A pandemia e o processo de globalização

O sociólogo Octavio Ianni ao discorrer sobre a sociedade mundial disse que o mundo é uma realidade social, complexa, difícil, impressionante, fascinante mas pouco conhecido. O mundo está abalado. Tudo o que parecia estável sofre transformação. Mesmo o que permanece, não é a mesma coisa.
Altera-se a forma como nos relacionamos. Fomos todos levados para um cenário novo, inesperado e assustador.

É como se a própria terra assumisse uma fisionomia distinta, com o horizonte da globalização a nos ameaçar, com o surgimento de um vírus impiedoso e global.

Quase todos os lugares foram alcançados, cada ponto do espaço na metrópole ou na pequena cidade e somente a minha e a sua casa é o que temos de proteção.
Sob muitos aspectos essa nova situação muda definitivamente nossa ideia de lugar, de espaço. Voltamo-nos para dentro de nós mesmos e num prazo de 30 dias estamos nos reconhecendo numa rotina sem dinamismo, carregada de preocupações.
Estamos todos sendo desafiados e levados por um caminho que muitos antes de nós trilharam ao vivenciarem outras epidemias e 2 grandes guerras.
Se tentares ir para outras terras, não acharás novas terras, esta epidemia há de seguir-te por onde andares.

A afirmação de que os seres humanos estão hoje em contato uns com os outros, em todo o mundo, como nunca na história, não tem controvérsia e isso diz respeito a globalização, processo em que os povos do mundo compartilham uma sociedade global dinâmica. A globalização ou globalismo não é um processo de comunhão simplesmente político-econômico, mas também social, cultural, compreendendo problemas que podem ir de ecológicos e religiosos a problemas de saúde pública. E eis que um surto globalizado abala nossas relações e nos impõe o distanciamento social.

O novo coronavírus está se transformando em um enorme teste de estresse para a globalização. À medida que as cadeias de suprimentos se rompem, as nações acumulam equipamentos de proteção, suprimentos e equipamentos médicos, limitam as viagens, vigiam as fronteiras. A crise está forçando uma grande reavaliação da economia global interconectada. A globalização promoveu uma profunda interdependência entre empresas e nações, que as torna mais vulneráveis ​​a choques inesperados. Agora, empresas e nações estão descobrindo o quanto são vulneráveis.

Mas a lição do novo coronavírus não é que a globalização falhou. A lição é que a globalização é frágil, apesar ou por causa de seus benefícios. Por décadas, os esforços incansáveis ​​de empresas individuais para eliminar a concorrência geraram riqueza sem precedentes.

Não é de surpreender que a epidemia do COVID-19 esteja sendo usada nas narrativas nacionalistas, como se vê aqui no Brasil. Para muitos as origens chinesas da doença simplesmente reafirmam a crença de que a China representa um perigo para o mundo e não se pode confiar que  se comporte de maneira responsável. Em um mundo inundado de desinformação, o COVID-19 está contribuindo para aumentar as conversas errôneas.

No âmbito destas configurações qualquer fato que ocorre em qualquer lugar do mundo, pode produzir efeitos imediatos em outros lugares. Cada vez mais pessoas experienciam viagens internacionais e casamentos transnacionais.
Quais lições tiraremos para vida depois que a vida se restabelecer normal? Modificarão os significados das fronteiras?

Medo da fome e da morte

Essa loucura que o mundo está passando é fato inusitado para todos, em todos os continentes. Não existe vacina tampouco medicamento certo para o tratamento, ninguém conhece a receita para lidar com esta gigantesca crise epidêmica e  ainda não há um modelo matemático para evitar o caos econômico. Devemos então, dentro desta realidade mundial exposta e complexa, renovar a  confiança na ciência e evitar causar mal coletivo com discursos imprudentes.

O século XXI demoniza nossas vidas, irremediavelmente! Há uma imensidão de  pessoas no mundo que vão viver essa epidemia, estão sendo contagiadas, desenvolvendo a doença e não tem prognostico de quando retomarão suas vidas. Mas todos indistintamente atravessaremos a tensão de nos saber cercados do vírus por todos os lados, com medo da transmissão em família, medo dos vizinhos, com pavor de supermercados e shoppings.

