O comportamento racista e a ideologia do racismo

“O racismo é antiliberal, antiigualitário, intolerante, violento e criminoso”. Norberto Bobbio

Num mundo que se gaba de estar construindo melhores condições de vida para o homem, cenas de racismo deixa a certeza de que certa falhas de conduta de certas categorias humanas nunca serão removidas ou reformadas e assim, retrógradas, permanecerão para sempre. O racismo não precisa de inspiração para ser instigado, para fazer brotar o ódio elementar que leva a estranheza, a antipatia e a agressividade. Desde 1999 a ONU declarou o dia 21 de março, como o dia de combate a discriminação racial, mas estamos realmente envidando esforços para eliminarmos todas as formas de intolerância racial?
O caso que ocorreu no Perú, envolvendo o jogador do Cruzeiro Tinga, não pode ser considerado uma modalidade de ressentimento entre grupos, foi uma demonstração isolada de conteúdo. Cena de barbárie mesmo, que também aconteceu com o jogador italiano Mário Balotelli, do Milan. Ao tocarem na bola, torcedores emitiam sons imitando macacos. Houve manifestação de apoio aos jogadores lá e aqui. Os jogadores do Milan entraram em campo com palavras anti racismo nas camisas e aqui, jogadores famosos usaram todas as mídias para prestarem solidariedade a Tinga, que disse que se pudesse, trocaria todos os títulos, por uma vitória na luta contra o preconceito.
Não bastassem os episódios apresentados, eis que vem a público o vídeo em que um parlamentar brasileiríssimo, formado engenheiro agrônomo, no alto de seu terceiro mandato de Deputado Federal, eleito com 180.403 votos, discursa, infiltrando o racismo quase como uma ideologia, com argumentos conscientes e perversos, como deve ser sua sombria visão de mundo. Exercitar o pensamento crítico é realmente relevante para as questões tanto de preconceito quanto de ideologia política. Havia lido Norberto Bobbio, filósofo italiano, que sem sombra de dúvida, é meu preferido e lembro-me de uma frase que marcou-me: “Quem não tem preconceito que atire a primeira pedra”. Ensinou-me também, que devo ter cautela ao falar do preconceito dos outros, sem antes avaliar o meu. O racismo entretanto, não cai do céu. Vários estudos apresentam uma correlação entre as crenças conservadoras e racismo. Um estudo anterior feito pela Universidade de Ontário já revelava uma ligação entre as pessoas de QI. baixo e maior incidência de preconceito. Ou devemos adotar o discurso de Rousseau, que sustenta que a natureza fez os homens bons e iguais, mas as condições de vida os tornaram desiguais, ou ainda acreditar no príncipe dos filósofos não igualitários, Nietzsche, para quem o homem é por natureza mau e desigual e apenas a sociedade com seus freios morais é que poderia torná-los iguais?
Basta dar uma olhada nesse imenso planeta para perceber como é longo o caminho que se deve percorrer para enfrentar as lutas que estão por vir. O mundo não está pronto para ser o paraíso e a possibilidade de um atalho mais ajustado à vida humana decente, vai se perdendo com fatos como esses. As eleições se aproximam, é bom acompanhar o desempenho eleitoral do Deputado Gaúcho e se nada mudar, resta-nos a descrença de não mais nos sentirmos em casa nesse espaço que nos cabe no planeta. Vou sentir-me ameaçada na situação desconfortável de exilada.

Uma visita ritual

A dinâmica da vida política e social é carregada de metáforas que escondem ou ao contrário, expõe, a pormenorização das mensagens que emitimos. O aspecto simbólico dos rituais contribuem para esclarecer aspectos da vida social. Quando pensamos em ritual, a ideia que nos vem a mente é quase sempre de algo arcaico feito para celebrar momentos especiais, mas não é isso.
Os rituais são as formas simbólicas e repetidas de poder, de descrição esmiuçada, às vezes sem palavras, de cenários e representações que falam por si. Ao ler Victor Turner, eu fui remetida à minha lida diária com eventos públicos, presididos por pessoas que detém o poder. Turner reforça que os rituais encenam histórias poderosas, tradições seculares, que são traduzidas em ritos que dizem muito. Na verdade a simbologia dos ritos pode significar o enquadramento das tradições, que precisa de movimentos minimamente coreografados para transportar sujeitos de verdade ao mundo das representações simbólicas.
Cada evento é único e somente a criatividade pode quebrar a rigidez das regulamentações hierárquicas. Os rituais acontecem sob certas condições e prioritariamente precisa de público para acontecer. É preciso ter competência para comunicar com a plateia, empatia para transmitir o pensamento de forma que as entrelinhas possam ser lidas e assimiladas.
As figuras públicas se expressam por meio de rituais ordenados, que favorecem a transmissão das mensagens e das imagens. Todo ato com a presença da presidente da República, não é um acontecimento meramente casual. Ao contrário, são utilizados mecanismos eficientes de comunicação para levar a mensagem ao destino certo.
Escolhi estudar Antropologia das Formas Expressivas esse ano e agora ao estar na coordenação dos preparativos para a visita da presidente Dilma Rousseff ao Estado de Mato Grosso, posso constatar que a organização desse ato é constituído por um conjunto de pequenos atos simbólicos, embora a visita ocorra numa área de plantio, com certa informalidade. O desembarque, o lugar de passagem, a distribuição do público, a arte por trás do palco, tudo cuidadosamente verificado e aprovado.
A maior autoridade do País se movimenta hoje aqui, cumprindo agenda e rituais inerentes ao poder por ela exercido, observando as tradições, fortalecendo as relações com os antepassados. Há simbologia em todas as atividades, em todo o material envolvido na construção do cenário. Tudo ressalta os aspectos políticos dentro do conceito da manutenção dos ritos do poder, sem distrações que possam desvalorizar os rituais. Devemos estar atentos aos gestos, expressões, pois o corpo é um veículo que transporta muitos significados, que contextualizados, podem traduzir as diversas formas, através das quais, nos comunicamos.