Bagagens desnecessárias

Tenho amigos indianos que ajudam-me a interpretar textos sobre Budismo. Estudamos em inglês através de um site que compartilhamos, aos sábados bem cedinho devido ao fuso horário. Mona é imprescindível para meus estudos e meu propósito de viver e morrer sem sofrimentos desnecessários.

Estávamos lendo um trecho do belo “Livro Tibetano de Viver e Morrer”, quando Mona falou sobre o sonho de “todos” os indianos: morrer em Varanasi, a cidade mais sagrada da índia, enorme e localizada as margens do mais sagrado ainda, Rio Ganges.

Kashi Labh Mukti Bhawan, fundada em 1908, é uma das três casas na cidade onde as pessoas se hospedam para esperar a morte. Fazendeiros ricos, despem-se de suas fortunas e hospedam-se lado a lado de pobres indigentes que também aguardam pacientemente a hora de partir.

É um lugar, segundo Mona, onde não entra-se com bagagens materiais e o propósito da casa é também livrar as pessoas das bagagens e dos sobrepesos emocionais ou espirituais que carregam. Há paz, silêncio e preces. Os amigos espirituais leem poemas de amor, executam musicas e ficam em volta repetindo mantras, inspirando um ambiente sem pavores.

Nos momentos finais, famílias são chamadas para resolver conflitos, para perdoar e serem perdoados e depois, velar o morto, que quase sempre parte antes de duas semanas na casa.

Certa vez, ao entrevistar o administrador da casa, Mona, ouviu que as pessoas deveriam deixar pelos caminhos as bagagens desnecessárias, pois a vida é um ato de escalar montanhas e as ilusões, os arrependimentos e amarguras que carregamos afeta a escalada e influência todo o ambiente por onde transitamos.

Porém, a maioria das pessoas vai acumulando bagagem material e espiritual e no final não sabem como livrar-se delas e vão carregando o peso concentrando-se apenas nos aspectos negativos da vida.

Ensina que devemos agir sobre o que realmente importa, que devemos vigiar nossas condutas e trabalhar no sentido de sermos justos, compassivos, verdadeiros e honestos cada vez que somos desafiados.

E se é de viver em paz que estamos falando, precisamos reduzir os conflitos que criamos em nossas próprias mentes. É fundamental compreender porque as pessoas maltratam umas as outras, por que muitos caminhos já foram tentados para trazer a paz ao mundo; criaram organizações, assinaram tratados em reuniões internacionais intermináveis, mas ainda há dificuldades e desacordos. Ainda assim, a ganância pelo poder pesa sobre os ombros dos homens e o velho ódio joga um contra o outro.

Não há de mudar as leis ou a governança; a verdadeira mudança tem que acontecer dentro das pessoas, como um compromisso de não se dobrar ao peso do desespero diante do inevitável e lutar com determinação contra a opressão causada pelas incompatibilidades das ideologias, das crenças e dos comportamentos inadequados.

 

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