Viver sem muros afetivos

Ao vermos aproximando o final do ano somos acometidos de certa nostalgia ao constatarmos que passamos mais tempo reclamando, nos protegendo de possíveis decepções e fugindo dos riscos que deveríamos ter aventurado e assumido.

Não há felicidade permanente, nem arrebatamento de paixão que, um dia, não ceda lugar ao tédio e a rotina. Tampouco são perpétuas as aflições e as dificuldades.

A preocupação em ser feliz é desnecessária quando tornamos a vida um movimento interessante todos os dias, sendo amorosos com a família, competentes no trabalho, comprometidos com o bem-estar do outro. O ideal de felicidade não pode estar ligada a aquilo que não temos nem tampouco nos poucos prazeres que nos permitimos.

Felicidade não é a satisfação de desejos pessoais ou materiais. Prazer e dor, embora sejam sentimentos difíceis de conciliar se misturam em nossas buscas e ora um, ora outro se sobressai. É preciso sentir plenamente as dores das perdas, do luto, do fracasso.

É um desastre o ideal de felicidade que tenta nos poupar de tudo o que é ruim. Porque impulsionados por medos reais ou imaginários assumimos postura defensiva que em nada nos fortalece. E no cenário que vivemos, nossos desejos não se esgotam nunca e as escolhas que fazemos geram insegurança e medo.

Felicidade não é a satisfação de desejos pessoais ou materiais

E ter uma vida interessante é caminhar confiante em meio ao pluralismo e não sentir-se vulnerável a cada desafio, não sofrer por antecipação. É o caso de não condicionar a noção de felicidade a um bom emprego, bom salário e quase nenhum arrepio de prazer ou dor.

O acesso à informações infinitas desafia nossa capacidade de absorver e excluir o que convém e assim, as impermeáveis crenças excêntricas se multiplicam e confundem.

O doutor em psicologia clínica e psicanalista Contardo Calligaris diz que somente é possível tornar nossas escolhas interessantes quando temos simpatia pela vida e pelos outros, o que pode parecer básico, mas não é no mundo de hoje.

Não por acaso, o grande mal do nosso século é a depressão e a indiferença. E a falta de interesse pelo mundo e pelos outros é o que pode nos acontecer de pior. Amar as pessoas e o mundo não significa nem aceitação nem rejeição desdenhosa. Significa fazer o inabalável enfrentamento daquilo que a vida e as pessoas são de verdade, derrubando os muros físicos e emocionais que construímos para nos proteger.

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