2022-uma conversa inadiável

Desde a década de 1950, os cientistas políticos teorizam que a polarização, o fato de ver o mundo adicionado a um viés ideológico em tudo, está associada a incapacidade de tolerar a incerteza e a uma necessidade de manter crenças previsíveis sobre tudo. Descobriram que a percepção polarizada,  percepções ideologicamente distorcidas da mesma realidade é mais forte nas pessoas com  menor tolerância à incerteza em geral, isto mostra que parte da animosidade e mal-entendidos que vemos entre as pessoas não se deve a diferenças irreconciliáveis ​​nas crenças políticas, mas depende de fatores surpreendentes  e potencialmente solucionáveis, como a constante incerteza que todos nós experimentamos na vida diária.

Muitas das nossas diferenças são sobre valores fundamentais e não apenas sobre política porém, o senso comum resgistra que estamos mais divididos do que nunca, por razões políticas. Faltando dez meses para as eleições gerais de 2022, fico imaginando o quanto a polarização política reduziu a qualidade do tempo das familias que se reuniram à mesa de jantar na passagem do ano.

Quando surgem diferenças, muitos de nós, não sabemos como e quando persuadir ou apenas escutar. Nossas conversas políticas geralmente giram em torno da proclamação entusiasmada das nossas próprias crenças, enquanto questionamos as motivações e a moralidade de quem se opõe a nós, embora saibamos que não é assim que se muda a mente de pessoas com convicções fortes. Nossas declarações políticas não precisam ser consensuais, basta que sejam respeitosas.

Em 2022 vamos ter que falar sobre política em que pese não termos aprendido a lidar com  nossas crenças e respeitar as crenças alheias ao mesmo tempo. Com a família, costumamos supor que temos muito em comum e quando as diferenças despontam marcantes, a discussão é inevitavel, é como se um membro da nossa família estivesse nos sabotando, colocando nosso bem-estar em risco.

Com familiares e amigos nos sentimos tentados a partir para o convencimento e compartilhamento de nossas crenças mais do que fazemos com conhecidos com quem não temos interações próximas porque tememos ser encurralados e não dispor de argumentos bem construídos para sustentar uma discussão com pessoas cujo conhecimento não sabemos até onde vai. Agravamos o problema quando pensamos na política como uma fator segregador de pessoas entre justas e erradas. É como uma forma de dominação. Ou seja, um lado está certo e o outro lado está errado e não há qualquer pista que permita às pessoas descobrirem o que é certo e errado nesta perspectiva singular.

Percebemos que a divisão ocupa nossa imaginação coletiva e por incrível que pareça, isso agrada a milhares. Somos um país aleatoriamente formado a partir de sérias divisões culturais, raciais, regionais e históricas. Nosso sistema partidário dissolve os debates e transforma-os em batalhas, o que faz nossas discussões políticas parecerem impiedosas e desrespeitosas.

Falar além das diferenças não significa comprometer a identidade política ou os valores de alguém, nem é um compromisso centrista. Penso que as pessoas podem se identificar com ideologias políticas específicas, mas permanecerem sensíveis às necessidades dos que raramente são partidários por natureza. 2022 será um ano político mas não precisamos utilizar marcadores de identidade política nas nossas conversas. Uma conversa boa pode encerrar-se em uma conversa respeitosa.

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