Temporalidade, tecnologia e amor

Sabe quando a temporalidade do mundo contemporâneo, a experiência do tempo em si, parece estar derretendo dentro das linhas outrora sólidas de linearidade? Sabe, quando embarcamos numa viagem exploratória do mundo online e a vida se torna mais apressada, cheia de atividades e nós respondemos com mais impaciência, ansiedade e distração?

Sabe quando uma crescente inquietação pós-moderna e o tempo marcado pelo consumismo, liberdade, amor, tecnologia exercem forte e tirânica pressão nas nossas vidas? Sabe quando a relação do indivíduo consigo mesmo e com os outros, adquire um conceito novo e tudo baseia-se numa verdadeira metamorfose?

São consumidores consumindo e sendo consumidos no auge do processo de globalização, que atinge agora uma das fases mais agudas e extremas. Pois bem, na convergência entre identidade e consumo reside uma das principais características da nossa época.
Sabe quando você espera que seu celular esteja sempre tocando, que mensagens brilhem na tela para que se confirme que você tem um turbilhão de caminhos por onde deslizar? Não importa que as conexões tenham vidas curtas, que sejam de uma fragilidade irreparável. Há sempre novas promessas de relacionamentos para serem testadas.

Sabe quando o excesso de consumo desagrega nossas relações e as tornam fracas e fragmentadas? Mas é esta a chave da nossa felicidade!  Por incrível que pareça, estamos exibindo e compartilhando o retrato das experiências que dependem da imaginação mais do que da coragem, para quebrar a ordem e experimentar caminhos nunca antes vislumbrados.

Pois bem, toda essa experiência abrangente de viver o imediatismo, que reduz a durabilidade dos vínculos, o excessivo amor a si mesmo e a auto-imagem, a super exposição à luz dos efeitos da globalização, foi chamada de “modernidade líquida”, por Zygmunt Bauman, o adorável e sensível sociólogo polonês, um dos melhores do mundo e o melhor interprete do nosso tempo, que nos deixou semana passada, aos 91 anos de idade.

Ele estudou por mais de uma década e meia o fluxo da modernidade, o afrouxamento dos laços sociais, a reposição de pessoas nos relacionamentos, como se fossem peças necessárias para manter a máquina humana funcionando. A modernidade líquida é, portanto, a concepção de Bauman de como o mundo hoje nega os relacionamentos duradouros e sólidos que lutou tanto para criar e manter.

Não é necessariamente uma visão otimista da modernidade, porque a inquietação da vida, os recomeços constantes, o desapego as estruturas de relacionamentos confortáveis, a falta de preocupação com o outro, o exagerado apego a própria imagem, constatado nas sessões incessantes de fotos, através das selfies, onde estrelamos nossos próprios filmes e  nos dá o senso de domínio do nosso mundo e dos que nos cercam.

E por amigos, atendem todos que meramente foram adicionados às nossas redes sociais. E o amor? Não, não deve caber amor nesse universo moderno e líquido, diz Bauman num alerta, e acrescenta: “porque amor é, ou ameaça ser, o antídoto contra o narcisismo”.

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