Desasossego

Escrevo, triste, no quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei.  E penso se, a minha voz , aparentemente tão pouca coisa, não encarna a sustância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha no destino cotidiano ao sonho inútil, a esperança sem vestígios.

Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reação contra mim, desce-me da inteligência. Vejo no quarto andar das Rua dos Douradores, sinto-me com sono: olho sobre o papel meio escrito, a vida vã, sem beleza, o cigarro barato sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida! a dizer o que as almas sentem!

Fernando Pessoa, em Desasossego

 

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