O cacique e seu labret

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No universo Xinguano o velho é dono da história; o homem, dono da aldeia; e a criança, dona do futuro.
Neste momento em que cabe-me um breve exercício de retrospectiva e planos, as histórias que ouvi nas viagens ao Xingu, seguramente são as que mais produziram mudanças no meu estilo de vida. Dalí extraí a essência do que tenho sido, o alimento que purifica meu coração, o olhar carinhoso que acompanha a curva do rio onde os espíritos se banham.
Ao longo de 12 anos, o encantamento abrandou-se e cedeu lugar a uma convivência respeitosa. Meu mestre é o grande chefe Aritana Yawalapiti, que reorganizou politicamente seu povo inúmeras vezes, quando vencidos por invasões ou doenças. Alí aprendi sobre seus símbolos míticos, sobre fabricação dos corpos dos guerreiros, que as escoriações feitas no corpo são necessárias para que o sangue fraco seja eliminado antes das lutas, aprendi sobre respeito eterno aos mortos, a confiança no poder de cura dos pajés e aprendi sobretudo que as crianças são entidades intocáveis. Não há de se zangar com as crianças.
Movida por essas lembranças, recebí com alegria o cacique e pajé Raoni Metuktire, líder Kayapó, da terra indígena Kapot-Jarinã, na cerimônia de posse do governador Pedro Taques e eu que transito nos dois mundos ali constituídos; cerimonialista pública e estudante de Antropologia não entrei em conflito, quando o cacique quis se manifestar.
Ali estava ele, portando o habitual labret no lábio inferior, (um ornamento concedido aos guerreiros prontos para morrer por sua terra), revestido de sua autoridade de líder de uma nação indígena reconhecido no mundo inteiro, com sua cultura e seus protocolos, a seu tempo e hora. O cacique Raoni não “roubou” a cena. Fora convidado pelo governador e, portanto, estava solenemente dentro do cenário da posse.
De tudo sempre fica a certeza, de que o índio, o meio que ele vive, a cultura material e espiritual se harmonizam com o Mato Grosso indivisível, majestoso e imponente, como disse Orlando Villas Bôas. O movimento de integração entre índios e brancos viveu outros momentos solenes, como em 2004, quando tive a honra de organizar a transferência oficial do governo para o Parque Indígena do Xingu. Todo staff governamental e chefe do Poder Legislativo estabelecidos na aldeia Yawalapiti. O cacique Aritana, falando em aproximadamente 9 idiomas indígenas, intermediava a conversa. Alí, sentados no chão da Casa dos Homens, vimos Mato Grosso ser governado a partir do Xingu.
Se a mim, como mato-grossense cabe um pedido ao novo Governador, eu aponto para o Xingu, a mais importante reserva das Américas e peço um olhar carinhoso para a questão indígena e com segurança digo que é no Xingu que pulsa o coração desse inigualável estado e que é plenamente possível conciliar interesses econômicos e preservação das áreas indígenas, viver a nossa contemporaneidade e respeitar a identidade e cultura deles.

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