Ponto de tensão

Se tudo o que fazemos em vida levaremos para a morte, quem você seria se soubesse que vai morrer hoje? Que fim teria seu papel volúvel de permanente encenação diante da nudez da verdade e da morte?

Como morrem os pedófilos e os corruptos contumazes? Como morrem os senhores que promovem as guerras, que fecham fronteiras e lançam milhares ao mar? Como morre o homem que não construiu uma história de amor? Um dia todos serão chamados; os afoitos, os destemidos, os heróis, os melancólicos, os afogados e os salva-vidas.

Nem sempre temos sempre que estar suscetíveis a cortar rente na pele, assumir rupturas dolorosas, responder perguntas difíceis e dar o peito às balas.

Normalmente estamos vivendo nas expectativas e nas possibilidades do futuro e nosso mundo hoje não tem apenas um ponto de tensão, tem vários. Cada crise esconde uma outra e todas elas juntas escondem uma realidade profundamente camuflada pela insatisfação e pelo cansaço de estarmos patinando acreditando em equívocos e na regeneração dos homens e na configuração de um sistema perverso contra o qual reclamamos, mas com o qual não rompemos.

Muitos de nós defendem o equívoco de que a vida precisa ser difícil; que coisas boas apenas são conseguidas com elevado nível de sacrifício. Crescemos ouvindo isso; que temos que trabalhar duro, dispensar excesso de esforço para obter uma posição razoável, para ter um estudo acreditado. Adentramos então o ciclo paranoico de estarmos sempre muito ocupados, estressados, consumindo coisas que o organismo não precisa, dando respostas de ações privadas que sequer deveriam ter se tornado públicas. Postergando resolução de problemas, acumulando bens para desfrutar num amanhã, que sequer sabemos se virá.

Creio que morreremos pesados de culpas se não aprendermos a nos liberar das complicações e das dolorosas tragédias que destemperam as relações e que amargam quando tentamos forçar os ciclos da vida, assumindo responsabilidades extremamente sérias, quando escalamos as etapas vida alucinadamente rumo ao sucesso, a vitória e a ganância com furor visceral.

É uma metáfora valiosa observar o rio antes de começar a remar, sintonizar a vida no impulso natural. A vida pode ser fácil. Na verdade, deveria ser. A facilidade é diferente da preguiça, é seguir o caminho da menor resistência, com competência e naturalidade, sem perder o valor das coisas que trazem benefícios até para se ter uma morte serena.

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