Isso não é literatura, é bruxaria

  • Eu antes era uma mulher que sabia distinguir as coisas quando as via. Mas agora cometi o erro grave de pensar.

A literatura é uma das mais importantes fontes de estudo que nos leva a compreensão de um determinado momento histórico, a literatura nos auxilia a resgatar a história da mulher e esclarecer a condição feminina na sociedade numa determinada época e seus reflexos nos anos futuros.

Neste mês de março, às vésperas do Dia Internacional da Mulher, considero um momento propício para homenagear uma muher ucraniana, naturalizada brasileira, “uma feiticeira glamourosa, um nervoso fantasma que assombra a literatura brasileira.” Clarice Lispector nasceu em 1920 numa família judia na pequena cidade de Podolia, oeste da Ucrânia. Durante a guerra civil que se seguiu à Revolução Bolchevique, seu avô foi assassinado, a casa de sua família destruída e, pouco depois, sua mãe, já com dois filhos pequenos, foi violentada por soldados russos e infectada com sífilis. A família Lispector juntou-se aos refugiados que cruzavam a fronteira tentando fuga para outro continente.

Vieram para o Brasil. Desembarcaram no estado de Alagoas em 1922. O pai, um professor de matemática foi reduzido a vendedor ambulante de roupas usadas. Aos nove anos, Clarice perdeu a mãe e o pai proclamou que estava determinado a mostrar ao mundo o tipo de filhas que ele tinha. Estudou, formou-se em Direito e antes dos 20 anos, perdeu o pai. Aos 23 anos publicou seu primeiro romance, registrou-se como jornalista e começou a escrever para jornais.

Tudo em Clarice Lispector parecia magnético: sua beleza, a fama precoce, o status de ícone na literatura brasileira, suas paixões e máscaras, as explosões inevitáveis e sua trágica história familiar. Em 2016 ganhei o livro “Todos os Contos”, um grosso volume de 654 páginas, onde pude perceber uma mulher de contradições assustadoras, o retrato complexo da escritora e a dor de cabeça de estar muito à frente de seu tempo. A escritora é livre das amarras sociais, mas mergulha no desassossego da falta de sentido de quase tudo e parece concluir que a vida incomoda e que a sua alma não cabe no seu corpo.

 A leitura é viciante, como alertou certa vez um amigo da escritora: “Cuidado com Clarice, ela é uma experiência emocional muito forte. Isso não é literatura. É bruxaria”.

Certa época, surgiu comentário que Clarice era por muitos, tida como uma mulher alienada das questões sociais brasileiras. No entanto, em sua biografia lê-se que ela foi fichada no governo Dutra e depois novamente, durante a ditadura militar de 1964 por como jornalista, continuar dando espaço e entrevistando personagens marcadas como “comunistas” pelo regime. Quando escreveu “A hora das estrelas”, imprimiu um tom de denuncia à miséria e a falta de tudo no Nordete da época.

A personagem Macabéa, nordestina, tão sem nada, que nem corpo tinha para vender.  “Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás – descubro eu agora – eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas”.

Clarice vai emprestando aos personagens suas aflições e desabafos: “Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens.” “E como nasci? Por um quase. Podia ser outra. Podia ser um homem. Felizmente nasci mulher. E vaidosa. Prefiro que saia um bom retrato meu no jornal do que os elogios. Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo!. Hão de me perguntar por que tomo conta do mundo: é que nasci assim, incumbida”.

“Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui.”  Morreu em 1977, aos 56 anos.

*Clarice Lispector

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