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Ao mesmo tempo em que a arquidiocese de Cuiabá está envolvida na celebração da Semana do Migrante, com o tema “A vida é feita de encontros”, o Instituto Datafolha ouviu pessoas de 129 cidades brasileiras e divulga uma pesquisa onde constata que 62% dos brasileiros jovens querem e planejam ir embora do país.

E a população adulta mostra-se igualmente insatisfeita e cerca de 56% dos adultos, principalmente os que têm ensino superior também sonham viver no exterior.

Falo por mim, mãe de uma jovem jornalista que mudou-se para a Austrália há 9 anos e lá, decentemente estabelecida, casou-se e tem marido e filho australianos. Amor não falta na nossa relação, mas falta-me argumentos para insistir para que ela, um dia volte.

O Brasil está marcado pela cicatriz dos cerca de 60 mil homicídios contabilizados no último ano, uma média de um a cada 9 minutos. Os números são do Núcleo de Estudos da Violência da USP. Além disso, instalou-se no país um ciclo de corrupção endêmica que insiste em não cessar.

Por estas e outras razões enfrentamos com relativa serenidade, a distância e as dores impostas à aqueles que não reconhecem fronteiras e se estabelecem onde se encaixam e levam suas famílias a viver o mesmo processo, porque dentro da transversalidade que permeia os processos migratórios, a família viaja junto em sonhos, pensamento, oração e visitas esporádicas.

Migrar nunca é um ato solitário. Na verdade é um fenômeno de dupla condição de estranhamento entre dois mundos, grupos culturais diversos e conflituosos.  Quem parte nem sempre consegue distanciar-se dos costumes, liberar-se para viver novas fusões com outras pessoas e culturas e o país da sua nacionalidade existe latente, mesmo quando não há um projeto de volta. Não é hora de voltar.

O Papa Francisco, ao falar no 2º Diálogo da Santa Sé sobre a Migração Internacional, enfatiza que precisamos mudar nossa mentalidade e deixar de considerar o migrante como uma ameaça à nossa comodidade e passar a estimá-lo como alguém, cuja experiência de vida, pode contribuir com nossa sociedade.

Diz mais, que devemos “sair ao encontro do outro para acolhê-lo, conhecê-lo e reconhecê-lo irmão”. Assim tem sido com minha filha na Austrália.

Em Cuiabá, falo dos haitianos, que são vistos por toda parte, alguns, há 4 anos. Aparentemente incluídos. Mas, desde que comecei estudar os processos migratórios contemporâneos, me deparei com uma Cuiabá indiferente, que não discrimina porque sequer enxerga os migrantes e o Poder Público não consegue desenvolver estratégias mínimas de inserção desses homens e mulheres.

Os migrantes haitianos que estão em Cuiabá vivem um momento extremamente difícil, um momento em que a rede de apoio à instalação deles na cidade (a Casa do Migrante) está voltada para apoiar novos migrantes. E a questão agora vai além de analisar o momento de retração que vivem os haitianos.

O que ficou explícito foi que o governo brasileiro não soube lidar com a chegada de um contingente expressivo e particular de migrantes em seu território e, tampouco, articular com eficiência os órgãos estaduais e municipais para que pudessem elaborar políticas públicas considerando a inclusão desses estrangeiros.

Cuiabá não conseguiu criar um ambiente seguro para promover encontros com a pluralidade e muitos haitianos, cumprindo a sina de diáspora, foram embora do Brasil.

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