Sedução materialista

Há prazeres da vida que não dependem da condição financeira.
O homem apressado não sente a beleza da poesia, a solidez dos relacionamentos, não se preocupa em avaliar a qualidade dos debates políticos e a integridade dos nossos representantes. Não considera um feito ter coragem, sabedoria e cultura. Nada diz sobre a compaixão e dedicação. O homem está atento a tudo, menos ao que faz a vida valer a pena.
Alguns pequenos prazeres da vida não dependem da condição financeira. Não se encontra à venda o amor e a amizade, as dores e os prazeres da vida em família, a satisfação poder cuidar de alguém, a auto estima proveniente do reconhecimento pelo trabalho bem feito, a simpatia, a proteção carinhosa e o respeito dos amigos.
A vida nas cidades, dados os problemas mais profundos da vida moderna, ainda possibilita a retomada do indivíduo e sua interioridade à sociedade, que de acordo com o sociólogo Georg Simmel, não é algo feito, acabado ou estático. Mas ao contrário, a sociedade hoje é um fluxo incessante de fazer-se, desfazer-se e refazer-se. Os laços que mantêm os indivíduos unidos são desfeitos e refeitos com uma contínua fluidez. É na cidade grande que os estranhos se confrontam, que as luzes que acendem, que o show começa e ninguém mais presta atenção em nada. Simmel foi um sociólogo atento aos movimentos do cotidiano, principalmente das grandes cidades.
Precisamos harmonizar com o que quer que esteja nos consumindo e nos remetendo a esse estado quase blasé, essa forma de existência indiferente e superficial, vivendo encontros raros e breves.
Aos que buscam o prazer e não são afeitos a cuidar, uma empresa inglesa, preocupada com o aumento do número de cachorros abandonados pelos donos, que logo cansavam-se de executar as tarefas diárias no tratamento dos animais, abriu um serviço de alugar os animaizinhos por algumas horas ou dias. Assim, os bichinhos treinados e educados animam as crianças ricas, que podem dispor da companhia dos cães sem o incômodo de cuidar ou amar. A que ponto chegamos!
Quanto mais puder, ofereça a outras pessoas bens que o dinheiro não pode comprar. Lembra-te que costumávamos nos reunir-se em torno da mesa, com comida preparada por muitas mãos para ser compartilhada, entre conversas, risos e barulho das crianças? Lembra-te que havia sempre uma pessoa que ouvia com atenção uma longa explicação de ideias e pensamentos, esperanças e apreensões?
Precisamos tentar o impossível, porque Simmel ao falar das grandes cidades e da vida do espírito, diz que é possível notar um retrocesso acentuado da cultura dos homens com relação à espiritualidade, delicadeza e idealismo e que a cidades grandes sempre foram o lugar da multiplicidade, da velocidade e os homens modernos que habitam as grandes cidades são envoltos num espírito cada vez mais contábil, na medida em que o dinheiro compensa toda a pluralidade das coisas belas.
Fico a pensar, no que deve ser o reverso da liberdade; que em nenhum lugar pessoas se sentem mais solitárias e abandonadas do que no meio da multidão nas cidades grandes.

O Poeta e a Lua

Em meio a um cristal de ecos
O poeta vai pela rua
Seus olhos verdes de éter
Abrem cavernas na lua.
A lua volta de flanco
Eriçada de luxúria
O poeta, aloucado e branco
Palpa as nádegas da lua.
Entre as esferas nitentes
Tremeluzem pêlos fulvos
O poeta, de olhar dormente
Entreabre o pente da lua.
Em frouxos de luz e água
Palpita a ferida crua
O poeta todo se lava
De palidez e doçura.
Ardente e desesperada
A lua vira em decúbito
A vinda lenta do espasmo
Aguça as pontas da lua.
O poeta afaga-lhe os braços
E o ventre que se menstrua
A lua se curva em arco
Num delírio de volúpia.
O gozo aumenta de súbito
Em frêmitos que perduram
A lua vira o outro quarto
E fica de frente, nua.
O orgasmo desce do espaço
Desfeito em estrelas e nuvens
Nos ventos do mar perspassa
Um salso cheiro de lua
E a lua, no êxtase, cresce
Se dilata e alteia e estua
O poeta se deixa em prece
Ante a beleza da lua.
Depois a lua adormece
E míngua e se apazigua…
O poeta desaparece
Envolto em cantos e plumas
Enquanto a noite enlouquece
No seu claustro de ciúmes.

