Houve um tempo em que as coisas eram duráveis

Será que o hábito de jogar fora tudo o que quebra ou fica obsoleto tem paralelo com a falta de paciência para restaurarmos a nós mesmos e os nossos relacionamentos?

Saí de casa em busca de conserto para uma pequena máquina de café e um secador de cabelos, itens indispensáveis no meu dia-a-dia. Já na segunda loja fui desencorajada a continuar procurando as oficinas de reparo. Mal sabe o moço o valor sentimental do secador que adquiri em Amsterdam, anos atrás. Percebi então que a reparação eletrônica está se tornando uma arte perdida.

Com a inundação de novos produtos, vindos de toda parte, as pessoas jogam equipamentos fora quando eles quebram, em vez de consertá-los. Lembro-me de uma das lojas, cheia do chão ao teto com peças de reposição. Agora, enquanto analisavam meus produtos, eu vi jovens de olhar vazio e encabulados diante de equipamentos tão simples.

Lembrei-me de um belo texto do jornalista e escritor Uruguaio, Eduardo Galeano, em que ele, brilhantemente, nos classifica como seres que andamos pelo mundo pegando coisas e trocando-as pelos modelos mais novos, uma geração que se rendeu a era dos descartáveis. Isso em todas as áreas da vida. É impressionante como Galeano descreve a breve utilidade das coisas e das pessoas em nossas vidas. Tudo se lasca, se gasta, se oxida, se quebra ou se consome em pouco tempo para que possamos trocar. Nada se arruma. Galeano reclama da geração que não lava as fraldas dos filhos, não leva o sapato para fazer meia sola e com isso, se endivida e contribui enormemente para produzir mais lixo.

E assim vai…ora irônico, ora saudoso, traçando um cruel paralelo entre os valores que descartamos nas pessoas e nas coisas, embora não seja prudente comparar pessoas com coisas; diz que hoje não só os eletrodomésticos são descartáveis; também o casamento e até a amizade. Sente falta das pequenas lembranças guardadas nas gavetas; das tampinhas dos refrigerantes, com as quais fazia limpadores, para colocar diante da porta. Fica a impressão que hoje somos pessoas de gavetas vazias.

Os relacionamentos têm um valor que ultrapassa o nível da superficialidade e as pessoas interessadas na construção de relacionamentos de confiança compreendem a importância de deixar para trás um rastro de integridade e sinceridade em suas relações. Quando se trata de reparar um relacionamento quebrado, se interessado, você vai encontrar um caminho. Se não, vai encontrar uma desculpa.

Há em Londres um projeto inovador, chamado Restart. Está ajudando as pessoas a prolongar a vida útil de seus aparelhos eletrônicos e incentivando a prática além do Reino Unido. O projeto reúne voluntários reparadores de diversas áreas. Os jovens diretores dizem que em tempos difíceis, é bom aprender a preparar o terreno para uma economia de manutenção e reparação dos equipamentos quebrados. A verdade hoje é que quando alguma coisa quebra, as pessoas não sabem o que fazer, perdemos a confiança nas oficinas de conserto, na capacidade de regeneração das coisas e das pessoas. Além disso, somos empurrados pela propaganda a sempre olhar para o próximo grande lançamento. As pessoas tendem a adquirir coisas novas, em vez de fazer melhor uso daquilo que já possuem.

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