Nos sentimos culpados

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Os seres humanos são os responsáveis, para não dizer os culpados, pela interpretação que fazem das suas vidas e pelas ações que permeiam seus arredores. A maioria dos atos tem, pelo menos, algum grau de omissão humana.

Reforço esse conceito no sentido de que não é possível nos estabelecermos como cidadãos dissociados de qualquer código de decência e, assim sendo, devemos nos colocar numa situação que predisponha o agir na direção daquilo que queremos melhorar ou mudar.

Que nos esforcemos para isso diante de tantas tragédias que fulminaram a semana e levaram as autoridades e responsáveis à instalar vários gabinetes de gerenciamento de crises.

Como o próprio nome indica, esses gabinetes são instalados depois que algo sai do controle, ai, então, serve apenas para delegar culpados depois de acirrado jogo de empurra e para finalizar com relatórios concluindo que problemas técnicos já apresentavam indícios de vulnerabilidade e possível tragédia.

Os procedimentos negligentes têm tudo a ver com as tragédias que nos abalaram recentemente. Laudos técnicos forjados, burocracia excessiva no papel e vista grossa na realidade objetiva escancararam a deficiência como o país tem funcionado e negligenciado seus filhos.

E por que o Poder Público não age antes? Porque, segundo o professor da Universidade de São Paulo (USP), Sérgio Médice, falta ao país a cultura da segurança nas obras públicas. Denúncias são reforçadas apenas quando acontece um desastre, depois tudo volta ao que sempre foi, com relatórios forjados apontando normalidade e excluindo riscos no curto prazo.

Foi exatamente assim no caso do rompimento da barragem em Brumadinho, no alagamento e desmoronamento de encostas nas comunidades do Rio de Janeiro e, mais recentemente, o incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo. Não havia um plano B porque, segundo os responsáveis, não havia com o que se preocupar!

Experiências dolorosas não têm gerado aprendizado algum. A tragédia de Mariana não evitou a de Brumadinho. As fortes chuvas associadas à ocupação irregular dos morros, falta de canalização de córregos, falta de drenagem das águas e contenção das encostas tem causado deslizamento e mortes nas comunidades do Rio de janeiro, quase todos os anos. As autoridades locais não evitam e até estimulam loteamentos em áreas sabidas de risco.

E como pode um local definido em projeto como estacionamento tornar-se moradia de longo prazo para os meninos sonhadores que vem de outras cidades, buscar oportunidade de ser um grande jogador de futebol? É muito grave o fato de dirigentes do Flamengo terem aprovado a prática de alojar os garotos, que seriam mais tarde os ídolos do clube, em contêiners. Isso não causou indignação em nenhum deles, em nenhum pai?

As irregularidades do local foram confirmadas pelo Corpo de Bombeiros, que informou em nota, que o CT não tem o certificado emitido pela corporação. Enquanto os jornais mantiverem o foco nessas tragédias, elas repercutirão negativamente e forçarão os responsáveis a produzirem respostas imediatas às tragédias, mas se a imprensa colocar a pauta em segundo plano, adeus! O silêncio percorrerá os corredores do poder e dos poderosos.

Outra coisa que falta é falar a verdade. Em todos os casos recentes, familiares reclamaram da omissão de informações, da improvisação, da desorganização das autoridades. Isso, num momento de dor horrível, onde familiares percorrem o IML numa tentativa desesperada de levar seus mortos para casa.

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