Deixe-me ir

Desde a Antiguidade até os dias atuais, muitos homens e mulheres escolhem dar fim às suas vidas. Apesar do ato de suicidar-se estar presente em toda a trajetória histórica da humanidade, na Idade Média, no domínio do Cristianismo, o suicídio foi proibido. Pessoas que cometiam suicídio eram enterradas sem ritos religiosos, muitas vezes fora de cemitérios. A morte voluntária passou a ser discutida como um ato condenável, tanto que na Europa do século XVII, se a tentativa de suicídio falhasse, o sobrevivente poderia ser encarcerado.

É fato que cada época possui suas características peculiares. Todas as sociedades produzem seus estranhos, seres sensíveis, doentes, desajustados, desesperançosos e fechados em si mesmos.  Se os estranhos são pessoas que não se encaixam nos mapas cognitivos, moral ou estético da sociedade, eles tornam tênues as linhas de fronteira dão origem ao mal-estar de sentir-se perdido.

Sobre sentir-se perdido, Cartola explica: “Deixe-me ir, preciso andar, / vou por aí a procurar / rir pra não chorar. / Se alguém for lhe perguntar, / diga que eu só vou voltar / depois que eu me encontrar”. (Cartola, 1976)

O suicídio é a negação da própria vida de forma voluntária. As causas do suicídio podem ser completamente diferentes, porém, uma pessoa toma a decisão de cometer suicídio com base nas dificuldades do ponto de vista psicológico e sociológico. Só tenho ligitimidade para adentrar o campo sociológico, onde há publicações interessantes que indicam que apenas o homem é capaz de refletir sobre sua própria existência e tomar a decisão de prolongar ou pôr-lhe um fim.

12.895 pessoas se suicidam no Brasil, ano passado, no entanto, é  possível afirmar que o número de suicídios no país pode ser maior, pois muitas pessoas omitem ou inventam outra causa para a morte do ente querido por conta do estigma social que o suicídio possui no seio da nossa sociedade.

Cada suicídio individual, em sua forma e análise, encerra uma história em si mesma, com as circunstâncias específicas que levaram àquele ato fatal. Portanto, não creio que exista uma fórmula para explicar por que as pessoas se matam. Até porque muitos fatores diferentes devem ser considerados e esses fatores são tratados transversalmente por diferentes ciências para tentar entender o estado mental de indivíduos suicidas durante as crises sociais e todos os outros fatores que direta ou indiretamente podem levar ao suicídio.

O sociólogo francês Émile Durkheim publicou, em 1897, a obra Le suicide, na qual relaciona o suicídio a causas sociais e reforça que é uma das ações mais individuais e solitárias que só o homem é capaz de fazer. Durkheim pesquisou suicídios vários anos, em vários países e concluiu que a ocorrência do suicídio nada teve a ver com localização geográfica, filiação política e religiosa, predisposição genética. Segundo Durkheim,  alterações nos níveis de suicídio só podem ser explicadas pelas relações sociais ou por atos de solidariedade. Em sua essência, o suicídio é um fenômeno social, porque ocorre em consequência da relação perturbada entre o indivíduo e a sociedade.

Marx também escreveu sobre o suicídio e ao final de uma reflexão sobre o tema, Marx chega a seguinte conclusão: Que tipo de sociedade é esta, em que se encontra a mais profunda solidão no seio de tantos milhões; em que se pode ser tomado por um desejo implacável de matar a si mesmo, sem que ninguém possa prevê-lo? Tal sociedade não é uma sociedade; ela é, como diz Rousseau, uma selva, habitada por feras selvagens.

A contemporaneidade traz-nos a desesperança de Zygmunt Bauman, que  apresenta-nos as inquietações da modernidade líquida, um universo marcado por relacionamentos de laços frágeis, amores que escapam e  escorrem entre os dedos, onde se desvelam os dramas individuais e coletivos de indivíduos fragilizados pela liquidez dos sentimentos, dos momentos, dos ressentimentos, dos rompimentos, da aceitação. Peso excessivo para muitos!

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