Sonho e poesia

A realização de um sonho envolve tanta poesia

Nada me passa em preto e branco, nada cria distancia.

Apego-me ao cheiro, ao som e ao aconchego de quem passa  e

deixa um sorriso.

Sonho com coisas rimadas, com carinho, compaixão,

Paixão em noites enluaradas.

Eu sonho e escrevo,

Sonho e te vejo

Sonho e desejo

que toda poesia viva em meu sonho.

O homem que vende a sua versão dos fatos

A utilização cada vez mais frequente da delação premiada levou-me a ler e leigamente tentar entender a lógica que movimenta esse instituto dentro do ordenamento jurídico do Estado. Poderia ter recorrido ao filho e amigos advogados brilhantes, mas decidi enfrentar minha limitação intelectual e até reproduzir frases que li sobre essa prática que tem provocado reações diversas e aguçou-me a curiosidade.

A delação premiada é um mecanismo criado por lei para tentar resolver alguns crimes com maior facilidade e baseia-se na ajuda de um réu, que confessa suas práticas ilícitas e delata outras pessoas por envolvimento com as mesmas. Simples assim: o Estado através da delação premiada deixa de castigar a caráter o autor de um crime e lhe oferece um prêmio em troca de informações. Um negócio qualquer. Aqui o cidadão vende a versão dos fatos, com as provas que possui ou segundo os interesses dele.

Muitos advogados fazem duras críticas ao uso do instituto da delação premiada, chegando a afirmar que não fariam a defesa de quem dela se utilizasse, por entenderem que quem faz uso da delação são pessoas sem senso ético, que para obterem benefícios negociam com a polícia e com o Ministério Público prestando informações que só interessam aos órgãos envolvidos nas acusações. Muitos dizem que os delatores podem dizer o que é útil para a acusação e são, muitas vezes, induzidos a fazerem declarações tendenciosas.

Ainda que o instituto possa merecer críticas e deva ser utilizado com cautela, é importante saber que a delação premiada não é invenção da legislação brasileira. É amplamente aplicado nos Estados Unidos e na Itália. O fato de a legislação prever a delação premiada significa, a priori, o reconhecimento da ineficiência do Estado ao apurar pelos métodos tradicionais os atos ilícitos praticados por organizações ou pessoas. Achei difícil entender como o legislador, que dá tratamento rigoroso a determinados crimes, possibilita ao membro de uma quadrilha a negociação com o aparelho jurídico do Estado. Incongruente não?

Certo é que é temerário tomar as declarações do delator como verdade absoluta. Vale refletir sobre a valoração que as palavras do acusado assumem no processo. Assim sendo, delação não pode servir como prova absoluta contra aquele que está sendo delatado, porque muitas vezes, movido por vingança, acordos espúrios e até para salvar a própria pele, o delator acrescenta à história fatos irreais, contornos inexistentes. Existe a possibilidade de o delator colaborar falsamente com a justiça, com a finalidade de usufruir dos benefícios oferecidos pela lei, entretanto, se descoberto, pode perder as regalias e voltar a ser réu comum.

Nem tudo o que li foram críticas. Há os que reconhecem a delação premiada como um instrumento legal e até democrático, colocado à disposição do Estado. Em último caso, é um mal necessário, valendo-se da máxima de que os fins justificam os meios.

Desasossego

Escrevo, triste, no quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei.  E penso se, a minha voz , aparentemente tão pouca coisa, não encarna a sustância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha no destino cotidiano ao sonho inútil, a esperança sem vestígios.

Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reação contra mim, desce-me da inteligência. Vejo no quarto andar das Rua dos Douradores, sinto-me com sono: olho sobre o papel meio escrito, a vida vã, sem beleza, o cigarro barato sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida! a dizer o que as almas sentem!

Fernando Pessoa, em Desasossego

 

O poeta pede a seu amor que lhe escreva

Meu entranhado amor, morte que é vida, 
tua palavra escrita em vão espero 
e penso, com a flor que se emurchece 
que se vivo sem mim quero perder-te. 

O ar é imortal. A pedra inerte 
nem a sombra conhece nem a evita. 
Coração interior não necessita 
do mel gelado que a lua derrama. 

Porém eu te suportei. Rasguei-me as veias, 
sobre a tua cintura, tigre e pomba, 
em duelo de mordidas e açucenas. 

Enche minha loucura de palavras 
ou deixa-me viver na minha calma 
e para sempre escura noite d’alma. 

Federico García Lorca

Há muito a considerar

Sob todas as perspectivas, gostamos de ser elogiados, nunca criticados. No entanto, os seres sublimes não são movidos por elogios ou críticas. Isto é o que você tem que almejar também. Seja sempre verdadeiro. Mostre-se em seus excessos, suas carências, nas atribulações do dia-a-dia, as pequenas e grandes imperfeições.

Não haveremos de encontrar uma vida perfeita. Há dias de contentamento, dias de lágrimas, dias de ser forte, dias de praticar a tolerância. Ao longo da vida acumulamos conhecimento, paixões e perdas. Não prometa, tenta ser um pouco melhor a cada dia. Não lamenta, procura compreender e aceitar. Além do que somos, do que pensamos, do que queremos há uma infinidade de outras considerações.

 

 

Os três tipos de preguiça

O ócio é, em certos casos,  a liberdade de ter o tempo sob seu controle. Aristóteles já acreditava que a vida com tempo suficiente para ponderar o que é essencial, era mais suscetível de conduzir a felicidade do que a vida do comerciante ou do político muito ocupado.

O Budismo descreve três tipos de preguiça que devem ser combatidas: a preguiça quando não queremos fazer nada e preferimos ficar na cama, por pura apatia; a preguiça quando nos sentirmos incapazes de realizar algo e protelamos por insegurança e medo de falhar e o terceiro tipo de preguiça é estar demasiadamente ocupado com as coisas mundanas, nos mantendo ocupados para evitar a solidão, para não estarmos frente a frente com nossos problemas, com nossa própria intimidade. É a preguiça de interiorizar-se, de compreender profundamente o movimento natural da vida, do universo, sua natureza e como esta opera.

Há caminhos alternativos entre as classificações de preguiça. São os momentos em que damos espaço para a contemplação, para o afloramento dos sentimentos e emoções conturbados pela barulheira do mundo exterior. Precisamos exercitar o “fazer nada”, que nos remete ao encontro de quem somos e não do que fazemos. Embora não seja esta uma visão da contemporaneidade, pois que, a vida ativa é o modelo dominante, certa dose de preguiça pode ser bom para a saúde.

Lembro-me do sociólogo italiano Domenico de Masi, defensor da tese do ócio criativo, como uma forma de estimularmos a criatividade, que nos levaria a romper com os padrões rígidos impostos pelas nossas obrigações. Em seu livro, ele cita Platão e as condições de vida consideradas ideais pelo filósofo em O banquete: “Conviver com um grupo de amigos criativos, paixão pela beleza e pela verdade, liberdade carismática e tempo à disposição sem a angústia de prazos e vencimentos improrrogáveis. Felicidade, afinal, consiste também no fato de não ter prazos a cumprir. Precisamos, portanto, nos educar para gozar a vida e não, apenas, para exercermos profissões”.