Mãos vazias

Para quem já tinha tão pouco, sentir a fúria do vento e da água levando tudo foi devastador. O furacão Matthew, uma tempestade de categoria assustadora atingiu o Haiti, destelhando casas, arrasando a plantação e tombando cerca de 900 pessoas ao chão. Uma nova onda de pobreza extrema, de fome e doenças se instala no pequeno país caribenho, que ainda se encontra longe de recuperar-se do terremoto que arrasou o país em janeiro de 2010.

É preciso olhar para a história, ler relatos das lutas para entender o que prende e sufoca o desenvolvimento da primeira república negra da América a tornar-se independente. Também conhecido como a Pérola Negra do Caribe no período colonial, o Haiti fez história ao renascer livre de um levante de escravos. Estudei o Haiti e o migrante haitiano por três anos e ainda tento entender como o Haiti tem sobrevivido às constantes ameaças à sua soberania, devido a sua localização estratégica para os Estados Unidos; situa-se entre a República Dominicana e Cuba e entre uma coisa e outra já se vão 212 anos de muita provação.

O país tem vivido crises cíclicas. As catástrofes não são acidentais. O Haiti localiza-se no caminho dos furações, terremotos e tempestades tropicais. Além disso, tem sido alvo de sucessivas intervenções externas, atravessou longos períodos de ditaduras. A instabilidade política é constante desde que o país foi conquistado pelos espanhóis, depois tomado pela França, que importou escravos da África para trabalhar nas plantações de cana de açúcar. Num dado momento, em 1804 a população escrava percebeu que superava a população de pessoas livres e esse fato ocasionou um levante de escravos contra as tropas francesas e declararam a independência.

Porém, ao longo dos anos tem sido governado por juntas provisórias e ditadores, como o médico François Duvalier, o Papa Doc, que emergiu no cenário da sucessão,apoiado pelos Estados Unidos e elegeu-se presidente pelo voto em 1957. Ao assumir o poder, instaurou uma ditadura personalista, sangrenta e declarou-se presidente vitalício. Ao morrer foi substituído por seu filho, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, cujo governo envolveu-se em sucessivos episódios de violência entre milícias e desrespeito aos direitos humanos. Denunciado, Baby Doc caiu.

Ao eleger o ex sacerdote Jean-Bertrand Aristide, o haitiano apostou na paz duradoura, mas Aristide foi deposto por um golpe de estado e a partir da queda de Aristide os enfrentamentos políticos e sociais cresceram, agravando a crise econômica e social. A deposição de Aristide motivou um verdadeiro êxodo de haitianos para os Estados Unidos.

O Brasil relaciona-se diplomaticamente com o Haiti desde 1928. É parte importante na direção da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH). É, atualmente o único país do mundo que adota política migratória especial de concessão de vistos de caráter humanitário para os migrantes haitianos, considerando a vulnerabilidade do cidadão haitiano diante de cada tragédia experimentada pelo Haiti.

Em Jeremie, a principal cidade do departamento de Grand’Anse, o furacão causou a destruição de cerca de 80% das casas. E um dos moradores relata: “De todas as informações que chegam, a situação é pior do que esperávamos. É uma situação muito grave. Não tenho nada, não sobrou nada. Minhas mãos estão vazias”.

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