Senso de urgência

Anúncios sugerem que devemos sempre escolher o caminho da felicidade; que devemos nos amar antes de amar os outros; dar a volta por cima e recomeçar dos escombros; escolher um estilo de vida saudável, exemplificado pela imagem de uma bela mulher de branco, em pose de yoga numa praia. Como? Alguém em sã consciência optaria por um caminho oposto à felicidade?

A ideologia da urgência é o sintoma de uma vida vivida sem perder tempo com coisas de pouca importância. Significa redirecionar energia para gastar com o que dá sentido à vida; significa parar de sonhar, sonhar e sonhar com o que não se tem, com o que pode-se levar anos para conseguir e não viver para desfrutar. O que é importante deve ser também urgente para nós.

Estado de urgência não significa arroubos de precipitação. E talvez, por não compreender que a impermanência permeia todos os aspectos da vida, nos lançamos em atitudes cegas, numa luta de caráter implacável e o que se segue é a corrida para se ter qualquer chance no futuro. Mas se falamos em impermanência, pode nem haver futuro.

A urgência de se viver não deve nos empurrar para carreiras lucrativas, que não sejam igualmente fontes de prazer. Ao fecharmos os olhos, não podemos estar receosos de adentrar os períodos inevitáveis da rebeldia, da transformação, do comprometimento, do envelhecimento e da morte. Os ciclos se cumprem, quer você viva com assombro pesar do passar das horas, engajando-se em várias direções ou não.

Os rigores do trabalho, da falta de tempo, a precariedade da vida cotidiana, consumida pela incerteza, levam-nos a um esforço solitário para sobreviver, respondendo às expectativas que nascem nos outros. Tudo é feito num desatino que justifica-se pela busca desesperada pela realização pessoal. Isto é absolutamente perturbador, até porque sabemos que não temos controle exato pelo desenrolar de nossas próprias vidas.

Avilta-nos a ideia de que temos sido coisa alguma em função da própria vontade e sim, em função das oportunidades que temos tido. Entretanto, a mera sobrevivência não pode ser o único norte a justificar a vida.

Devemos estar cientes e aceitar que nosso tempo não é para ser consumido ignorando os assuntos problemáticos, perdendo-nos em distrações artificiais.

É fina a linha que define o estado de urgência e os momentos frenéticos que passamos a andar em círculos, estressados, ansiosos, irritados e doentes. Viver com significativo senso de urgência é redimensionar a vida, mudar as prioridades, estar firme no presente e não tomar nada como garantido.

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