Você confia em mim?

Em nossa sociedade supostamente adepta da reflexão, não é provável que se reforce muito a confiança. É uma característica da vida humana que normalmente encaremos uns aos outros com natural desconfiança. As pessoas geralmente tecem suas teorias de mundo utilizando-se de suas experiências. Na geração atual o que vemos são lições sendo apresentadas, recomendando estratégias de proteção à vida, insinuando que um estranho é alguém em quem não se deve confiar, que a vida é um jogo duro, para pessoas igualmente duras. Os jogos começam sempre do zero, vitórias passadas não contam e cada jogador, por conta própria, tem que buscar a vitória, eliminar colegas, obstruir o caminho. Seria bonito se a vitória fosse sempre coletiva, sem a descartabilidade dos seres irmãos.
Os estranhos não são uma invenção da vida moderna, mas aqueles que permanecem estranhos por um longo período são e deveriam ser advertidos que não é permitido permanecer estranho por muito tempo. Eu, pessoalmente, não tenho habilidade para desconfiar das pessoas prontamente. Como posso almejar uma vida pacífica desconfiando de todos?
Embora isso possa estar em desacordo com as regras de preservação da espécie, há um enigma que me aflige: me aperfeiçoar ou me proteger?
Devemos ser cuidadosos no relacionamento com as pessoas, porém, a confiança é essencial para estabelecer acordos, para trabalhar com o diferente, para promover o bem comum. A desconfiança, por outro lado, promove o ceticismo, a frustração. Quando a confiança é baixa, a maneira como reagimos e nos comportamos uns com os outros torna-nos menos civilizados.
Não há uma explicação única para a perda da confiança. Ela vai acontecendo, empurrada pela fragilidade dos comprometimentos, pela quebra de valores morais, pelo alargamento do fosso social entre ricos e pobres, pela perda do senso de compartilhar o destino. È extremamente difícil restaurar a confiança perdida. A relação, quando abalada, não suporta mais nenhum movimento em falso. Lembro-me das palavras do mais famoso ciclista do mundo, Lance Armstrong, ao ser pego em caso de dopping e banido das pistas: “Eu passarei o resto da minha vida tentando recuperar a confiança que as pessoas perderam em mim, porque eu construí meu sucesso pautado na imagem do homem de confiança, de respeito e eu quebrei essa confiança”.
Os grandes paradoxos da confiança é que as pessoas em quem não confiamos também não confiam muito em nós e apesar de ser complexa e desafiadora devemos exercitar a tarefa de restaurar a confiança uns nos outros. Parece que quando conseguimos recobrar a confiança, a relação fica mais forte do que se a confiança nunca fora quebrada.
Entre todos os atributos que exalam respeito num líder, a confiança é de maior destaque. É conquistada, na medida em que a capacidade, a diligência e a integridade são colocados à prova. Já é suficientemente difícil viver tentando ser uma pessoa decente, atendendo todas as demandas do mundo, sem grandes sentimentos de culpa ou vergonha. Não precisamos ser olhados com desconfiança o tempo todo.

Não se feche em si mesmo

Você não tem que viver sua vida como os outros esperam que você viva. Acima de todas as expectativas que depositam em seus ombros, leve em conta seus desejos, a realização dos sonhos, a liberdade de existir dentro de um universo que você idealizou.
Acerque-se do que te faz bem, cultive em sua vida atitudes que carrega em seu interior. Deixa a compaixão brotar. Sê bondoso faz bem a quem é bom mais do que aos que recebem benefícios disso. Tornar o mundo um lugar melhor é que você deve fazer, todos os dias, um pouquinho de cada vez.
Encontre o meio de estender sua glória pessoal aos que te cercam. De nada adianta estar bem, rodeado por pessoas angustiadas. Liberte-se do egoísmo, da vontade exacerbada de crescer e crescer. Compartilhe valores, conhecimento, alegrias. Que muitos sejam beneficiados pelo seu crescimento pessoal.
Eu já quis cercar-me do bem, do prazer, do conhecimento e da riqueza, para meu único proveito. Meu coração não aceita viver limitado a minha própria situação.

