Espectro do medo ronda a política brasileira

Não importa o resultado das eleições, o Brasil continuará sendo o maior país da América Latina, nossas instituições democráticas continuarão sólidas.  Avanços acontecem inexoravelmente, independente de quem for o presidente; rupturas e adoção de novas  políticas públicas também. Então, medo de que? De quem? A democracia não produz o socialismo e os programas de transferência de renda em governo democrático, não são extintos sem a votação do Congresso. Segundo artigo datado deste mês na revista Forbes, o Brasil está melhor agora do que há 12 anos e apesar da economia mais fraca, os investidores não estão deixando o país. Não estamos na década de 1990 e Brasil não é a Argentina.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman diz que a maioria dos medos humanos transcendem os limites de tempo e espaço enquanto permanecem na fantasia e estes regulam o comportamento dos seres humanos mesmo quando não há ameaça direta, mas velada.  Os perigos e medos derivados das ameaças irresponsavelmente propagadas contaminam a ordem social, pois o medo é mais terrível quando se é difuso, disperso, e quando ele flutua livremente por todos os lugares, sem amarras, âncoras, ou uma causa clara.

Ao adotarem a prática da disseminação do medo, os marqueteiros políticos desafiam a eficácia da política baseada na racionalidade e capitalizam as emoções e ansiedades dos eleitores, manipulam seus medos, fazendo com que estes se transformem em votos. A política do medo é definida como uma estratégia para lidar com o desconhecido, com a insatisfação e agitação popular.  A dinâmica adotada aqui está fora desses paradigmas, pois convenhamos, não há desconhecidos, tampouco estranhos nessa eleição.

Como analisar a emoção do medo neste contexto senão como uma forma de política de varejo, que em si mesma não é satisfatória? Creio que a verdadeira questão é apoiar quem acreditamos que tem as ferramentas para realmente resolver o problema da desigualdade, quem tem controle sobre a estrutura governamental para promover mais mudanças, desenvolvimento econômico mais equitativo e políticas públicas, que possam ter impacto sobre a desigualdade no longo prazo.

A política é um jogo de relações públicas. É por isso que há continuidade nas administrações; porque vários comportamentos são sistematizados, tem amarras legais na burocracia estatal e as mudanças tem que ser gradativas.  Não há cenário que possibilite uma reforma total nas instituições existentes, uma redistribuição radical do poder político e econômico. Em tempo, a reconstrução política passa inevitavelmente pela reconstrução da sociedade.

Convergências entre desiguais

Depois de uma campanha tão áspera, considerada pelos analistas, as eleições mais disputadas dos últimos anos, marcada por debates mal humorados,  acusações de corrupção e intolerância de ambos os lados, finalmente neste domingo, diante de um batalhão de diplomatas estrangeiros, cerca de 100, representando vários países, que acompanharam  a votação e o processo de totalização, a presidente Dilma Rousseff (PT) foi reeleita.

Dilma contou apoio de cerca de 9 partidos, embora nem todos unidos na sua base para pedir votos para a candidata. Reeleita, manteve a maioria no Congresso para votações que exigem maioria simples, porém terá que ampliar o arco de alianças no caso de fazer reformas mais profundas, as quais exigem votação favorável de no mínimo três quintos da Câmara e do Senado. No meio de toda alegria e incerteza, muitos se perguntam o que esta eleição especificamente significou para o Brasil, num contexto político e econômico mais amplo. Em suma, o que podemos esperar do Brasil nesses quatro anos?

Mesmo que não estejamos vivendo o boom, quando, empurrada pelas exportações de commodities, a economia brasileira crescia mais de 5 por cento ao ano, 30 milhões de pessoas saíram da pobreza e o desemprego está perto de bater um recorde de baixa e isso reforça muito a popularidade da presidente Dilma, em função também da extensão dos programas: Prouni,  Fies e o Pronatec. Os programas sociais serão mantidos e ampliados, baseando-me na lógica do que tem sido o governo de Dilma Rousseff até aqui. Suas prioridades devem permanecer nos mesmos países onde hoje concentra os negócios brasileiros, na América Latina, África e Ásia. Porém espero que a presidente conduza a política externa com menos pragmatismo e mais idealismo, colocando-se objetivamente contra os conflitos na Síria e no Iraque e também na Ucrânia.

Havemos de cobrar do governo melhor desempenho desta que é considerada a sétima economia do mundo; punição exemplar para se encerrar o ciclo de corrupção na Petrobrás, onde não basta o inquérito parlamentar já instaurado.

Os ganhos sócio-econômicos dos últimos 12 anos foram suficientes para que os eleitores a escolhessem em detrimento da candidatura de uma ambientalista mundialmente conhecida  e de um senador social-democrata, que prometia impulsionar a economia.  Agora é hora do que o sociólogo Fernando Henrique Cardoso chama de convergência entre desiguais. Diz ele que as alianças são feitas somente entre os desiguais, pois do contrário não seria preciso fazer alianças; os que são iguais em termos de objetivos, que pensam e querem as mesmas coisas, já estão juntos, e não precisam se aliar.

