Como as pessoas se tornam monstros?

Esta pergunta tem sido feita amiúde e intermitente por filósofos, psicólogos e sociólogos por séculos. É ficção e simplismo pensar que pessoas privilegiadas estão impermeáveis do lado do bem e os outros, do lado do mal.

A linha entre o bem e o mal é, para todos os efeitos, permeável e móvel, no sentido que pessoas boas podem ser seduzidas a exercer o mal e pessoas ruins podem se regenerar.

Teoricamente, não somos nem bons nem maus, mas uma complexa personalidade que age de acordo com a circunstância. É infinita a capacidade da mente humana de se tornar o que quer que seja: gentil ou cruel, compassivo ou indiferente, criativo ou destrutivo.

Isso define o contexto para a compreensão dos seres humanos que são transformados de pessoas comuns e boas em perpetradores do mal. Segundo os estudos e a tese do Dr. Stanley Milgram,1963 e transformada no filme “O Experimento”, de 2015, o mal é encomendado intencionalmente por quem tem poder e praticado pelos que devotam obediência cega à autoridade.

O estudo comprova ainda que o sistema cria as situações que corrompem os indivíduos e o sistema é a estrutura legal, política, econômica e culturalonde o poder fabrica os indivíduos ruins ou torna as pessoas comuns em agentes destrutivos, quando estes não possuem recursos necessários para resistir a sedução da autoridade.

O estudo de campo dividiu pessoas em 16 grupos em diferentes ambientes de trabalho. Um voluntário apresentava-se para participar da experiência, sem saber que seria avaliado na sua capacidade de obedecer irrefletidamente as ordens. Era colocado no comando de uma falsa máquina de dar choques, com fios ligados a um ator contratado, que fingia-se de voluntário.

O voluntário era instruído pela autoridade e dava uma tarefa para o ator e se este acertava, ganhava prêmio em dinheiro, se errava, a autoridade ordenava que apertasse o botão de choque.  O mal começava com o botão de 15 volts, o segundo erro mais 15 volts até o último de 450 volts. Mesmo crendo que os choques eram verdadeiros, os voluntários, que trabalhavam próximos da autoridade que lhe dava as ordens, poucas vezes se recusavam a cumprí-la.

O estudo foi apresentado no viés da mão pesada das autoridades institucionais e privadas, para influenciar o comportamento do indivíduo e o resultado chocou a comunidade dos pesquisadores americanos, pois poucas pessoas se rebelaram a cumprir a ordem de dar o choque e nenhuma diferença foi constatada entre homens e mulheres.

Portanto, Milgram quantificou o mal como a propensão das pessoas a obedecer cegamente à autoridade, a ir até o fim cumprindo ordens, mesmo quando estas podem proporcionar dor.

A obediência cega à autoridade começa com a desumanização do outro, com o conformismo, falta de senso crítico ao cumprimento das regras estabelecidas e pela tolerância passiva ao mal ou indiferença. Transportando a Experiência de Milgram para os males praticados em nome de autoridades brasileiras, que culminaram com a operação Lava Jato, por exemplo, que completa três anos de investigações, prisões e delações, não há negar que o mal está impregnado no sistema e serve-se das autoridades políticas e empresariais vaidosas e gananciosas que exercem o poder com ilimitada ascendência sobre as pessoas comuns.

Visceral

Não há nuances sutis para quem tem a tendência de ser visceral, ou seja, colocar todos os órgãos internos do corpo a serviço da emoção. Ao ler um artigo, estendo a leitura aos comentários anotados abaixo e aí sim, é possível ver como as pessoas se metem na vida alheia com munição pesada de conservadorismo, repreensão e julgamentos precipitados.

Em muitos casos, a própria mídia, desde o título da matéria, já induz o cidadão ao exagero de direcionar críticas e xingamentos não somente aos que se excedem na exposição da vida íntima.

Dois fatos noticiados esta semana receberam incontáveis comentários ignorantes e desrespeitosos endereçados a desembargadores. Ao expor a vida íntima, mais precisamente o fim de um relacionamento conturbado nas redes sociais, um jovem antes de ter o próprio nome mencionado, teve o do pai, porque este, uma autoridade do Judiciário, renderia manchete. Dito e feito!

Rendeu também um sem número de intervenções viscerais de discurso de ódio contra o relacionamento dos rapazes e palavras grosseiras, no sentido de atingir os familiares. A mídia equivocada, apressou-se em divulgar o nome do pai de um dos rapazes desde o título da matéria, embora seja o jovem maior de idade, como se houvera um pai, desembargador ou não,  ser prejudicado por ter um filho homossexual.

O outro fato noticiado foi sobre o reconhecimento pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso, ao direito de receber metade do valor deixado em pensão por morte a uma senhora que teve relacionamento duradouro e comprovado por mais de 20 anos com um homem casado.

