A florada dos Ipês

Os ipês são o testemunho de um fenômeno botânico. Para que suas flores desabrochem abundantemente, essas árvores flertam com a morte. É o açoite causado pelo frio e pela seca que envelhece e arranca todas as folhas e dispara o relógio biológico dos ipês indicando que é tempo de florescer.

Ou seja, é da experiência de quase morte devido às severidades do clima que vem a beleza dos ipês. A planta entende o estresse como sinal de que seu fim pode estar se aproximando e, como resposta, produz o máximo de sementes para deixar descendentes. Essa explicação dada por um biólogo encontrei numa coluna chamada O Jardineiro Casual.

Somos todos nós contemporâneos desse tempo tão difícil de Imposições de restrições e isolamento, de lidar com os diversos sofrimentos, lidar com as perdas, com o luto, com a depressão, com as ameaças do vírus devastador. Somos todos nós contemporâneos dessas dores.

A morte é difícil de lidar, especialmente quando é inesperada. No Livro Tibetano do Viver e do Morrer encontro a explicação de que todas as coisas que tomam forma, se dissolvem novamente e que a vida é um processo onde todas as coisas são impermanente e imutáveis e, que o ciclo da existência cessa a qualquer momento. Assim como é natural que pessoas que amamos morram, é natural que o sentimento de dor também passe. Seja qual for o sentimento que estamos experienciando, vai passar.

No meio da pandemia a vida continua. As pessoas se apaixonam, se casam, têm filhos e morrem, de causas naturais, eventos trágicos e contaminados pelo vírus. São fatos da vida. Apesar do isolamento e distanciamento social, o ciclo da vida continua e aos poucos temos que sair do bunker que transformamos nossos lares, equipados com todos os recursos necessários para a sobrevivência para retomar o equilíbrio que perdemos para seguir com a missão de conciliar a realização dos sonhos, equilibrar-se em relacionamentos, encontrar paz de espírito, saúde e segurança financeira.

Portanto, sempre que encontro em uma situação difícil, respiro fundo e penso: a vida é toda interconectada. Se o problema surgiu, um caminho deve haver que leve a solução. Surgiu a doença, no tempo que foi possível, descobriram a vacina. Nossos corpos estão se curando. A vida segue o curso. Inexorável!
As vacinas, ainda que lentamente, estão sendo aplicadas, as pessoas estão imprimindo certa normalidade aos dias. Muitos, provavelmente começaram a se sentir melhor, livres dos medos obscuros, da incerteza e das premonições em relação ao futuro. Entretanto, concordamos que o fim da pandemia não significa uma mudança mágica e perfeita de volta à vida Pré-Pandêmica. A transição para a era Pós-Pandemia pode ser lenta e incerta quanto ao comportamento do vírus ao longo de um tempo vindouro.

Mesmo assim, a vida não precisa ser essa série de crises inquietantes e custosas, que ao fim, quase conseguiram desmontar a vida humana, não enquanto houver a exuberância dos sofridos ipês colorindo as avenidas, nos ensinando que devemos nos fortalecer para atravessarmos as rigorosas secas e os bravios invernos da vida.

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