Quem não está em risco?

“Este mundo está cheio de monstros. Há racismo, homofobia, ódio étnico, ódio de classe, ódio político e ódio religioso. Nunca devemos pensar que o inconcebível não acontece – acontece com frequência e atrocidades estão acontecendo agora e nós devemos querer saber não apenas quando esse ódio terminará, mas como isso começou”. Trechos do discurso proferido por Steven Spielberg na Universidade de Harvard, onde recebeu o título de doutor em Artes.

Esse discurso serve às sociedades que não concebem a educação como um bem maior, como talvez o único mecanismo que pode coibir as barbáries que estão ocorrendo de forma sistêmica e repetitiva no Brasil. 405 mulheres por dia ou 1 a cada 4 minutos são vítimas de violência atendidas pelo sistema público de saúde – SUS.

Na rede particular, a maioria dos casos não são reportados às autoridades policiais, embora saibamos que casos de estupros não se limitam a uma classe econômica ou outra; há denúncias por todo o país.

A cidade do Rio de Janeiro tem registrado altíssima taxa de violência sexual. Foram 4.725 estupros em 2014, uma média de 13 por dia. Ainda assim, o governo segue soberbo preparando a cidade para as Olimpíadas, como se uma força telúrica pudesse baixar sob a cidade e proteger a sua população.

Não se deve culpar a nação pelo crime bárbaro cometido por 33 marginais contra a garota carioca de 16 anos, até porque a maioria dos brasileiros está indignada e demonstra veemente repúdio ao estupro sofrido pela jovem; mas tampouco podemos seguir adiante sem um debate amplo e sério sobre como coibir a violência que vitimou também agarota de Bom Jesus, no Piauí, que foi estuprada, amarrada e amordaçada; as quatro amigas que foram estupradas e jogadas num precipício com mais de 10 metros de altura; sobre os casos ocorridos em Cuiabá e em todo o Brasil.

Desde 1993 a Conferência das Nações Unidas sobre Direitos Humanos reconhece formalmente a violência contra as mulheres como uma violação aos direitos humanos. Desde então, os governos e as organizações da sociedade civil têm se reunido, alterado leis visando humanizar o atendimento; tornar as penas mais severas, porém na prática, são medidas adotadas para os momentos pós violência.

Reconhecer que a violência contra a mulher permeia todos os setores da sociedade,não basta para erradicar o mal, assim como também não basta determinar que os estados priorizem a criação de delegacias especializadas para o atendimento às vítimas e para investigar das ações criminosas.

Visivelmente chocado com o estupro coletivo que ganhou a mídia, o presidente Michel Temer convocou uma reunião de emergência e determinou que a Policia Federal entre também na rede de prevenção e punição de crimes contra mulheres. Lamentavelmente, o ministro da educação, que pela transversalidade do tema, deveria ter-se envolvido na discussão, ocupava-se de receber o ator Alexandre Frota. Sim! Aquele que teatralmente, cinicamente narrou, num programa ao vivo na TV, como estuprou uma pessoa.

Pois bem, quando Steven Spielberg disse que atrocidades estão acontecendo agora, ele não se referia a nenhum de seus filmes. Ele falava da vida real. Ele falava do Brasil.

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