Ubuntu

Viajar para a África do Sul era sonho antigo, alimentado pelos laços familiares que nos une a uma família sul africana, com a qual mantemos um relacionamento impressionantemente forte, como se parentes fôssemos. Viajamos de Cuiabá em cinco pessoas, minha filha partiu da Austrália para Pretoria em grupo de quatro pessoas, e lá cá estamos nós vivendo uma experiência absolutamente indescritível nesse país maravilhoso, sendo envolvidos por certo sentimento de pertencimento.

A família mora em Pretoria, a Capital do país,  uma cidade calma, totalmente verde, situada entre vales e pequenas montanhas, com cerca de 800 mil habitantes, mas é constantemente sacudida pela proximidade com a efervescente Joanesburgo, um lugar que exala um sentimento permanente de comunidade, com seus subúrbios que mais parecem pequenas florestas verdes, além de ser o centro financeiro e de tensão política do país.

Quem quer ser bem votado nas eleições trata de marcar presença nas sinuosas ruas de Joanesburgo. As duas cidades são intrinsecamente ligadas  e o país está unido num sentimento verdadeiro de Ubuntu – senso moral de comunidade, de ser o que quer que seja, juntos.

Pois bem, em Joanesburgo a tensão e emoção convivem lado a lado numa simbiose para contar, recontar, impressionar e resguardar a história da impressionante luta contra a segregação racial, que eles chamam de apartheid. Na própria entrada do Museu do Apartheid, leva-se um susto. Aleatoriamente no ingresso estão escritas as palavras “não branco e branco”. Ao receber o ingresso tem-se que entrar pelo portão indicado.

Ou seja, as famílias são separadas para que momentaneamente possam perceber e dimensionar o que representa a separação das pessoas baseadas nas suas raças. Os vídeos, dezenas e exibidos simultaneamente, vão nos fazendo entrar no universo tenebroso do preconceito racial levado às últimas consequências.

Nelson Mandela é indiscutivelmente um capítulo à parte na história da África do Sul. Metade do que se vê e ouve sobre a luta contra regime do Apartheid é creditado à coragem impressionante de Mandela e aos métodos de não violência pregados e utilizados por ele, para por fim na história das vidas separadas de brancos e negros. Não é sem razão que após cumprir sentença de 27 anos na prisão, elegeu-se presidente do primeiro governo não racista e seu rosto hoje estampa todas as notas do dinheiro local.

As imagens expostas no museu são cortantes, a ambientação dos fatos chocam muito, como a construção das celas solitárias e espaço que retrata o local dos enforcamentos. Uma sala cheia de cordas penduradas no teto, caindo sobre quem adentra o espaço. Com o olhar ansioso e fixo nas paredes, encontrei o que procurava. A história de um movimento de revolta dos negros intelectuais, chamado Consciência Negra (Black Consciousness Movement), liderado pelo médico ativista Steve Biko, que mobilizava multidão para as manifestações contra os abusos e assassinatos e acabou sendo assassinado na prisão em 1977.

E pensar que tudo isso faz parte da historia recente da África do Sul, que homenageou Biko, emprestando seu nome ao maior hospital público de Pretoria. País adentro,  cerca de 400 km de Pretoria, no sentido de Mauputo, Capital de Moçambique, em duas vans lotadas adentramos às savanas para visitar o Parque Nacional de Kruger,  a maior reserva de vida selvagem da África, para tentarmos a sorte de contemplar os exuberantes animais que habitam o parque, mantido pelo governo.

Hospedados por três dias no meio das savanas, saíamos as 4 da manhã para vê-los despertando. E eles iam aparecendo, leoas, girafas, famílias inteiras de elefantes, zebras, rinocerontes, hipopótamos, crocodilos, hienas, impala e tantos outros. Os elefantes desfilam em famílias inteiras na frente dos carros, as girafas, não sei porque, transmitam certo romantismo, molengas, nos espiavam sem desconfiança alguma. O guia nos alerta quanto à ferocidade dos hipopótamos. São extremamente agressivos. Os leões não aparecem frequentemente. As leoas vão  à caça todos os dias. Foi uma sensação poderosa vê-las tão próximas.

Chegamos na Cidade do Cabo, distante 1,3 mil km da Capital. A visão esperada das belas praias de águas geladas e da “Table Mountain” logo surgem deslumbrantes. Mas o propósito é outro. Vamos visitar a Robben Island, uma ilha que abrigou o presídio de segurança máxima entre o século XVII e século XX, e tornou-se um símbolo do triunfo humano sobre as injustiças e o da liberdade sobre a opressão.

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