Eu não existo sem você, você não existe sem mim

Há uma tendência relativamente nova de contemplar novos horizontes para se obter uma imagem mais realista da condição humana ou da nossa existência social, o que significa extrapolar os limites da interação e liberdade para mostrar que na vida nada é completamente determinado nem tampouco gratuito.

Essa abordagem sociológica crítica propõe que a análise dos eventos sociais, mesmo complexos, sejam feitos no nível mais real e óbvio do dia a dia, entre a banalidade e a frugalidade dos encontros e conversas que permeiam a rotina das pessoas.

Conceitua-se que nem sociedade nem indivíduos são entidades separadas, completas e autônomas. Então, eu não existo sem você, você não pode existir sem mim e do relacionamento bom ou ruim que temos extraímos ou evitamos os substratos que nos moldam.

Um paradigma que oferece nova perspectiva para o debate sobre como e, em que ambiente, ocorrem, são percebidos e registrados os fatos que narram a nossa existência, sem a crença arrogante que somos indivíduos de importância e qualidade excepcionais além de independentes.

A situação indissociável entre o homem e a sociedade foi compreendida pelo sociólogo alemão Norbert Elias, segundo o qual, para viver, cada pessoa é um elo na cadeia de interdependência que a liga a outras pessoas e, quanto maior é o intercâmbio entre as pessoas, mais estreitamente elas são ligadas e uma só pode sustentar sua existência, em conjunto com muitas outras.

Norbert Elias propõe compreender a formação dos indivíduos a partir da observação do lugar social que eles ocupam, de suas relações com as regras, com o constrangimento das pulsações e emoções que estão sujeitos.

Desde antes de nascer somos dependentes de uma rede de relações. Agora adultos, tentemos observar de quantas pessoas dependemos para realizar nossas ações diárias, pois é nessa incorporação de seres humanos na interação com outros seres humanos que acontece nossa formação, em todos os níveis.

Os elos, embora nem sempre visíveis, são construídos com a soma dos nossos relacionamentos; com quem conhecemos, com quem falamos, de quem nos tornamos amigos, com quem trabalhamos e com quem nos casamos.

Assim, o conceito de existência interdependente traz a mensagem de que o mundo social não é senão um campo cheio de encontros, contatos, interações, relacionamentos, vínculos sociais, laços de amor e de intimidade, de interesses e de cooperação, de concorrência ou consenso.

Enfim, a arte de lidar com pessoas nos molda a mentalidade e os traços e os laços vão sendo definidos no trabalho, na igreja, no supermercado, na manifestação política, no sofá onde nos sentamos para assistir televisão e, portanto, sempre inclui relacionamentos com outras pessoas, mesmo com aquelas que estão presentes apenas em pensamentos e com as quais travamos conversa interna e íntima.

Certo é que deixamos um pouco de nós e carregamos um pouco do outro nesse processo lindo de viver ultrapassando as barreiras do estabelecido para ampliar as teias das nossas interdependências.

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