No apontamento são expostas as razões pelas quais o despacho do desembargador enveredou pelo acolhimento da pessoa na condição de parte de uma estrutura familiar paralela, considerando que o Poder Judiciário não deve ignorar a existência dos relacionamentos informais, baseados no afeto.

Esse entendimento que mereceu uma página no conceituado jornal Estadão, desagradou a família tradicional, que vive sob o signo do princípio da monogamia. Cidadãos que sequer foram afetados pela decisão proferiram xingamentos viscerais até a terceira geração da mulher beneficiada e do desembargador.

Estamos viscerais no sentido negativo da palavra. Estamos usando toda a força da alma, dos pulmões e até dos órgãos reprodutores, para odiar, para denegrir os valores dos outros, as crenças, a liberdade, o gênero. A humilhação e o ataque são características dos seres viscerais. O ataque pessoal e crível é suficiente para induzir uma pessoa a vergonha e a humilhação existencial.

Lamentavelmente nossas estratégias de tratar as situações e as pessoas com respeito tem sido estritamente limitadas pela ânsia de nos posicionarmos diante do que não conhecemos e não fomos chamados a opinar. Olhando mais profundamente essa questão de colocar as vísceras para defender pontos de vista, diria que em vez disso, poderíamos nos aventurar em reformar o conhecimento que temos e não trabalhar tão intensamente para deformar a dignidade dos outros.

E não estou falando aqui da utopia de vivermos o mito das relações agradáveis, porém podemos nos livrar do peso do rosto severo, dos músculos esticados e do olhar inabalável de quem vê a vida através das vísceras. Este pode ser um desafio formidável!

P.S. Visceral é um adjetivo referente à aquilo que pertence às vísceras. As vísceras são os órgãos que estão contidos nas cavidades do corpo; como parte do aparelho respiratório ou do aparelho digestivo, como os pulmões, o fígado, o coração ou o pâncreas. A noção de visceral no sentido figurado está associado a uma reação emocional super intensa, que brota do interior da pessoa e escapa à razão e à lógica.

Sambam no Congresso todos os dias

Não é verdade que o Carnaval encobre atos escusos do Congresso Nacional e dos políticos em geral em esferas abaixo. Divertir-se não exclui a possibilidade de continuar exercendo marcação cerrada na tramitação de assuntos relevantes para o bem-estar da nação.

Não há como colocar samba na economia, na falta de segurança, na reforma educacional em andamento. Acontece que o Carnaval se estabeleceu no país assim como os problemas acima citados e uma coisa não deve tirar o foco da outra.

O samba desce a avenida aqui nos trópicos e a vida segue seu ciclo inexorável com os progressivos registros de ataques do Aedes Aegypti, transmitindo dengue, zika e chikungunya e a novidade do surgimento de muitos casos de febre amarela, sobretudo em Minas Gerais, mortes por excesso de velocidade, condução sob influência de álcool e outras substâncias, mas sob a ótica do turismo e não da cultura, é preciso deleitar o mundo com a imagem das mulheres seminuas!

Pode não ser este um momento de ensinar ou aprender, mas nem é tampouco um momento de sentir-se seduzido só porque não resistiu e assim como eu, foi espiar a festa pagã. Ao fazermos uma leitura racional sobre o Carnaval, não podemos simplesmente assimilar a falação sobre a perda de produtividade do país no período porque estamos diante de um evento colocado pelos turistas, no nível de eventos esportivos globais, como as Olimpíadas.

Além disso, o carnaval gera uma imensidão de empregos temporários, no ano passado, algo em torno de 250 mil pessoas, entre costureiras, bordadeiras,cenógrafos foram contratados pelas escolas de samba e blocos para produzir o show.

Na representação do teatro da vida, sigamos lutando com equilíbrio entre informação e ação, trabalhando entre ética e estética, o tolerável e o intolerável. Gostar ou não de Carnaval, não importa a ninguém senão a si mesmo, portanto, não se debulhe em críticas vãs, tampouco se perca a ponto de desconectar-se da realidade.

Nenhum ser perde a noção do meio termo, do equilíbrio e bom senso somente porque é carnaval. Alguns perdem essas noções básicas de civilidade porque bebem.

Depois do carnaval seremos sacudidos pela votação da reforma da previdência e suas pequenas maldades, que deve elevar o valor da contribuição e a idade mínima para o cidadão aposentar, além disso, o tempo de contribuição deve subir para míseros 49 anos. Tranquilo, né?

Também em pauta, o pacote anticorrupção, votado misteriosamente numa manobra no meio da noite e ainda reforma do ensino médio. Diante do sinistro que nos espera, saibamos que a imagem que o carnaval sustenta no exterior principalmente, é fruto das plantações da mídia brasileira, que ora endeusa e veste a fantasia, ora  excomunga os foliões e a desordem.

Na Orla do Porto de Cuiabá, a mágica batida dos tamborins do grupo Olodum não deixou ninguém ficar profetizando ou filosofando se em tempo de carnaval os brasileiros são malandros ou heróis.