Aqui muito se tentou, pouco se fez

Aqui muito se tentou, pouco se fez… a inteligência é minguada*

Os políticos afinam seus discursos, os dirigentes partidários saem a campo a procura de outsiders, de preferência com discurso de exaltação da ética e da honestidade para disputar as eleições de outubro próximo. Essa estratégia, contudo, é centenária e foi assim na busca de um nome fora das oligarquias que dominavam a política no interior de Alagoas, que um dos maiores escritores brasileiros elegeu-se prefeito.

Em 1927, a cidadezinha de Palmeiras dos Índios elegeu seu mais famoso prefeito, Graciliano Ramos de Oliveira, o escritor de renome mundial autor de obras como,  Vidas secas e Memórias do Cárcere, entre muitas outras.

Administrativamente, o município de Palmeiras dos Índios, no agreste alagoano, não ia bem, precisava de mudança. Graciliano Ramos, relutou e por fim aceitou concorrer convencido por amigos de diferentes grupos políticos que apostaram na sua honradez. Aceitou o desafio não sem antes disparar contra os que duvidaram dele: “Apareça o filho da puta que disse que eu não sabia montar em burro bravo!”

Não participou da campanha eleitoral, não fez promessas, não se envolveu em articulações políticas para a escolha dos vereadores mesmo ciente que Palmeira dos Índios não fugia do padrão das cidades pequenas e pobres do agreste, onde o poder dos fazendeiros se sobrepunha ao interesse coletivo e os figurões afrontavam as leis vigentes. Graciliano Ramos foi eleito no pleito de 7 de outubro de 1927. Não teve adversário.

Sem se amedrontar com os poderosos, começou a cobrar o cumprimento das leis, negando favores aos políticos tradicionais da região. Cobrava resultados dos auxiliares e impaciente substituia ocupantes de cargos de confiança que não cumprissem horário e as ordens do prefeito, sem considerar o parentesco com seus apoiadores.

Proibiu a movimentação de gado, cavalos, porcos pelas ruas, muitos propretários insistiam na prática. O prefeito ordenou que todos os bichos encontrados nas ruas fossem recolhidos e o propretário, multado. Ao saber que seu pai, Sebastião Ramos, não acatara a ordem, mandou o fiscal multá-lo. Magoado, o pai veio reclamar com o filho prefeito. Alarmado ouviu de Graciliano que “prefeito não tem pai” e que mandaria apreender os animais toda vez que fossem deixados soltos na rua.

Em outro episódio, Graciliano demitiu seu secretário de Finanças ao desconfiar de sua lisura no cuidado com os cofres do município. O secretário era o irmão do vice-prefeito, que imediatamente foi até o prefeito reclamar da exoneração e dizer que, se o irmão saísse, ele sairia também. O escritor não se abalou e continuou a governar sem vice-prefeito.

Se de um lado a sua postura desassombrada contrariava interesses das oligarquias, por outro ganhava a simpatia da gente comum, pelas obras realizadas, construção de escolas, estradas, nas quais utilizava a mão de obra dos presos.

Ao fim do primeiro ano de mandato Graciliano escreveu no relatório de prestação de contas: “Dos funcionários que encontrei restam poucos: saíram os que faziam política no trabalho e os que não faziam coisa nenhuma”. Os relatórios sobre as contas de Palmeiras dos Índios chamavam a atenção do governador, pela austeridade nos gastos relatados e pela escrita inusitada, que narrava a situação do município e dos moradores com bom humor e ironia.

A administração de Palmeira dos Índios começou a figurar como um exemplo de trabalho e honestidade, o que colocou o município em uma situação de destaque e  levou o governador a convidar Graciliano Ramos para assumir a chefia da Imprensa Oficial do Estado.