A Mídia e os Eleitores

Dias atrás li a queixa de um parlamentar federal acerca da cobertura jornalística feita nas instituições políticas, em particular no Congresso Nacional. Diz o parlamentar que as matérias feitas, de modo geral, não contribuem para se ter uma avaliação adequada sobre o funcionamento e desempenho do Parlamento, pois são essencialmente negativas e não fazem distinção entre o desempenho medíocre de alguns membros dos deputados e senadores que realizam bom trabalho nas comissões parlamentares.

Houve uma proliferação de programas, considerados jornalísticos, voltados a persuadir os eleitores considerados desinteressados em política ou indecisos. É nítido que os meios de comunicação exercem determinado grau de influência nos eleitores, porém, creio que é muito difícil analisar com a profundidade de uma pesquisa, a extensão com a qual a propaganda política contribui para a consolidação ou transformação do voto. A mídia foi amplamente considerada um elemento auxiliar nas tomadas de decisões e esta foi uma das razões das críticas, porque esta função estaria em desacordo com o ofício de seleção, construção e transmissão da informação ao eleitor.

Como imparcialidade e neutralidade não existem em questões políticas, os proprietários dos meios de comunicação se relacionam com os políticos, seguem determinadas correntes ideológicas e pessoalmente pendem para um lado ou para outro, o que é absolutamente natural, desde que reservem tempo e espaço igual, nas mídias que dirigem, para todos os candidatos. Sem nenhuma intenção de relativizar a influência dos veículos de comunicação na campanha eleitoral, tomo para análise o perfil dos dois deputados estaduais eleitos com a mais expressiva votação em Mato Grosso; Mauro Savi, com grande poder de articulação, grupo político consolidado, é notadamente avesso à aparição na TV e somente agora inicia uma movimentação tímida nas mídias sociais.

A propaganda política não lhe fez falta alguma e confirmou-se o que era esperado; foi o campeão de votos. Janaína Riva, uma jovem moderna de 25 anos, com milhares de seguidores nas mídias sociais, teve a votação prevista desde o início do pleito, a maioria eleitores herdados do pai, segundo a própria deputada. Confirma-se aqui a vitória dos deputados, baseada nos seus grupos de relacionamentos.

A realização de eleições democráticas é um processo extremamente competitivo e apesar da leitura crítica e da contraditória eficácia, é inegável que os meios de comunicação tem relevante papel social nas eleições, transformando as campanhas em algo mais dinâmico, com mais diálogo. Sendo que muitas pessoas buscam informações sobre política nos noticiários, é particularmente importante que os meios de comunicação adotem uma abordagem balanceada e imparcial nos noticiários, reportando os fatos sem nenhum tipo de discriminação contra este ou aquele candidato.

Mudança?

Apesar de todas as reclamações e frustrações, que fazem parte da política brasileira, as eleições e o momento do voto são, queiram ou não admitir, um modelo de ordem e eficiência, onde claro, ocorrem excessos, pois falamos em eficiência, não em perfeição. A palavra mudança fez parte do slogan da maioria das campanhas e esteve também na boca de muitos eleitores, sobretudo jovens, que se por um lado demonstravam decepção com os políticos, por outro, se mostravam confiantes no processo eleitoral como protagonista de uma mudança efetiva, embora muitos relutassem em votar contra um governo que melhorou as condições de vida de muitas famílias nos últimos anos.

Sendo esta a primeira eleição depois dos protestos de rua ocorridos no ano passado e que revelaram o poder de transformação das mídias sociais, ironicamente a palavra mudança ficou restrita aos arroubos de intenções dos eleitores, que na hora de votar, foram bem econômicos em termos de inovação. Os eleitores não ousaram e a prova disso é que o índice de renovação real na Câmara atingiu a marca de 43,5%, um índice que historicamente sempre ficou dentro desse percentual, segundo fonte da Agência Câmara de Notícias.

O PT elegeu novamente a maior bancada da Câmara Federal, seguido do PMDB, exatamente como nas eleições de 2010. Os dois partidos elegerem menos deputados do que em 2010, em relação à bancada atual, porém uma flutuação irrisória. De todos os 32 partidos registrados, apenas o PSDB cresceu e elegeu 11 deputados federais a mais. Outra prova de que a palavra mudança foi absurdamente utilizada é verificada quando se vê que filhos, netos e herdeiros de políticos tradicionais foram eleitos com votações expressivas; como o neto de Mário Covas, filha de Anthony Garotinho, filho de Jair Bolsonaro, o jovem Hélder Barbalho, filho de Jader Barbalho, que levou as eleições do Pará para o segundo turno.

Mais ainda, ao conferir que os deputados recordistas de votos são os contraversos de eleições passadas; do apresentador de TV Celso Russomano, o palhaço Tiririca, novamente com mais de 1 milhão de votos e Jair Bolsonaro, que teve tantos votos, que acabou ‘puxando’ outros deputados de seu partido. Neste contexto talvez, apenas o Maranhão tenha votado pela mudança radical, declarando o fim da oligarquia Sarney no estado. Um caso isolado, todavia, pois há vários casos de deputados reeleitos, que estão no poder há mais de 20 anos.

A repentina onda clamando por mudança fica definitivamente para as eleições locais em 2016, porque em 2014 ela não ocorreu. Agora é torcer para que haja o emparelhamento das promessas com as ações reais, para que a reforma política se consolide, até para propiciar a renovação que parecia estar à vista e foi adiada pela vontade soberana do eleitorado conservador.