A ética da autenticidade

A primeira fonte de preocupação do ideal da autenticidade seria a ética. Para ser autêntico, é preciso entender e respeitar os limites da própria verdade e a autenticidade do pensamento do outro. Ser fiel a mim significa ser fiel à minha originalidade, a forma como eu me defino e articulo minhas potencialidades.
Esta virtude confundiu-se com o individualismo, esta liberdade moderna, onde as pessoas podem escolher o seu modelo de vida, decidir em consciência as suas convicções e configurar os projetos de vida sem considerar a existência de outros seres e suas ricas histórias de vida.
Esta confusão instalou-se na medida em que nos desvinculamos dos nossos antigos horizontes, onde sentíamos parte de uma ordem cósmica na qual cada ser possuía lugar numa hierarquia da sociedade humana.
A exacerbação do eu como mal moderno e a defesa da autenticidade em todas as instâncias da vida, é um descrédito, porém, na cultura moderna, uma vida boa é aquela que cada indivíduo procura à sua maneira, centrar-se em si mesmo. O que tanto estreita quanto desregula nossas vidas.

Não estamos falando do direito de escolher para si as convicções que se pode abraçar e determinar a vida de maneira que os antepassados não puderam fazer; mas da implicação de práticas individualistas, que determinam o destino por si mesmo, com concentração no eu interior.
E o outro? A cultura vulgar da autenticidade leva as pessoas a falar o que pensam e viver fechados em interesses particulares, desfrutando apenas de satisfações pessoais, prazeres pequenos e fugazes.
A perda ou enfraquecimento dos horizontes morais estão ligados à formas degeneradas do ideal de autenticidade, como o individualismo. Nesta perspectiva a autenticidade tende a favorecer a prioridade do indivíduo e seus desejos acima de tudo.
O filósofo Charles Taylor entende que nossa compreensão sobre a autenticidade precisa ser modificada e o compromisso com essa virtude, não implica um compromisso com o egoísmo, com a imposição de vontades e caprichos individuais.
Podemos decidir os objetivos que queremos perseguir e que contribuem para a nossa qualidade de vida, mas podemos, aliado a isso, ajudar outras pessoas a florescer, num conjunto bem ordenado de preferências pelo bem comum.
A realidade, é que nosso relacionamento com outras pessoas é constitutivo da nossa identidade, e assim, se não aproveitarmos a oportunidade para conviver, compartilhar idéias, e ativamente desenvolver a sociedade em que vivemos, o que passa por nossa identidade vai se desenvolver de forma muito atenuada.
Temos que falar dessa tensão causada pela utilização da autenticidade como fator de individualismo e hedonismo e descobrir como é que vamos conciliar uma forma de estar em nossas vidas individuais e em nossas conexões políticas e sociais com outros indivíduos.
O individualismo gera egoísmo e formas narcísicas de expressar a autenticidade e a autenticidade pode ser um ideal digno se desenvolvido num contexto de valores apropriados.

