Articulação política é ato republicano

No parlamento, tanto os 81 senadores quanto os 513 deputados federais foram eleitos comprometidos, eles mesmos, com suas bases, com as reformas menores que prometeram para os segmentos que representam. Estão, portanto, engajados em projetos próprios e de certa forma, até o momento, ainda estão alheios aos chamamentos para votar. Enfim, o parlamento em outros incentivos e outras preocupações.

Os líderes do governo e o próprio governo parecem ignorar essa dinâmica e por não terem tomado tempo para conhecer os parlamentares e até por desdenhar o apoio parlamentar, devem pagar um preço por isso. Sem construir uma base moldada na confiança não é possível contar com apoio. E isso não significa  corrupção, não é toma lá dá cá, Isto é pragmatismo, articulação política.

Na pressão, com mensagens cifradas em redes socias, não é possível reverter o quadro de estagnação. Os parlamentares, a maioria acostumados e com bom trânsito político não vão, sem entendimento e diálogo, votar com o governo e aprovar a reforma da previdência nem mais tarde, nenhuma outra reforma.

Os parlamentares, devido as características de seus mandatos, podem sofrer uma derrota aqui, outra acolá. Ao governo, seria bom, colecionar vitórias porque o povo é impaciente e não gosta de perder.

Além disso, qualquer derrota envia sinais de alarmes aos mercados, aos políticos, aos eleitores, passando a mensagem que o governo está sem controle das situações políticas e do país.

Governo e Parlamentares precisam se alinhar em interesses e urgências de maneira republicana, em torno de políticas de médio e longo prazo. Se os parlamentares adotarem postura de total independência, o perigo pode começar a rondar o governo.

Ainda há tempo, o mercado e a população ainda estão se ajustando. Mas é uma espera, cheia de interrogações.

As lições estão aí

O sistema carcerário abriga figurões. Temos várias condenações, pessoas cumprindo pena, pessoas que no passado não imaginávamos que poderiam responder por seus desvios. São ex presidentes da República, funcionários de altos escalões de empresas públicas e privadas e parlamentares.

Enfim, a corrupção estava entranhada em todos os meandros das instituições republicanas e partidos políticos.

A tradição da impunidade está sendo alterada. É preciso reconhecer que há avanços, porém, a  sociedade precisa se fortalecer na direção da integridade e honestidade até que cheguemos a um ponto em que a corrupção não tenha mais meios para contra atacar.

O momento nos tira do debate ideológico e partidário, e nos desloca para termos o foco nas lições dos últimos anos, no combate à corrupção até como forma de tirar o impacto dos roubos da economia, dos serviços públicos que são os primeiros a serem afetados.

Os corruptos não esperam e não querem ser punidos. Às leis, contudo, devem ser aplicadas indistintamente e o cidadão que não respeita os bens públicos, as pessoas, independentemente de sua classe social, devem ir para a cadeia. A corrupção mata no pronto socorro e tira investimento da educação.

A ignorância favorece as explicações caolhas dos corruptos.

O enfrentamento à corrupção esbarra, na maioria das vezes, na incapacidade do corrupto, admitir-se como tal. Mas é avanço considerável que o sistema judiciário tenha aprendido a aplicar penas aos ricos e influentes também.

5 meses

5 meses é pouco tempo para tenha se desmobilizado a multidão que apoiou e votou no Presidente Jair Bolsonaro. Em que pese todas as declarações de apoio,  há descontentes recentes e desertores.

Mesmo que se considere que a maioria dos apoiadores estejam firmes com o Presidente, o momento de mobilização política, das concentrações foram deixados para trás e agora, com outras pautas, outras urgências, muitos podem não se dispor de tempo ou de encantamento suficiente para saírem às ruas.

Não é ato de coragem apoiar mas silenciar.