Prazer, Dor, Paixões (John Locke)

O amor
A principal e primeira de todas as paixões é a mais indócil entre todas as demais e cega, porque o amor não se move até nos propormos algo que é em si mesmo delicioso. O amor se decide apenas por um fim que tenha a secreta faculdade de encantar.
O amor se estende a tudo o que aparentemente é capaz de nos fazer bem.
O ódio apresenta-se como uma ideia na mente disposta a nos adoecer e cuidado, a dor atua mais sobre nós do que o bem e o prazer.
Suportamos a ausência de um grande amor mais facilmente do que a presença de um pouco de dor.
Jamis nos queixamos do sono, que sempre nos furta a sensação de muitos gozos, mas o tomamos por prazer, quando faz cessar qualquer uma de nossas dores.

Falsa Consciência

No mundo desenvolvido ou em desenvolvimento, muitos países em muitas partes do mundo não avançaram muito em termos de dignidade no tratamento dado às mulheres. A violência, sobretudo doméstica é muito preocupante. As mulheres estão sim, tendo mais facilidades para encontrar empregos, mas isso não significa que estejam sendo valorizadas como deveriam, tampouco integradas como parte legal do sistema político. Mulheres ainda são tidas como boas auxiliares, quase nunca atuam como artistas centrais das tramas.
O Dia Internacional da Mulher é nada, senão uma oportunidade ótima para refletir e aumentar a consciência sobre como podemos contribuir para melhorar nossa performance na aceitação do desempenho de nossas funções. É dito que temos forte tendência para transferir conhecimento, somos mais reflexivas e amorosas. Então é na construção do relacionamento com nossos pais, companheiros e filhos que vamos nos colocando corajosas, que vamos ensinando e cobrando respeito e atenção.
As mulheres são conhecidas por serem mais práticas, mais próximas à natureza, preocupadas com questões de segurança, capazes de executar tarefas múltiplas e, além de tudo, são a fonte da vida, trazem crianças ao mundo. Se efetivamente somos melhores transmissoras do conhecimento, temos que nos aprofundar até esgotar o esforço para estancar toda forma de violência contra as mulheres.
Violência que não está contida numa cultura, numa região ou num país, nem a grupos particulares de mulheres. As raízes da violência contra as mulheres decorrem mesmo da discriminação persistente que sofrem até os dias de hoje. A forma mais comum de violência experimentada pelas mulheres em todo o mundo é a violência física, até homicídio, praticado pelo parceiro atual ou anterior. Enfim, as mulheres enfrentam múltiplas formas de discriminação e risco premente de serem vítimas de violência.
Faz sentido reconhecer que quando maiores oportunidades são oferecidas às mulheres, crescem também as perspectivas de tornar o mundo um lugar mais pacífico e estável. A presença das mulheres é vital para e para contornar os conflitos domésticos, assegurar que os filhos frequentem a escola, que recebam tratamento médico, que sejam livres. É verdade que a maioria das mulheres carregam fardo maior que a maioria dos homens no decorrer de suas existências e que suas vozes são raramente ouvidas. Não me ative a examinar, mas possivelmente os países que valorizam e dão crédito às mulheres nas tomadas de decisões sejam mais estáveis e seguros?
Avanços pontuais, pessoais, claro que existem em todas as áreas. Mas a desigualdade existe mesmo e muita. No cenário político do Estado, votados pelos eleitores, não temos nenhuma senadora, nenhuma deputada federal, apenas duas deputadas estaduais, uma vereadora na capital e de 141 prefeitos, apenas 19 são mulheres. Então, espero um pouco mais para celebrar as conquistas.