Os 100 primeiros dias de Roosevelt

“Então, primeiro de tudo, deixe-me afirmar a minha firme convicção de que a única coisa que temos a temer é o próprio medo”. Com essa frase proferida no discurso de posse em 4 de março de 1933, Franklin Delano Roosevelt, ofereceu aos Estado Unidos, mais do que um novo acordo, uma nova forma de pensar.
Roosevelt tinha que agir rápido. Os EUA estavam enfrentando a maior crise desde a Guerra Civil. O custo da depressão industrial era gigantesco, com bancos e empresas quebrando, trabalhadores ameaçados e falta de moradia. Assim começou o turbilhão dos cem dias.
Uma trégua pedida ao Congresso e ao povo, para reorganizar a economia e as políticas sociais, sob nova filosofia da Administração Nacional de Recuperação, no sentido de não estimular a produção de mais bens e sim, administrar melhor os recursos que tinham em mãos.
E uma quantidade surpreendente de ideias e ações começaram a chegar a partir da Casa Branca. Em seus primeiros 100 dias, Roosevelt encaminhou e conseguiu aprovação de 16 peças legislativas importantes, lançou programas de retomada e expansão de obras públicas e garantiu benefícios aos trabalhadores e assistiu os desempregados.
Roosevelt foi generosamente beneficiado pelas circunstâncias. Após quatro anos à deriva sob o desastroso mandato do 31º presidente, um engenheiro de nome Herbert Hoover, (1929- 1933), o país clamava desesperadamente por ação, e Roosevelt, do alto da esmagadora maioria dos votos que obtivera, podia, de fato, iniciar qualquer projeto no âmbito de governo, que teria aceitação popular e aprovação dos deputados e senadores.
Habilidoso, ele capitalizou o momento. E de forma vigorosa, começou a trabalhar o projeto de recuperação nacional. Roosevelt induziu o Congresso a aprovar todas as emendas importantes; financiou programas de compensação de desemprego dos Estados esmagados pela depressão; ofertou empregos em projetos dirigidos pelo governo federal em reflorestamento, construção de estradas e aeroportos para milhares de jovens.
Sob a generosidade do governo, as instituições financeiras, os proprietários e agricultores, foram ajudados pelas leis emergenciais que previam o refinanciamento de dívidas ou contratação de novos empréstimos. Os preços da produção agrícola foram estabilizados com medida de limitação de culturas e subsídio do governo.
Criou unidades de conservação para proteger os recursos naturais; saneou as empresas das estradas de ferro; conseguiu apoio de industriais para limitar o número de horas de trabalho, aumentar os salários, parar a contratação de crianças e melhorar as condições de trabalho. Roosevelt reconheceu os direitos dos sindicatos, manifestou inclusive que a reativação da indústria não se daria sem alguma assistência governamental e benefícios maiores aos trabalhadores.
Alguns críticos contudo, dizem que Roosevelt poderia e deveria ter movido mais para a esquerda, e que alguns dos seus programas ficaram abaixo do que ele mesmo pregara devido a algumas escolhas de métodos tradicionais de obter sucesso e aprovação do seu governo, muito embora a imprensa americana à época, dizia que a administração de Roosevelt se diferenciava de outras, sobretudo porque os programas adotados não eram de defesa e sim, voltados ao ataque.
Jornalistas reconheciam que houvia uma expansão dos limites da atuação do governo em todas as áreas, com forte indícios de favorecimento à construção da riqueza de baixo para cima.
Parece difícil definir os primeiros 100 dias do governo de Roosevelt, pois além de qualquer medida governamental, ele ofereceu a esperança e sua presença tranquilizadora nos lares americanos

É possível viver sem ter superpoderes

É possível viver com sensatez e equilíbrio, transitar entre a cautela e a realidade, sem conformar-se em ser sujeito passivo de marcas e publicações alheias, mas produzindo o próprio conteúdo da vida. É possível fazer da necessidade a virtude de querer mudar o mundo a partir da comunidade local. É possível recriar os espaços se o mundo, tal qual está não parece um lugar habitável com justiça e transparência. A sensação de degradação por vezes, invade várias esferas da vida e surge como uma preocupação decorrente dos excessos que costumeiramente cometemos contra a natureza e a natureza humana.
É possível retomar a serenidade mesmo após o gigantesco esquema de corrupção que bombardeou órgãos governamentais. O Brasil tem jeito. Precisamos nós ter jeito também. Havemos de entender que a corrupção corrói não só dinheiro, mas valores éticos e morais e que essa prática danosa é apenas a conseqüência da escolha feita pelo indivíduo através do voto, ou pela omissão deste. Porém, é possível desfazer certos mitos; a política não precisa ser a arte de escolher entre o desastroso e o intratável, tampouco é necessário que todos os reis e presidentes sejam filósofos como quis Platão, para o mundo conhecer a paz e humanidade. É possível haver paz no mundo , desde que os povos tenham suas necessidades de vida compreendidas. A paz deve ser baseada na abundância do mundo.

Em sintonia com os tempos de mudança, a consciência social substitui o mal estar por abordagens práticas e concretas. Não precisamos apontar defeito nos outros como estratégia de ocultação das nossas imperfeições. E se o sistema político, financeiro e social está ultrapassado, falido, é possível reorganizar os excessos, reconstruir a confiança e crescer de novo. Em verdade, é sempre possível emergir. Basta definir o que é essencial e útil, canalizar as preocupações para organizações que atuem na área que preocupa; basta declarar a favor de fórmulas alternativas de participação na política, se os meios tradicionais não inspiram confiança. É preciso estar propenso a prudência em tempos de crise para alcançar os objetivos.
É possível que o tempo esteja mudando, que a solidariedade seja um valor importante. Pode ser. Mas se não muda o tempo, mudamos a forma de observar as coisas e as pessoas. Mas é possível que não consigamos afastar a tristeza a que nos expomos por sermos humanos, a nos livrar da dor da vida, o que nenhum sistema político pode nos ajudar, nem fugir do medo da morte, da sede do absoluto. É possível que o tempo seja melhor aproveitado, que o mundo esteja pronto para entender a mensagem que buscar uma vida boa é algo que perturba. Porque exige acima de tudo um novo estilo de vida, com outros objetivos, uma mudança na forma como usamos nossa capacidade de quebrar certos esquemas pessoais. O ponto é, que chega um momento em que somos solicitados a viver mais generosamente, a fazer contacto com as diversas periferias que não fazem parte do nosso círculo fechado de relacionamento. Eu, pessoalmente, longe de ser um exemplo do que proponho, entendo que o grande problema atual é traduzir o pensamento em estilo de vida.

