Distrações

Dias atrás eu escrevi: “Já é dezembro”, depois repreendi a mim mesma entendendo ser falha grave não haver percebido o passar do tempo. Onde andei tão distraída? O que ocupou-me de tal forma a mente, que segui os dias sem reparar-lhes? Nunca mais há de ser assim. Nunca mais hei de espantar-me com o passar do tempo, com a natural chegada de dezembro.

Por mais que a vida seja imprevisível, que o caos seja registrado em quase todas as partes, por mais que tenhamos sido remetidos a viver emoções variadas, em estados mentais extremamente desafiadores, o passar do tempo, porém, não pode ser furtivo, tampouco a mente pode estar tão absorta em devaneios ou realidades que prendem e cegam. Um dia após o outro, as velas precisam ser ajustadas, para que o barco siga em paz e não seja vitimado pelas inesperadas turbulências das águas.

Dezembro chega sob o medo ou tristeza, frustração, firmeza, quietude interior, almas restauradas, assim como sentimentos que vem e passam, instabilidade, impermanência.E não é hora de sentar-me confortável entre cânticos e decorações para inventariar perdas e ganhos. Um ano é um tempo tão longo para ser mensurado apenas por ações concretas. E o quanto sonhei? E o rosário que desfiei pela paz, pela liberdade, pela natureza, pela segurança, por melhor salário, pela saúde, pelo fim da corrupção, pela defesa dos valores que acredito?

Dezembro chega sem assombros. Traidores, infiéis, delatores, semi deuses, anjos, arcanjos também sobrevivem o passar do ano. Assim, como restos a pagar, passam de um ano para outro, sorrateiros, vaidosos, inflados por um ego implacável. De janeiro a dezembro fomos atraídos para debates intensos, onde tivemos que nos valer da liberdade de escolher, de criticar, omitir, esconder, votar e eleger.

Um ano onde a palavra democracia e liberdade foram exaustivamente usadas, manipuladas e até mal tratadas. Impeachment, governo novo, cassação, eleição roubaram nossas atenções, limitaram a percepção de que fomos vendados e arrastados por caminhos que bem conhecemos. Não há grandes novidades nesse e o cansaço toma conta de quem viveu o ano, mesmo não estando intensamente atenta ao passar dos dias.

O descuido e distração, pelos quais culpei-meinicialmente podem tersalvado-me de enveredar por atritos desnecessários, concessões indesejadas, para sanar minhas próprias necessidades.Se falei demais, devo ter falhado no ato de ouvir, mas não quis percorrer segura o caminho do meio. Levei em consideração muitas ideias contraproducentes, inacabadas, mas quis discernir o que aceito e o rejeito, em termos éticos.

O texto é sobre não deixar-se distrair por paixões ou emoções, não apegar-se a um viver carregado de rotina que atrapalha perceber o passar dos dias. Sim, chegou dezembro! Como todos, comprei coisas que não usei, culpei-me por não estar constantemente com amigos que verdadeiramente amo. Interrompi muito do meu viver, com imagens, mensagens, superficialidades. Esse tempo não recupero mais!

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