Votar por decepção

O exercício de um cargo político consiste em negar o interesse próprio e agir em função da representação, certo? Não, não aqui. Nesse sentido, a política tem tido uma inclinação para ser uma gestão de realizar desejos pessoais.

Inclinações não são boas moedas políticas, mas eu estou inclinada a votar não por ideologia, não por crença, não por civismo, não por prazer, tampouco por ser obrigatório. Desta vez, vou votar por decepção mesmo. A maioria dos dias tenho convicção em quem nunca votarei, em outros dias, sigo incerta, sabendo que tenho a responsabilidade de ajudar eleger governantes que saibam pelo menos, governar a si mesmos. Votar é uma extensão da liberdade de escolher e seria bom retomar o entusiasmo pelo voto, por um projeto pelo Brasil.

Conversando e lendo sobre a política australiana, entendo que Austrália é uma democracia avançada, que não permite a prática política fora do sistema democrático, mas há um certo cinismo e depreciação acerca da política e dos políticos e esse modo de encarar a política está instalado dentro do sistema, é meio universalizado.

Ao cometerem atos ilícitos, os políticos já renunciam, afastam-se dos cargos públicos, porque sabem que o povo implacavelmente os tirariam e os expurgariam da vida pública, inexoravelmente. Lá, a palavra cidadania está mais associada à ideia de garantia dos direitos do que de participação e na medida em que as pessoas conquistam ampla atuação na vida privada, elas excluem-se da vida política.

Com tantos temas românticos, por que escolhi escrever sobre política? Qualquer coisa sobre o mundo que nos rodeia, que tal discorrer sobre dicas de beleza, qualquer coisa, menos política! Mas a política nos rodeia, nos contamina e diante dos papéis sociais que exercemos, a política tem a ver com nossa convivência em sociedade.

Inevitável fugir do tema, que nem sempre é uma doutrina pacífica, mas esse desencanto com o mundo é um sintoma reconhecido da ansiedade pós-moderna, uma maneira de sentir e experimentar a vida fragmentada, remendada e fadada a erros.

Na visão do sociólogo alemão Max Weber não existe uma oferta política boa em si mesma, não existe um bom programa político, não existe um candidato bom. O que existe é uma oferta baseada na demanda. Os partidos são como empresas políticas de representação, que fazem parte da concorrência do mercado de consumo eleitoral, um negócio, às vezes rentável, que oferece os candidatos com os perfis que a sociedade demonstra querer “consumir”.

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