Somos filhos do mesmo pai?

As migrações, desde a Idade Média, tem afetado toda sorte de indivíduos que procuram proteção dentro dos muros das cidades. O movimento de pessoas e migração dos povos tem sido expressa de várias formas nos séculos XX e XXI; são trabalhadores, refugiados, perseguidos, indivíduos desempregados, buscando melhores condições e colocações no trabalho e na sociedade. Atravessam nações, continentes, culturas e contradições, numa viagem mitigada pela esperança e medo. Embrenham-se numa travessia cara e insegura, para oferecer mão de obra pouco qualificada, para serem considerados classe de “pessoas perigosas”, para serem humilhados e ignorados em muitos destinos.
São milhares de pessoas que movem-se em todas as direções. São migrantes, imigrantes, emigrantes, retirantes, seres errantes. São irmãos, que compartilham a travessia, com as inquietações que afligem toda tragédia errática. A grande maioria castigados já são em seus cotidianos e agora levados pelo destino, mesclam suas carências com esperança, são tangidos pela incompreensão dos que não conseguem enxergar além de seus muros.
“Rocco e seus irmãos” é um belo filme de Luchino Visconti, que narra a saga de uma família Italiana pobre, do campo, que migra para a moderna Milão, buscando condições melhores de vida. Tentam manter-se unidos na assustadora cidade grande, porém não conseguem evitar que o dinheiro fácil, a traição, a ganância seja o palco das tensões que modifica e deteriora os laços familiares entre a mãe viúva e seus quatro filhos.
A família Parondi é abrigada em um cortiço e vive de pequenos bicos, como retirar neve das ruas. Porem, apesar da vida dura e das vicissitudes, os Parondi agarram-se às oportunidades, determinados a vencer. Rocco une-se ao exército e ajuda os irmãos a conseguirem trabalhos na Milão, que está um canteiro de obras, recuperando-se da destruição causada pela Segunda Guerra Mundial. A família Parondi acaba sendo vítima da prostituição, do dinheiro sujo, dos heróis descartáveis de fama instantânea e o desvirtuamento de um dos irmãos, ocasiona a desagregação da família que depende da intervenção de Rocco para salvar o que resta nos escombros sentimentais.
Assim como a família Parondi, retratada no filme de Luchino Visconti, muitas famílias haitianas são abatidas pela tragédia dos relacionamentos que se perdem na distância e no tempo da separação. No longo prazo, entretanto, povos e raças que vivem juntos, compartilhando a mesma economia, inevitavelmente se cruzam e desta forma, as relações que eram apenas de cooperação e economia, tornam-se social e cultural. A maioria dos haitianos vem de pequenas cidades. Cuiaba, parece-lhes grande e bruta e estão cientes que será muito difícil ascender socialmente, trabalhando na construção civil, enfrentando a tensão do idioma, das práticas religiosas, da desconfiança, do preconceito.
Assim, os haitianos, homens marginais vivem seus dilemas. Uns se adaptarão, aprenderão a conhecer seus direitos, cumprir com seus deveres, outros desistirão e farão de volta aquele caminho que parecia não ter volta. Nada foi feito para facilitar a vida dos que escolheram ficar em Cuiabá, nenhuma política pública voltada as necessidades dos haitianos foi implantada.
Talvez não falte trabalho, se continuarem não importando-se em ignorar suas ambições, se continuarem levantando paredes falando quatro idiomas. Crescer? O migrante sabe que é inevitável, embora indesejável, que aceite qualquer ocupação nesse estágio transitório. Só que o que é transitório não pode levar tanto tempo.
Entretanto não se vive apenas de emprego e estamos falando da vida em geral, da aceitação, da vida social, do amparo legal, das oportunidades de crescer, de trazer as famílias, de se firmarem como indivíduos na sociedade cuiabana e mato-grossense. Nessa complexa teia é preciso trabalhar políticas públicas que contemplem os estrangeiros, os estranhos, os diferentes; no sentido de facilitar a assimilação, a integração dos imigrantes com o povo local. Creio que os governos devem proporcionar aos migrantes a efetivação de um sistema de igualdade de direitos civis, políticos e sociais, dentro dos padrões oferecidos aos grupos nacionais.
Se somos, como muitos creem filhos do mesmo pai, não devemos ter fronteiras a nos separar ou a nos jogar um contra o outro. É disso que falo, de recriar laços solidários entre os povos e essa questão do acolhimento aos migrantes, remete-me a uma frase de Dom Hélder Câmara, “Quando ajudou os pobres dizem que sou santo, quando falo das causas das injustiças, dizem que sou comunista.”