Espiral do silêncio

As eleições estão distantes, entretanto um grande número de analistas de política e economia entendem que dá para esperar e que estando o país minimamente funcionando é suportável até o final do ano que vem.

Particularmente, entendo que neste momento o quase nada de reformas e o funcionamento precário das atividades políticas não trazem alento algum e dá sobrevida a essa letargia que vai dominando os setores públicos e privados. A eleição poderia ocorrer agora e com certeza bons nomes existem sim!

A política é bem mais regida pelo princípio da contingência do que pelo princípio da necessidade, pois a contingência nos ensina que tudo pode ser diferente do que está aí colocado, que podemos interferir nos resultados, que a vida pode ser outra.

Porém, estamos na contramão desse ensinamento e sendo conduzidos pelo princípio da necessidade, onde acredita-se que as coisas são do único jeito que poderiam ser e não precisam ser mudadas.

Há um nível considerável de desconforto para clamar por eleições diretas nesse momento, existe um sentimento inevitável que o governo é um embaraço e perdeu a capacidade de tomar as decisões essenciais e esse desconforto traz consigo a teoria da espiral do silêncio, que é comumente citada quando se teme defender uma ideia contrária em relação ao que pensa a maioria.

É como lamentar os inconvenientes dos próprios erros, sem estar com a menor vontade de mudar ou de assumir a culpa e quando nos encontramos em momentos de nostalgia é natural que sejamos simultaneamente acometidos por um certo conformismo voluntário, a ausência do desejo de usar a própria liberdade para lutar para reverter o engano a que fomos submetidos em algum momento no passado.

Ler e escrever sobre política está se tornando insuportavelmente denso, exigindo esforço para não ficar repetindo as frases de efeitos sem conteúdo teórico, mas que são proferidas no sentido de padronizar nossas mentes e nos limitar a essa polarização ridícula como se ainda estivéssemos vivendo em 2014 e demonizar o pensamento mais à esquerda.

A verdade é que, em termos práticos, ninguém está lutando por coisa alguma senão pelo grupo de interesse, comportamento esse que é a consequência da cultura de tirar proveito do Estado, de se estabelecer num espaço onde há a política de negociação, renuncias e alianças nada convencionais.

É notório que a filiação numa instituição que atua no processo decisório da política funciona como uma credencial para se participar do jogo político com mais propriedade. Porém, mesmo estes foram silenciados pela crise de honestidade que envolve a pessoa do presidente da República, que apesar de previsível, paralisou o país e tornou impossível a qualquer analista prever o desfecho

Votar por decepção

O exercício de um cargo político consiste em negar o interesse próprio e agir em função da representação, certo? Não, não aqui. Nesse sentido, a política tem tido uma inclinação para ser uma gestão de realizar desejos pessoais.

Inclinações não são boas moedas políticas, mas eu estou inclinada a votar não por ideologia, não por crença, não por civismo, não por prazer, tampouco por ser obrigatório. Desta vez, vou votar por decepção mesmo. A maioria dos dias tenho convicção em quem nunca votarei, em outros dias, sigo incerta, sabendo que tenho a responsabilidade de ajudar eleger governantes que saibam pelo menos, governar a si mesmos. Votar é uma extensão da liberdade de escolher e seria bom retomar o entusiasmo pelo voto, por um projeto pelo Brasil.

Conversando e lendo sobre a política australiana, entendo que Austrália é uma democracia avançada, que não permite a prática política fora do sistema democrático, mas há um certo cinismo e depreciação acerca da política e dos políticos e esse modo de encarar a política está instalado dentro do sistema, é meio universalizado.

Ao cometerem atos ilícitos, os políticos já renunciam, afastam-se dos cargos públicos, porque sabem que o povo implacavelmente os tirariam e os expurgariam da vida pública, inexoravelmente. Lá, a palavra cidadania está mais associada à ideia de garantia dos direitos do que de participação e na medida em que as pessoas conquistam ampla atuação na vida privada, elas excluem-se da vida política.

Com tantos temas românticos, por que escolhi escrever sobre política? Qualquer coisa sobre o mundo que nos rodeia, que tal discorrer sobre dicas de beleza, qualquer coisa, menos política! Mas a política nos rodeia, nos contamina e diante dos papéis sociais que exercemos, a política tem a ver com nossa convivência em sociedade.

Inevitável fugir do tema, que nem sempre é uma doutrina pacífica, mas esse desencanto com o mundo é um sintoma reconhecido da ansiedade pós-moderna, uma maneira de sentir e experimentar a vida fragmentada, remendada e fadada a erros.

Na visão do sociólogo alemão Max Weber não existe uma oferta política boa em si mesma, não existe um bom programa político, não existe um candidato bom. O que existe é uma oferta baseada na demanda. Os partidos são como empresas políticas de representação, que fazem parte da concorrência do mercado de consumo eleitoral, um negócio, às vezes rentável, que oferece os candidatos com os perfis que a sociedade demonstra querer “consumir”.