Em busca da batida perfeita

Conheci o sociólogo Fábio Gomes num seminário sobre reputação política no mandato, em Brasília, 2019. A palestra veio de encontro a um tema que sempre considerei muito importante e o meio político, muitas vezes, vira-lhe a cara, a construção da reputação de mandato, para que eventos esporádicos, mesmo que arranhem a imagem, não destruam a reputação.

Fabio disse que “a imagem é pontual, todo mundo vê, são notícias quentes, que todo mundo comenta. A reputação é uma construção sólida, é o que estrutura a imagem, o que as vêzes, nem é percebido. A imagem arranhada, restaura. Reputação arranhada é difícil restaurar, quase sempre, é fim de jogo”.

Metáforas e lendas mitológicas foram utilizadas para fazer a distinção entre imagem e reputação (não são sinônimos). Imagem política é reforçada por um fato acertado aqui, um fato errado acolá. Reputação é a soma do tempo, a média que se tira da história de vida, a média dos factuais, onde erros podem ser relevados diante dos acertos e nem sempre determinam baixa na reputação.

Ele diz que estamos em busca da batida perfeita na política. Políticos não devem fazer discurso em cima do que não lê, o contexto da reputação leva em conta a a vida como ela é, o mundo da vida real, a construção do discurso, do conhecimento, das expectativas que são criadas. Não se constroi boa reputação política sendo do tipo “eu faço, eu resolvo, eu falo e você curte e compartilha porque eu tenho a batida política perfeita”.

No ambiente polarizado que engoliu o diálogo, o bom senso, o filtro, a própria razão, os indivíduos aceitam e reproduzem todo conteúdo vindo de seus líderes políticos, como se estivessem ouvindo a batida perfeita, o sociólogo recorreu a lenda mitológica de Zeus, o rei dos deuses, Hera, sua esposa e Eco, uma contadora de histórias. Hera desconfiou que Zeus a traia com Eco. Jogou Eco no Vale das Penitências com a maldição de que ela nunca mais pronunciaria uma palavra espontânea. A partir da maldição, Eco só repetiria o que ouvisse.

Alí, circulando no vale, Eco conheceu Narciso, por quem se apaixonou mas devido a maldição não conseguiu se comunicar com o belo jovem que ao perceber que Eco so repetia o que ouvia, afastou-se. Desiludida, Eco embrenhou-se numa caverna e definhou até a morte, deixando apenas sua voz ecoando pelo vale. A maldição de Eco pode ser percebida em muitos processos de comunicação política entre o lider e os seguidores.

Construir e reforçar a reputação para que esta seja submetida aos filtros ideológicos e sociais dos seguidores é um trunfo do qual, poucos lídere políticos se valerão porque não investiram tempo e discernimento na busca pelo bem comum, pelo diálogo com menos militância e paixão e mais razão,
maior percepção da realidade e menos subjetivismo, mais compromisso com a verdade, tolerância às ideias divergentes.

Não, não estou falando de um mito grego, mas de políticos que existem e que honestamente admitem não ter encontrado a batida perfeita, não estão aprisionados e amaldiçoados com a perda da palavra espontânea e não disparam bala mágica com mensagens que não podem ser questionadas ou contrariadas.

Políticos que não gostam de ser contrariados se comunicam com seus eleitores baseados na “teoria da bala mágica” ou seja, apostam que suas mensagens são tiros certeiros que adentram a mente dos seguidores sem encontrar resistência, da mesma forma que uma bala penetra a pele e se aloja sem dificuldade no corpo da vítima. Segundo essa teoria, a mensagem política deve surtir o efeito de uma bala disparada por uma arma de fogo. Não importa o conteúdo, são precisas e os indivíduos que as recebem, são vulneráveis e facilmente manipuláveis.

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