Olhar indiferente

Os haitianos migram sistematicamente desde o estabelecimento dos governos de Jean-Claude Duvalier, o Papa Doc e depois do filho Baby Doc, para fugir das políticas econômicas recessivas e da opressão política praticada pela família Doc, conhecida pela ganância descomunal, que secou os cofres públicos do já empobrecido Haiti. O país além seu sistema político, é administrado também pela   Minustah, Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti, que tem sido muito questionada. Pessoas relatam que a presença da Minustah dificulta o processo de democratização do país.

Em 2010 aconteceu o terremoto e inesperadamente, o Brasil virou destino migratório. Os haitianos começaram a entrar no Brasil pelas fronteiras no Norte do país, principalmente pelo Acre e não param de chegar, conforme constatei sábado passado, durante uma reunião. Nem todos os haitianos que têm chegado ao Brasil estavam vivendo no Haiti. Parte do grupo já vivia como imigrante em outros países, como a República Dominicana, Panamá, Bahamas e Estados Unidos. Dizem que a opção pelo Brasil deu-se, sobretudo devido a crescente dificuldade para migrar para países europeus e para os Estados Unidos, onde adquirir documentos para se estabelecer é muito difícil e também porque a mão de obra asiática barata tem suprido a demanda.

O Centro de Pastoral para Migrante é o lugar do acolhimento na chegada, porque depois eles se mudam para outros locais, dividem casas entre amigos. Apontam a comunicação como a mais difícil barreira a transpor, o ponto que dificulta maior interação dos haitianos com a comunidade local, tanto no trabalho, como em atividades sociais. No Haiti, a língua oficial é o francês, mas a maioria da população fala o crioulo haitiano ou créole. Muitos também falam espanhol e  inglês.

Nas entrevistas que tenho feito, são unânimes em reforçar que o espaço social dos haitianos está limitado ao Centro de Pastoral para Migrantes, que oferece acomodação, comida, espaço para reuniões, além de apoio e encaminhamento para que consigam trabalho. Os haitianos estão vivendo entre si. Não tem havido em nível algum, ação voltada para a inserção deles na sociedade cuiabana. O Cuiabano ainda não dignou-se a dar-lhes importância.

Os haitianos que migraram para Cuiabá vivem uma relação em certo grau ainda simbiótica com a comunidade. Carregam suas tradições e culturas, esperando que a qualquer momento os muros se rompam e eles possam participar mais efetivamente da vida social e cultural de Cuiabá. Embora não estejam, por imposição segregados a um espaço físico, a condição econômica desfavorável encarregou-se de fazê-lo. Há vários mini Haitis espalhados pela cidade. E o sentimento predominante entre os haitianos é assim expressado: “Mwen pati kite Ayiti, men Ayiti pa kite’m” (Parti, deixei o Haiti, mas o Haiti não me deixa).

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