Sem falsas premissas

Em um momento ou outro tenho hábito de questionar quem eu sou, o que tenho feito e se estou fazendo o que deixa-me feliz, se estou aprendendo as lições valiosas que as experiências proporcionam, mais do que as doutrinas que estudo. Em verdade quero estar confortável no mundo que vivo, sabendo interpretar os sinais que conectam o mundo interior ao exterior.

Não pretendo viver segundo uma pretensa objetividade e neutralidade. Talvez, ao me formar no próximo semestre, eu me dê conta de que não serei uma boa socióloga e antropóloga, porque não perderei a mania de olhar carinhosamente para o outro. Não perderei a postura reflexiva e culpada diante de certas realidades, não perderei minha imaginação em detrimento da teoria culta que estudo. Sou e serei sempre acessível à compreensão do cotidiano, através de debates públicos, da proteção ao mais fraco, da libertação das amarras morais e do reconhecimento que precisamos avançar muito para transformar as ansiedades em projetos de defesa dos ideais de justiça social e de solidariedade, para que a maioria das atividades rotineiras dos governos possam ser voltadas para as necessidades de bem-estar das pessoas.

A essência da vida, o real, as contradições que envolvem os diálogos, as disparidades produzidas pela desigualdade são partes do complexo mundo que estou aprendendo a interpretar, compreender e deixar-me inspirar. Não tão fácil aos 50 anos, quanto seria aos 30, debruçar sobre um conjunto interminável de produção intelectual nacional e estrangeira e tirar daí a substancia para alargar  a perspectiva  política e crítica, para conciliar temas controversos que me provocam com questões práticas, como minha paixão pela política e meu envolvimento com as comunidades que estudo. Enfim, a Sociologia, Antropologia e a Ciência Política me levaram a mergulhar fundo nas condições de existência de um universo que eu não desconhecia, muito pelo contrário, sempre permearam meu mundo:  o índio, o negro, o migrante, o político, os empregados, a elite, as fronteiras, os movimentos sociais. Porém na academia aprende-se a desmascarar os mitos, descortinar as verdades e reconstruir as histórias.

Milan Kundera, no livro, Imortalidade fala do desejo das pessoas de permanecer na memória coletiva depois de desaparecer do mundo terreno, diz que emitimos opiniões, exercemos atividades militantes para sermos notados, para termos nossa imagem fixada na memória dos outros. Porém, só o talento e a inteligência são atributos merecedores da imortalidade. E se, a imortalidade sem talento, conseguida à custa da desvalorização do talento do outro, torna-se ridícula e fútil, não podemos nos abandonar a uma imortalidade vazia de sentido, ou a uma realidade que nos obrigue ao conformismo.

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