Mia Couto

criança na noite

Vivemos longe de nós, em distante fingimento. Desaparecemo-nos. Porque
nos preferimos nessa escuridão interior? Talvez porque o escuro junta as coisas,
costura os fios do disperso. No aconchego da noite, o impossível ganha a
suposição do visível. Nessa ilusão descansam os nossos fantasmas.

Trabalhar para sustentar os ciclos da vida

Trabalhar não significa necessariamente ter emprego. Muitas pessoas tem emprego e não trabalham, outros não tem emprego e trabalham muito. Uma nova cultura começa quando o trabalhador e o trabalho são tratados com respeito.
Num panorama rápido pelas condições de trabalho no mundo, observamos que nos últimos 20 anos, a participação dos salários na renda total dos trabalhadores diminuiu quase 70% em muitos países, apesar de haver registro do aumento da oferta de emprego.
O número de empregos bem pagos e seguros está encolhendo e até o serviço público que era considerado estável e de boas condições, tem sido denunciado como local de trabalho precário. A maioria destes empregos mal pagos e sem proteção trabalhista é ocupado por mulheres.
Em muitos países, a situação dos trabalhadores é muito desesperadora e sem acesso a um emprego formal, sem beneficiar-se dos investimentos em serviços públicos e devido a crescente onda de insegurança, centenas de pessoas morrem cruzando fronteiras enquanto fogem do caos e da pobreza em seus países.
A maioria dos indivíduos trabalham duro todos os dias para dar uma vida melhor para os seus filhos e isso começa com o pensamento de uma boa educação. Lutam por bons empregos com bons salários. Lutam para ter acesso a saúde, uma aposentadoria digna. Lutam mesmo pela chance de dar à família uma vida melhor do que a que tiveram. Trabalhar para sustentar os ciclos da vida não é fácil.
O presidente americano Harry Truman, num discurso memorável, feito em Detroit em 1948, após citar os feitos do presidente Roosevelt, que havia corrigido os abusos que eram cometidos contra os trabalhadores norte-americanos, assegurando-lhes elevação na média salarial, a negociação coletiva, o seguro-desemprego, e salvou milhões de casas dos trabalhadores, que iriam a leilão, disse aos trabalhadores que eles sempre tiveram que lutar pelos seus ganhos, mas que a partir dali deveriam lutar pelo futuro do movimento operário, travando uma luta para certificarem-se que seus direitos seriam mantidos intactos para sempre.
O trabalho, que faz parte da natureza e da cultura humana, é sistematizado pela rotina e precisa receber o reconhecimento e incentivo que merece e os trabalhadores não podem se ater a máxima de que a cultura do bom trabalho precisa ser demonstrada através do consumo e aquisição de bens materiais, que exaltem a vida exuberante.
Gente infeliz vive a comparar-se. Trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem em desespero para pagar as prestações, mas é através do consumo que estes assinalam suas existências. Embora muitas mercadorias sejam absolutamente necessárias à subsistência, nosso destino não há de ser apenas subsistir, tampouco nos expor numa relação de poder.
As posses materiais não importa qual sejam, devem fornecer minimamente abrigo e comida. Trabalhamos de olho no consumo desde o nascimento das grandes marcas, como a Coca-Cola e Kodak entre os anos 1886 e 1888 respectivamente, que trouxeram a novidade das grandes campanhas publicitárias seduzindo as pessoas, vendendo imagens de uma vida perfeita, ao consumir produtos que traziam bem-estar profundo e a felicidade.

