Você confia em mim?

Em nossa sociedade supostamente adepta da reflexão, não é provável que se reforce muito a confiança. É uma característica da vida humana que normalmente encaremos uns aos outros com natural desconfiança. As pessoas geralmente tecem suas teorias de mundo utilizando-se de suas experiências. Na geração atual o que vemos são lições sendo apresentadas, recomendando estratégias de proteção à vida, insinuando que um estranho é alguém em quem não se deve confiar, que a vida é um jogo duro, para pessoas igualmente duras. Os jogos começam sempre do zero, vitórias passadas não contam e cada jogador, por conta própria, tem que buscar a vitória, eliminar colegas, obstruir o caminho. Seria bonito se a vitória fosse sempre coletiva, sem a descartabilidade dos seres irmãos.
Os estranhos não são uma invenção da vida moderna, mas aqueles que permanecem estranhos por um longo período são e deveriam ser advertidos que não é permitido permanecer estranho por muito tempo. Eu, pessoalmente, não tenho habilidade para desconfiar das pessoas prontamente. Como posso almejar uma vida pacífica desconfiando de todos?
Embora isso possa estar em desacordo com as regras de preservação da espécie, há um enigma que me aflige: me aperfeiçoar ou me proteger?
Devemos ser cuidadosos no relacionamento com as pessoas, porém, a confiança é essencial para estabelecer acordos, para trabalhar com o diferente, para promover o bem comum. A desconfiança, por outro lado, promove o ceticismo, a frustração. Quando a confiança é baixa, a maneira como reagimos e nos comportamos uns com os outros torna-nos menos civilizados.
Não há uma explicação única para a perda da confiança. Ela vai acontecendo, empurrada pela fragilidade dos comprometimentos, pela quebra de valores morais, pelo alargamento do fosso social entre ricos e pobres, pela perda do senso de compartilhar o destino. È extremamente difícil restaurar a confiança perdida. A relação, quando abalada, não suporta mais nenhum movimento em falso. Lembro-me das palavras do mais famoso ciclista do mundo, Lance Armstrong, ao ser pego em caso de dopping e banido das pistas: “Eu passarei o resto da minha vida tentando recuperar a confiança que as pessoas perderam em mim, porque eu construí meu sucesso pautado na imagem do homem de confiança, de respeito e eu quebrei essa confiança”.
Os grandes paradoxos da confiança é que as pessoas em quem não confiamos também não confiam muito em nós e apesar de ser complexa e desafiadora devemos exercitar a tarefa de restaurar a confiança uns nos outros. Parece que quando conseguimos recobrar a confiança, a relação fica mais forte do que se a confiança nunca fora quebrada.
Entre todos os atributos que exalam respeito num líder, a confiança é de maior destaque. É conquistada, na medida em que a capacidade, a diligência e a integridade são colocados à prova. Já é suficientemente difícil viver tentando ser uma pessoa decente, atendendo todas as demandas do mundo, sem grandes sentimentos de culpa ou vergonha. Não precisamos ser olhados com desconfiança o tempo todo.

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