para aumentar a força. Os Yawalapiti estão confiantes no guerreiro Leo, um jovem que se destacou, porque se preparou intensamente para o embate. Não perde uma luta! São mais de duas horas de lutas. Por volta do meio-dia, os troncos ornamentados são depositados no rio. É o fim da cerimônia.

2013 – Xingu para sempre
12 de abril próximo passado, visitamos a Aldeia Piarassu, no Xingu, onde o Governador Silval, reuniu-se com caciques e líderes de várias etnias, numa grande reunião articulada pelo cacique Raoni e pelo líder Megaron. A pauta foi o não asfaltamento da estrada que corta a área indígena do Parque Nacional do Xingu. A decisão foi tomada entre o governador Silval e os caciques representantes de etnias do Xingu, durante assembleia realizada na Aldeia Piarassu – terra Capoto Jarinã.

“ O Xingu não é só água da invernia brava, seis meses, e outros seis meses de sol também bravo, que, no estio, deixa tudo com cor de rapé. O Xingu não é só índio pintado de urucum e jenipapo – é, isto sim, um mundo lendário, cheio de histórias fantásticas, nas quais seu povo crê, mas das quais, nós, civilizados, duvidamos, embora não tenhamos como negar.” Orlando Villas Boas.