Canto de amor

Eu vi-a e minha alma antes de vê-la

Sonhara-a linda como agora a vi;

Nos puros olhos e na face bela,

Dos meus sonhos a virgem conheci.

Era a mesma expressão, o mesmo rosto,

Os mesmos olhos só nadando em luz,

E uns doces longes, como dum desgosto,

Toldando a fronte que de amor seduz!

E seu talhe era o mesmo, esbelto, airoso

Como a palmeira que se ergue ao ar,

Como a tulipa ao pôr-do-sol saudoso,

Mole vergando à viração do mar.

Dera a mesma visão que eu dantes via,

Quando a minha alma transbordava em fé;

E nesta eu creio como na outra eu cria,

Porque é a mesma visão, bem sei que é!

No silêncio da noite a virgem vinha

Soltas as tranças junto a mim dormir;

E era bela, meu Deus, assim sozinha

No seu sono d’infante inda a sorrir!…

Vi-a e não vi-a! Foi num só segundo

Tal como a brisa ao perpassar na flor,

Mas nesse instante resumi um mundo

De sonhos de ouro e de encanto amor.

O seu olhar não me cobriu d’afago,

E minha imagem nem sequer guardou,

Qual se reflete sobre a flor dum lago

A branca nuvem que no céu passou.

A sua vista espairecendo vaga,

Quase indolente, não me viu, ai, não!

Mas eu que sinto tão profunda a chaga

Ainda a vejo como a vi então.

Que rosto d’anjo, qual estátua antiga

No altar erguida, já caído o véu!

Que olhar de fogo, que a paixão instiga!

Que níveo colo prometendo um céu.

Vi-a e amei-a, que a minha alma ardente

Em longos sonhos s sonhara assim;

O ideal sublime, que eu criei na mente,

Que em vão buscava e que encontrei por fim.

 

Pra ti, formosa, o meu sonhar de louco

E o Dom fatal, que desde o berço é mea;

Mas se os cantos da lira achares pouco,

Pede-me a vida, porque tudo é teu.

Se queres culto – como um crente adoro,

Se preito queres – eu te caio aos pés,

Se rires – rio, se chorares – choro,

E bebo o pranto que banhar-te a tez.

Dá-me em teus lábios um sorrir fagueiro,

E desses olhos um volver, um só;

E verás que meu estro, hoje rasteiro,

Cantando amores se erguerá do pó!

Vem reclinar-te, como a flor pendida,

Sobre este peito cuja voz calei:

Pede-me um beijo… e tu terás, querida,

Toda a paixão que para ti guardei.

Do morto peito vem turbar a calma,

Virgem, terás o que ninguém te dá;

Em delírios d’amor dou-te a minha alma,

Na terra, a vida, a eternidade – lá!

Se tu, oh linda, em chama igual te abrasas,

Oh! Não me tardes, não tardes, – vem!

Da fantasia nas douradas asas

Nós viveremos noutro mundo – além!

De belos sonhos nosso amor povoo,

Vida bebendo nos olhares teus;

E como a garça que levanta o vôo,

Minha alma em hinos falará com Deus!

Juntas, unidas num estreito abraço,

As nossas almas uma só serão;

E a fronte enferma sobre o teu regaço

Criará poemas d’imortal paixão!

Oh! Vem, formosa, meu amor é santo,

É grande e belo como é grande o mar.

E doce e triste como d’harpa um canto

Na corda extrema que já vai quebrar!

Oh! Vem depressa, minha vida foge…

Sou como o lírio que já murcho cai!

Ampara o lírio que inda é tempo hoje!

Orvalha o lírio que morrendo vai!…

Cassimiro de Abreu

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