Vale da morte

Uma tragédia provocada por falha humana, alimentada pela ganância e descaso repetiu-se. A barragem de rejeitos de minério de ferro da empresa brasileira Vale do Rio Doce, maior produtora de minério de ferro do mundo, rompeu e varreu de lama e lixo localidades de Brumadinho, em Minas Gerais.

Este crime soma-se ao crime cometido contra a cidade de Mariana e assim, a Vale acaba provocando duas tragédias sem precedentes. Como foi possível o crime se repetir a 126 km de distância e 3 anos após o primeiro?

A resposta do governo e do judiciário veio rápida e 11 bilhões da empresa foram bloqueados para garantir reparos financeiros as vítimas, aos familiares e ao meio ambiente. Mas nada paga o sofrimento de uma mãe que teve um filho engolido por uma mar de lama, o desespero de pessoas que sequer sabem que fim levaram seus entes queridos e o trauma dos sobreviveram ao horror de ver o rio de lama descer colina a baixo, quebrando árvores, arrastando gente e nada poder fazer.

A tragédia não conta com o elemento da imprevisibilidade. Após o acontecido em Mariana, a Vale trocou o presidente, mas preservou as velhas práticas predadoras para garantir o destaque internacional que goza no setor, aumentar a capacidade de produção e o lucro. E apesar do presidente da empresa ter dito, ao vivo, que as barragens passam sistematicamente por processos de inspeção, o que li confirma, no entanto, que os processos de licenciamento, são aprovados com com graves inconsistências.

Porém, apesar dos alertas feitos em reuniões tensas de que esta barragem de rejeitos de minério de ferro não oferecia “risco zero”, a licença foi aprovada rapidamente e com folga e iniciou-se o serviço de mexer nos rejeitos para extrair possíveis sobras de minérios acumulados. Se as avaliações técnicas atestaram que não havia risco e a desgraça aconteceu, pode acontecer novamente em outras 142 barragens de contenção sobre a gestão da Vale, licenciadas no país, por órgãos de controle desestruturados e corrompidos por um sistema que opera mediante influência política e financeira e pior, o judiciário não tem coragem para aplicar as sansões exemplarmente nem mesmo de condenar individualmente os gestores envolvidos neste tipo de tragédia.

Sou absolutamente leiga no tema mineração, entretanto, li e assisti o vídeo da audiência pública ocorrida na Assembléia Legislativa de Minas Gerais, com a finalidade de proibir novos licenciamentos e criar uma série de restrições para a construção de barragens de rejeitos e orientava no sentido de trocar as estruturas existentes pelo método de empilhamento a seco, além de proibir a construção de novas barragens onde existisse comunidades. Obviamente esse parecer foi rejeitado.

Em vários países civilizados e também no Brasil a tecnologia de empilhamento a seco é utilizada, mas para economizar a Vale constrói as barragens em cima dos próprios rejeitos e como não geram lucros, os gestores das empresas mineradoras não se preocupam com suas lixeiras.

Encorajei-me a expôr minha indignação diante deste crime, que configura uma tragédia doída em quem sabe que; se a mineradora operasse mediante laudos verdadeiros, com monitoramento responsável, com um plano de emergência considerando realmente as vidas envolvidas no trabalho e nas comunidades do entorno, se a dor de Mariana ainda gritasse nos peitos desses homens frios, esta tragédia não teria se repetido.

O tempo está passando. A esperança transforma-se em angústia e desespero. As evidências apontam para erro calibrado pela negligência. Quantos serão presos?

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