Nada permanece igual após milhares de vozes clamarem por mudança

O que os políticos mais querem agora é entender o que está acontecendo no país. Muitos acompanham perplexos as manifestações que ganharam as ruas e, apesar de a presidente Dilma ter dito que está orgulhosa das vozes que clamam por mudança, ela poderia ter se antecipado a esse clamor, porque não está claro onde os protestos irão a partir daqui, o certo é que o fogo foi aceso e será difícil apagá-lo.

O Instituto Datafolha pesquisou o perfil dos manifestantes na grande São Paulo e surpreende que 84/5 não tenha filiação partidária, 77% tem educação superior, 22% são estudantes e 71% estão participando de atos de protestos pela primeira vez. E as razões dos protestos não têm um foco único, no rastro das manifestações contra o aumento das tarifas de ônibus, os manifestantes foram agregando outras insatisfações; o aumento das dívidas pessoais, a queda do real, que perdeu 8,7% em relação ao dólar nos últimos três meses, o preço dos alimentos, que subiu até maio mais que o dobro da inflação anual.

Diferente do que ocorre agora, o movimento das Diretas Já foi uma das manifestações com maior participação popular da história do Brasil. Iniciada em 1983, no governo militar de João Baptista Figueiredo e tinha uma pauta única de reivindicação; exigia eleição direta para presidente da República. Havia uma única chance de ocorrer eleições livres, que seria a aprovação da emenda constitucional proposta pelo deputado mato-grossense Dante de Oliveira. Foram várias manifestações populares, mas dois megacomícios marcaram o movimento, pouco antes de ser votada a emenda Dante de Oliveira; no Rio de Janeiro, no dia 10 de abril de 1984 e outro no dia 16 em São Paulo. Mais de um milhão de pessoas esteve na Praça da Sé, em São Paulo. A emenda não foi aprovada. Perdeu por apenas 22 votos, mas a ditadura estava com os dias contados a partir dalí e no discurso histórico de Ulisses Guimarães em 5 de outubro de 1988, ao promulgar a nova Constituição, ele declarou que a nação mudou pela força das manifestações nas ruas.

Em 1989, o Brasil realizou a primeira eleição direta após três décadas. Fernando Collor apresentou-se como um “caçador de marajás”. Pouco tempo após sua posse, uma sequência enlouquecida de denúncias de corrupção. Em 1992, seu próprio irmão, Pedro Collor confirmou todas as denúncias. Acuado, Fernando Collor foi à televisão, pediu ao povo que organizasse grandes manifestações de apoio a ele, que fossem os jovens às ruas vestidos com as cores da bandeira nacional. A estratégia não funcionou e os jovens foram para as ruas com as caras-pintadas, vestidos de preto e pedindo a saída de Collor da Presidência. A partir daí também não foi mais possível conter a mudança. O pedido de impeachment foi aprovado na Câmara e no Senado.

O governo da presidente Dilma Rousseff enfrenta os maiores protestos em 20 anos e a onda de insatisfação não foi detectada previamente pelo governo. E será que tudo começou mesmo com o aumento das tarifas de ônibus? Não teria havido ecos de insatisfação lá atrás quando em maio o preço do tomate subiu acima de 100% e virou deboche na mídia, ou quando foi divulgada a pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria, indicando que a aprovação do governo Dilma Rousseff havia caído de 63% em março para 55% em junho? É fácil falar agora, mas não seria tudo isso indício de uma possível explosão?

Certamente o desafio agora é garantir a realização dos eventos comprometidos e assegurar que as necessidades prioritárias elencadas nas manifestações sejam atendidas, porque os protestos se estendem ao longo de classe social, raça e filiação política.

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