Dois anos após tomar posse, Graciliano Ramos aceitou o convite do governador, renunciou à Prefeitura de Palmeira dos Índios em 30 de abril de 1930, para assumir a Imprensa Oficial do Estado, em Maceió. As pessoas que tiveram seus interesses contrariados comemoraram a sua saída da prefeitura. Tempo depois, Gracialiano Ramos foi nomeado o equivalente a Secretário de Educação do Estado de Alagoas.

Palmeiras dos Índios é hoje o quarto maior município de Alagoas.

*frase de Graciliano Ramos num dos relatórios de prestação de contas enviados ao governador de Alagoas.

Uruguai – caso de sucesso na educação

Entrando no segundo mês do ano de 2022, o mundo da educação está em um momento crucial. A pandemia continua a atrapalhar o aprendizado diário das crianças em todo o país, trazendo ansiedade e incerteza para o início de mais um ano letivo.  

Parece que é impossível recuperar tudo o que foi perdido em termos educacionais nos  últimos dois anos  e a pergunta de um aluno do Centro de Educação Unificado Casa Blanca, em São Paulo, para a sua professora ecoou como um grito de socorro para que a escola fique aberta. “Professora, demora muito a hora da janta? Na minha casa não tem gás, então de manhã eu só comi bolacha”. A pergunta do aluno é a constatação de que a merenda distribuída pelos governos, sobretudo municipais, é grande aliada no combate à fome e no desenvolvimento da criança, que também têm acesso ao lazer e serviços de saúde por meio da escola. 

Profissionais da educação do Banco Mundial e UNICEF fizeram um estudo sobre as reais possibilidades de se reverter as perdas educacionais ocasionadas pela pandemia, conforme o esperado, mostram que o impacto da pandemia no aprendizado dos alunos do ensino fundamental e médio é muito significativo, deixando os alunos em média cinco meses atrasados ​​em matemática e quatro meses atrasados ​​em leitura, por ano letivo. A pandemia inegavelmente acabou atingindo mais duramente os alunos historicamente desfavorecidos, que não conseguiram acessar a internet o tempo necessário, ou tempo algum.

O Uruguai é a história de sucesso na análise do Banco Mundial. O país se adaptou rapidamente ao ensino digital e em plena pandemia as crianças uruguaias continuaram a aprender, sem interrupção. Eis a razão: Nos últimos dez anos, o governo uruguaio investiu maciçamente em infraestrutura escolar, conteúdo digital e capacitação de professores, montou centros de suporte digital de última geração para as escolas, deixando o país bem preparado para migrar para o ensino online quando as salas de aula fechassem. Implementou a política de “um laptop por criança” e criou até uma agência estatal para atender as demandas da educação digital.

Quando as escolas fecharam, o governo conseguiu responder rapidamente distribuindo material digitalmente e personalizando o ensino remoto para o nível de aprendizado de cada aluno. Resultado do investimento? 98% dos alunos usam a educação remota regularmente, inclusive nas áreas rurais.

De modo geral o que os pesquisadores constataram foi a realidade de professores que desconheciam atividades digitais básicas, governos que não investiram em  infraestrutura digital para apoiar o aprendizado online, o que ocasionou as perdas educacionais e negou às crianças a possibilidade de se manterem em contato com colegas de classe e professores. Embora a aprendizagem digital não produza os mesmos resultados que a educação presencial, o investimento governamental em tecnologia usada de forma eficaz e includente pode preencher as lacunas educacionais e evitar a perda de aprendizado, como ocorreu no Uruguai.

Na maioria dos lugares, os sistemas educacionais tiveram que lidar com fechamentos de escolas, com acesso desigual às ferramentas de tecnologia, fundamentais para o ensino à distância. Ao mesmo tempo, houve muita discussão e observação sobre os danos sofridos pela educação de crianças e adolescentes, consequencia do distanciamento duradouro dos alunos com o ambiente escolar, acumulado desde o ano de 2020.

A questão central agora é investir na recuperação do aprendizado, olhar para o país vizinho e usar a experiência da pandemia como um catalisador para melhorar a educação de modo geral.