Esse é um governo que ainda não é identificado com nenhuma pauta específica, que não é defendido pela maioria na Câmara nem no Senado. Esse é um governo que se perde em explicações e divagações e não atua para efetivamente emplacar as reformas difundidas como essenciais, algumas que foram inclusive mote da campanha.

Se são essenciais, por que ainda não saíram do papel? Por que não foram pautadas para votação? Porque os líderes do governo não estão efetivamente debruçados em cima desses projetos? O Congresso tem em si a capacidade para irritar o povo, de segurar votações e depois, transferir culpas.

O Centrão existe, como aliás, sempre existiu e tem procedimento padrão para impor suas vontades, para que as velhas práticas do toma lá, dá cá não sejam combatidas sem que algo equivalente seja apresentado para o novo ciclo.

O centro sabe que pode trancar a pauta, sabe que pode pedir, porque mais cedo ou mais tarde, numa ou outra proporção, serão atendidos.

Em entrevista recente, o ex Presidente José Sarney disse que o presidente Bolsonaro aposta nas evidências do caos e que isto é um erro. Falta ao governo ajustar-se a liturgia do cargo e não esperar que o cargo se adapte ao governo.

O governo não pode, em momento algum estar numa situação de imprevisibilidade. Há toda uma estrutura montada para articular as políticas, para ligar uma ponte à outra, para dar sustentação e governabilidade ao presidente. Só que estas estruturas devem ser administradas com o mínimo de conhecimento da realidade política, certo pragmatismo, enfim.

Sem ter maioria é difícil aprovar as pautas, avançar nas agendas de reformas. A crise atual não é causada pela falta de firmeza dos partidos. Nunca foram fortes isoladamente. Mas a união do DEM e MDB balança qualquer estrutura.

 

O lado profundo da vida

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Se existe profundidade é preciso que ela suba à superfície. Porque hoje a superficialidade se impõe à profundidade, diz o filósofo alemão Peter Sloterdijk, para quem, a vida atual não convida a pensar.

Estamos nos mostrando na medida do que agrada, do que imaginamos receber elogios, estamos lendo o que vem comentado porque pensar pode ser até certo ponto, um exercício doloroso de resgate do aprendizado de uma vida, que tornou-se esvaziada pela pressa e pela superficialidade a que estamos submetidos nas práticas diárias.

Estamos vivendo ora introspectivos escondendo a boa sorte. Ora, ressentidos, invejando a boa sorte dos outros.

Dos baques sofridos  à alma lavada não temos aprendido quase nada. Tomados pela vaidade, deixamos para trás o frescor dos fins de tarde e nos trancamos vencidos pelo cansaço de um dia vivido em colisões frontais por espaço, por emprego, por um relacionamento. Enfim, a rotina nos aprisiona.

A combinação das necessidades e potencialidades internas e externas deveriam nos levar a um placar de razoável empate. Mas não! As necessidades e potencialidade internas tem sido negligenciadas. Não lemos mais, porque tememos não entender, não estendemos a mão, porque tememos ser tocados pelo veludo da pele, não ouvimos mais o outro, porque somente nossas verdades importam.

É preciso construir o eu interior, mesmo a partir da confusão, da arrogância ou do caos. É o mundo interior, coração e mente que precisam receber cuidados. No mundo superficial basta panos, jóias e carros, porém, para restaurar a mente e o coração, um pouquinho mais. É preciso dedicar tempo às amizades, leituras, pensamento crítico e muito respeito; coisas e sentimentos que habitam o lado profundo da vida e apenas, tão somente apenas esporadicamente emergem a superfície para serem pinçados.

Para nos sentir precisamos desistir das facilidades. Se um dia nos fizeram simples, nos afastamos dessa natureza e resgatá-la é o serviço de emergência que vai nos devolver os movimentos vitais.

Eis que a extraordinária exigência de mergulharmos nas águas profundas nos salvará da mediocridade, da comparação, da reclamação e das dúvidas e teremos aprendido a retornar para nossa essência