É preciso coragem para admitir fraqueza

Não precisamos de permissão para sermos humanos. Ignoremos as críticas. Muitas pessoas vivem tentando obedecer a padrões que são difíceis de alcançar, sem causar transtornos emocionais.

Necessidade não temos de nos encaixar em um molde perfeito, porque a perfeição vai estar sempre além do que fazemos. A tempestade perfeita dá-se quando nos esforçamos o tempo todo para agradar outros, para corresponder às expectativas alheias, enquanto o que torna a vida mais feliz é nos aceitarmos como somos, transparentes e imperfeitos, sem tantas justificativas.

A vida é dura. Vivemos todos sob pressão. Nem sempre, nem todos os dias, corpo e mente estão em sintonia para realizar tarefas treinadas e repetidas à exaustão por anos. Entre críticas, comentários de apoio e compreensão, a ginasta norte-americana Simone Biles, 24, causou perplexidade no Japão, ao desistir das finais olímpicas, para as quais estava classificada, alegando necessidade de preservar a saúde mental.

Biles explicou que não se reconheceu numa apresentação. Corpo e mente se desconectaram, ela ficou desorientada enquanto seu corpo subia e girava no espaço, experimentou uma sensação terrível de bloqueio mental repentino, perda total da orientação espacial e exatamente esse sentido de orientação precisa sempre foi característica admirada na atleta. A pressão de ser o rosto dos Jogos de Tóquio foi algo acima do que suportaria a mente de Simone, que há anos já dava sinais de que algo não ia bem.

Virou rainha da ginástica aos 19 anos, nas Olímpiadas do Rio de Janeiro em 2016. Chegou simpática, brilhou no solo, conquistou 4 medalhas de ouro e 1 de bronze e disse que quando terminasse a competição, só queria ser normal e sair para comer uma pizza de pipperone. O que esperavam dela em Tóquio? A mesma coisa; simpatia, apresentações impecáveis e muitas medalhas.

Pesquisei o hiato entre as Olimpíadas do Rio e de Tóquio, ou seja, de 2017 a 2021. É possível encontrar inúmeras entrevistas de Simone Biles falando sobre o quadro depressivo que enfrentava, sobre o desconforto e a vergonha de ter sido abusada sexualmente, sobre as terapias, as possibilidades de cura, mas a ginasta Simone continuou treinando, para confirmar seu nome como a maior ginasta de todos os tempos em Tóquio, sem contar que, em desalinho com o corpo, a mente ordenou um passo para trás para curar-se do abandono da mãe, do escandaloso caso do assédio sexual envolvendo omédico da Confederação Americana de Ginástica Olímpica, da cobrança pelo ativismoracial, para declarar-se engajada no movimento “Black LivesMatter”.

A confirmação de que fora abusada veio a público por uma mensagem dela mesma no ano de 2018 e num jornal de grande audiência na TV Americana, Simone confirmou o quadro de depressão, disse estar fazendo terapia e fazendo uso de medicação para controlar a ansiedade. “Eu estava muito deprimida. Eu dormia o tempo todo e disse para meu advogado que eu dormia porque dormir era a coisa que mais parecia com a morte”.

Assumida a depressão, assunto sendo tratado de forma transparente, em 06 de julho passado, antes de embarcar para Tóquio, Simone Biles postou: “Acho normal eu dizer que preciso de ajuda. Não há nada errado nisso. Os atletas estão falando mais sobre isso. No final do dia, somos iguais a vocês”.

Na última entrevista da semana, Simone concluiu: “Não confio mais em mim mesma, tenho que me concentrar na minha saúde mental” e assim termina sua participação nesta que deve ser sua última Olimpíada.

Parar, interromper não é uma construção premeditada, não é uma degeneração de habilidade, às vezes é necessário para encontrar a lucidez. Falhar, retroceder é normal, como nos recuperamos é o que importa.

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