Deixa que gritem

Não devemos nunca subestimar a capacidade do cidadão brasileiro em criar situações ou servir-se das que favoreçam apupos, xingamentos, fora esta, fora este, aplausos demorados e vaias retumbantes. O povo verbaliza mesmo o que carrega dentro de si.

Mas eis que surge uma absurda liminar proibindo manifestações políticas nas arquibancadas dos jogos Olímpicos. Derrubada a liminar, fica a bronca de alguns técnicos que pretendiam que seus pupilos se apresentassem no mais absoluto silêncio.

Ora, levou-se tempo, investiu-se absurdamente em propaganda para acender no brasileiro a chama olímpica, para motivar torcedores a adquirirem ingressos a preços salgados. Agora querem calar o torcedor que comparece aos jogos. Deixa o povo gritar em paz!

Não podemos ignorar que o Brasil está passando por turbulência política e econômica e que os gastos necessários para fazer acontecer os jogos podem causar controvérsias, então não adianta não querer politizar os jogos. Desde o início, da escolha à preparação da cidade do Rio de Janeiro para os jogos olímpicos, tudo é política.

A burocracia e a falta de apoio que foram considerados os principais entraves para a conclusão das obras também é fruto da ação política. Porém, o Rio de Janeiro, no contexto de sua expressividade política, foi vencendo as dificuldades, sobretudo a falta de credibilidade para entreter o mundo e levantar o ânimo da nação sucumbida pelos escândalos políticos recentes. Para completar veio a crise do doping dos atletas da delegação russa, a água que teimava em ficar verde.

Na Arena Olímpica o comportamento dos torcedores é um show. O Brasil, como um país com grandes comunidades de migrantes, aplaudiu gigantemente o judoca refugiado Popole, fez “silêncio olímpico” para as braçadas de Phelps conquistar o ouro. Os atletas politizados estão dando seus recados.

A nadadora brasileira Joana Maranhão utilizou-se da mídia para dar uma bronca nos seguidores mal-educados que a xingaram e a também nadadora americana Simone Manuel, criticou, em entrevista, a brutalidade da polícia americana contra os negros no seu país. A delegação israelense reclamou ao Comitê Internacional que está sendo alvo de hostilidades por atletas sauditas e libaneses. Enfim é isso. Ninguém tem que ficar quieto.

Os jogos de agosto são localizados no Rio de Janeiro, mesmo assim a chiadeira vem de toda parte. Uma grande parte do povo brasileiro não sentiu-se convidada para a grande festa e por esta razão despreza os jogos. Mas deixemos cada um no seu quadrado.

Tem razão quem encanta-se com a ginástica artística de Simone Biles, os loucos para ver o jamaicano UsainBolt nos 100 mts masculino; mas tem razão também quem boicota os jogos pela certeza de que a realização deles trará problemas financeiros para a linda cidade do Rio, que tirará o foco das questões sérias que temos que resolver, como a votação do impeachment.

Apenas lembrando que, antes da Copa do Mundo de 2014, o Brasil foi sacudido de Norte a Sul por manifestações contra os investimentos feitos em estádios e infraestrutura em detrimento da ampliação dos recursos para a saúde pública e educação.

Dois anos depois, a maioria dos problemas persistem e igualmente, as mesmas promessas de reformas são prometidas para breve. E breve, as vezes é um tempo que demora muito a chegar, ou chega nunca.

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