Fico indignada ao extremo ao saber de pessoas ficando sem tratamento adequado, pelo colapso inevitável do nosso sistema de saúde. Mas também é muita coisa junta num momento em que o interesse público tem que prevalecer: o país em pandemia, um presidente tresloucado.

Pode-se pensar tudo durante a longa duração do isolamento social, entretanto vale mesmo lançar o olhar para observar e compreender as relações entre a estrutura da sociedade. Recomenda-se “ninguém” ao lado, uns porém, estão largados, experimentando, em toda sua crueza, a pressão dos dias que se arrastam opacos.

A pandemia veio com envergadura global e aos poucos foi juntando os povos do mundo para compartilhar a mesma epidemia, os mesmos medos: de perder o emprego, de perder-se em dívidas, de perder a vida. A sociedade global, em parte colaborativa, em parte fechada na ignorância, espera que os testes de medicamentos sejam apresentados num tempo menor que a auto imunização propagada.

Bem meus caros, o sofrimento nos catapulta além da nossa zona de conforto, lança nossas vidas ordenadas no caos. Resta consolo lembrar que experiências de profunda tristeza podem se tornar oportunidades de transformação. Quando nossos alicerces e segurança são significativamente abalados por algo a princípio desconhecido, depois intratável, um espaço inesperado pode se abrir em nossos corações, dando-nos uma capacidade de amor e compaixão que nunca experimentamos antes.

 

 

Fazer descer a virtude do céu

Os sujeitos estão fragilizados. São cada vez mais os dedos que se queimam enquanto o calor das discussões e das as emoções são atiçadas.

A socióloga polonesa Elzbieta Tarkowska, citada algumas vezes por Zygmunt Bauman, diz que a indefinição e insatisfação que permeia nossas vidas, remete à ideia de caos porque estamos de certa forma vivendo um estado de coisas caracterizados pelo fluido, pela ausência de forma, a indeterminação, a indiferenciação, a total confusão.

No estado de caos a mudança é permanente, a situação parece aos que nela estão envolvidos obscura, ilegível e imprevisível. Entendo que o caos descrito por Tarkowska é um estado de coisas em que tudo pode acontecer, um estado em que a probabilidade de um certo acontecimento não é superior à de qualquer outro, ou ainda que fosse qualquer o caso, não poderíamos prevê-lo.  A existência caótica é desprovida de estrutura, de lógica; sem clara distribuição das probabilidades e a ausência de intervenção no desenrolar-se dos acontecimentos cotidianos.

As transgressões vão acontecendo, deixando brechas até que o absurdo se infiltra nas nossas vidas.

O confronto com o caos seria já por si só bastante perturbador e doloroso. Mas a novidade do fato é que cá estamos nós, absortos, indiferentes em meio a toda desorganização de nossas existências.

A ordem tão almejada pela modernidade existe, enquanto existir a desordem, porque as duas são faces da mesma moeda. As pessoas se adaptam facilmente à riqueza ostentada e à miséria interior exibida. Tudo está no palco do espetáculo. Catástrofes, crueldades, epidemias e outras tragédias figuram na ordem do dia.

No mundo contemporâneo o que conta é a habilidade de se mover, não importa se para frente ou para trás. Na vida pós-moderna não devemos deixar que a identidade se fixe.  Somos seres multi facetados.

O mundo em que vivemos está cada dia mais assustador, ambíguo, incontrolável, violento, instável. A vida política, inclusive foi atingida por uma evidente fase de desconsideração.

A ciência tem explorado a complexidade, o imprevisível e o inédito, evidencia-se que não há mais a busca obsessiva pela harmonia tão procurada na modernidade. Um caminho parece, claramente traçado, pelo menos no que se refere a observação geral. É o caminho da perda do sentido, do conformismo, da apatia e da repetição de formas vazias, disse Castoriades, filosofo greco/francês, quando escreveu sobre a ascensão da insignificância.

Embora haja uma exigência de novos objetivos políticos e de novas atitudes humanas, por seguir caminhos dignos, o que vejo são poucos sinais de que isto esteja acontecendo.