Consumo, segundo Eduardo Galeano

A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.
O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa delinquindo.
Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas para que outro mundo vamos mudar-nos?
A explosão do consumo no mundo atual faz mais ruído do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco: quem bebe por conta, emborracha-se o dobro. O carrossel aturde e confunde o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo soa muito, tal como o tambor, porque está vazia. E na hora da verdade, quando o estrépito cessa e acaba a festa, o borracho acorda, só, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos partidos que deve pagar.
A expansão da procura choca com as fronteiras que lhe impõe o mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam o ar, e ao mesmo tempo necessitam que andem pelo chão, como acontece, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.
O direito ao desperdício, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os Estados Unidos consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa se se considerar que os EUA têm apenas cinco por cento da população mundial.
“Gente infeliz os que vivem a comparar-se”, lamenta uma mulher no bairro do Buceo, em Montevideo. A dor de já não ser, que outrora cantou o tango, abriu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. “Quando não tens nada, pensas que não vales nada”, diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: “Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem suando em bicas para pagar as prestações”.
Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.
O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde a quantidade com a qualidade, confunde a gordura com a boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a “obesidade severa” aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou uns 40% nos últimos 16 anos, segundo a investigação recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado.
O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar só sai do automóvel par trabalhar e para ver televisão. Sentado perante o pequeno écran, passa quatro horas diárias a devorar comida de plástico.
Triunfa o lixo disfarçado de comida: esta indústria está a conquistar os paladares do mundo e a deixar em farrapos as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que veem de longe, têm, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade, são um patrimônio coletivo que de algum modo está nos fogões de todos e não só na mesa dos ricos.
Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão a ser espezinhadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida à escala mundial, obra da McDonald’s, Burger King e outras fábricas, viola com êxito o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.
O campeonato mundial de futebol de 98 confirmou-nos, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola brinda eterna juventude e o menu do MacDonald’s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército de McDonald’s dispara hambúrgueres às bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O arco duplo desse M serviu de estandarte durante a recente conquista dos países do Leste da Europa. As filas diante do McDonald’s de Moscou, inaugurado em 1990 com fanfarras, simbolizaram a vitória do ocidente com tanta eloquência quanto o desmoronamento do Muro de Berlim.
Um sinal dos tempos: esta empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. A McDonald’s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama a Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas em 1998, outros empregados da McDonald’s, numa pequena cidade próxima a Vancouver, alcançaram essa conquista, digna do Livro Guinness.
As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu o que o esperanto quis e não pôde. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos em publicidade duplicaram no mundo. Graças a ela, as crianças pobres tomam cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite, e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de consumo obrigatório.
Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor e o televisor tem a palavra. Comprados a prazo, esse animalejo prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos inteiram-se das vantajosas taxas de juros que este ou aquele banco oferece.
Os peritos sabem converter as mercadorias em conjuntos mágicos contra a solidão. As coisas têm atributos humanos: acariciam, acompanham, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o automóvel é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.
As angústias enchem-se atulhando-se de coisas, ou sonhando fazê-lo. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário.
A publicidade não informa acerca do produto que vende, ou raras vezes o faz. Isso é o que menos importa. A sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias: Em quem o senhor quer converter-se comprando esta loção de fazer a barba? O criminólogo Anthony Platt observou que os delitos da rua não são apenas fruto da pobreza extrema. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social do êxito, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Sempre ouvi dizer que o dinheiro não produz a felicidade, mas qualquer espectador pobre de TV tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro produz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.
Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX pôs fim a sete mil anos de vida humana centrada na agricultura desde que apareceram as primeiras culturas, em fins do paleolítico. A população mundial urbaniza-se, os camponeses fazem-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação, e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em toda parte, mas por experiência sabem que atende nas grandes urbes.
As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os que esperam veem passar a vida e morrem a bocejar; nas cidades, a vida ocorre, e chama. Apinhados em tugúrios [casebres], a primeira coisa que descobrem os recém chegados é que o trabalho falta e os braços sobram.
Enquanto nascia o século XIV, frei Giordano da Rivalto pronunciou em Florença um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam “porque as pessoas têm o gosto de juntar-se”. Juntar-se, encontrar-se. Agora, quem se encontra com quem? Encontra-se a esperança com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente se encontra com as coisas?
O mundo inteiro tende a converter-se num grande écran de televisão, onde as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de ônibus e de comboios, que até há pouco eram espaços de encontro entre pessoas, estão agora a converter-se em espaços de exibição comercial.
O shopping center, ou shopping mall, vitrine de todas as vitrines, impõe a sua presença avassaladora. As multidões acorrem, em peregrinação, a este templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que os seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora submete-se ao bombardeio da oferta incessante e extenuante.
A multidão, que sobe e baixa pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago, e para ver e ouvir não é preciso pagar bilhete. Os turistas vindos das povoações do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas bênçãos da felicidade moderna, posam para a foto, junto às marcas internacionais mais famosas, como antes posavam junto à estátua do grande homem na praça.
Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam ao centro. O tradicional passeio do fim de semana no centro da cidade tende a ser substituído pela excursão a estes centros urbanos. Lavados, passados e penteados, vestidos com as suas melhores roupas, os visitantes vêm a uma festa onde não são convidados, mas podem ser observadores. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.
A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.
O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava ali, hoje está aqui, amanhã, quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shopping centers, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo.
Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como esgotam, pouco depois de nascer, as imagens que dispara a metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas a que outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo?
A sociedade de consumo é uma armadilha caça-bobos. Os que têm a alavanca simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta.
A injustiça social não é um erro a corrigir, nem um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.